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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O Jornalista - VIII

Um turbilhão de ideias surgiam-me. Não sabia por onde começar. Enquanto conduzia o velho Ford que rangia por todos os cantos, a mãe de Jared convidou-nos para comemorarmos o aniversário do filho em casa dela. Por um lado, não queria ir, apesar da senhora estar muito mais simpática e ter-me já dado alguma confiança. Substituía, de certa forma, a minha mãe. Era uma óptima senhora, tal como John, o pai de Jared. Já o seu irmão, mantinha-se mais reticente à nossa relação. Eu achava o Jason tão... diferente dele. Fisicamente, eram semelhantes, embora, segundo Erin, Jared sempre fora mais dotado para levar as coisas para o seu lado emocional, enquanto Jason sempre aplicava a sua exorbitante força. Daí a ser fuzileiro... No entanto, de vez em quando, dirigia-me a palavra para zombar de mim pelos meus escassos ou até mesmo inexistentes, conhecimentos de basebol. Jared lançava-lhe sempre um olhar deveras ameaçador, que o fazia calar durante algum tempo. Audrey, a sua esposa, era uma pessoa muito tímida. Tinha medo de me pedir para lhe passar o sal ou o sumo. Nunca tive grande curiosidade de a conhecer profundamente. Nem para Erin ela falava muito, mesmo vivendo debaixo do mesmo tecto. 
Quando cheguei a casa depois de ter ido à farmácia mais próxima, dediquei-me a fazer alguma coisa para levar. Na verdade, estava entusiasmada com a ideia de irmos jantar a casa dos pais dele. Estava tão entusiasmada, que em vez de ir a casa buscar um casaco porque tinha sujado o meu, decidi ficar em casa. Mal cheguei a casa, ataquei vorazmente um copo de gelado de baunilha e morango. Ainda havia outro no congelador, mas achei melhor ficar por ali. 
O meu telemóvel começou a tocar. Premi a tecla para o atender.
- Onde estás? - questionou, aflito.
- Calma! Estou em casa. - respondi. - Não vou trabalhar de tarde. Vamos jantar a casa da tua mãe, certo?
- Tem de ser, não tem? - inquiriu, com um laivo de descontentamento.
- Convinha... embora não me apeteça ser vítima de um fuzileiro... - Sorri. - Até logo!
Resolvi dar uma pequena limpeza à casa. Quando terminei, sentei-me no sofá a ler mas acabei por adormecer, acordando pouco antes de Jared chegar. Quando vi as horas, quase que tive um ataque! Tinha dormido quase quatro horas. Tomei um banho num instante e vesti-me para me dirigir directamente para a residência de Erin e John. Procurei um dos presentes de Jared e dirigi-me para o carro, onde ele me esperava.
- Eu estava preocupado contigo! Sais, não dizes nada! A Hannah disse-me que tinhas ido comprar champô... onde foste afinal? - questionou com nervosismo.
Esbocei um sorriso.
- Fui... à cabeleireira e depois vim para casa para tentar fazer alguma coisa para levarmos para casa da tua mãe, mas deixei tudo queimar porque adormeci... - menti.
Ele olhou-me de soslaio.
- Hum... deixaste queimar tudo? Adormeceste?
- Sim, adormeci. Acabei de acordar. Até estraguei o meu penteado. - referi apontando para o meu cabelo exactamente igual a todos os outros dias.
Ele disse com fleuma:
- Não me tentes enganar... o teu cabelo continua castanho, comprido, exactamente com a mesma forma e o mesmo comprimento.
Ele não estava a gostar muito da minha pequena mentira inofensiva e eu não estava a gostar daquela sua desconfiança.
Finalmente chegámos a casa da mãe dele. Duas crianças correram em torno de nós. Vi como os seus olhos sorriam ao olhá-las a correr. Apetecia-me dizer-lhe, mas era demasiado cedo. 
Erin veio logo cumprimentar-me, seguindo-se Audrey que estava envergonhada mais uma vez. Jason acenou-me, o que me impressionou. Retribuí. John estava a tratar do churrasco no quintal, assim como Jason e dois primos gémeos com cerca de quinze anos. Todos correram a cumprimentarem-no e a felicitá-lo pelos seus recentes 33 anos. Ele não estava nada feliz por isso... eu sabia-o. 
Fui ajudar Erin a colocar a mesa e a preparar o que faltava do jantar, enquanto Jared ficou a montar um puzzle com as irmãs Laura e Leah.
- Sente-se feliz, Hazel? - questionou, Erin enquanto eu preparava a salada.
- Sim. - respondi. - Por que pergunta?
Ela sorriu.
- Nunca o vi assim! Ele parece que está no auge de felicidade! Já não liga tanto às provocações de Jason e está tão alegre! O que lhe fez?
Sorri.
- Absolutamente nada. Apenas... vivemos.
- Lembro-me perfeitamente quando ele era miúdo... era um rapaz muito bem comportado na escola, sempre muito interessado. Gostava muito daquelas armas de plástico e sempre que saímos, queria uma nova. Cheguei a temer todo esse fascínio... - suspirou. - Eu gosto de si, Hazel. Acho que colocou mais um pouco de juízo naquela cabeça dura!
- Sempre o achei ajuízado.
- Em relação a Jason, sem sombra de dúvida que o é! Mas ele teve uma adolescência tardia. Ele fazia muitos disparates quando tinha 20 e tais... agora parece que está de volta.
Dei-lhe uma leve palmada no braço.
- Eu acho-o um dos homens mais maravilhosos que alguma vez conheci. - Sorri. 
- Às vezes nem quero acreditar que ele já tem 33 anos... Há precisamente 33 anos, ainda era um recém nascido com pouco mais de 50 centímetros e agora já tem mais que 1,80 metros! - Soltou uma gargalhada pouco sonora. - É impressionante que apenas damos conta do seu abrupto crescimento quando é o seu aniversário... Ele já não é mais uma criança, e eu nego-me a ver isso. Outrora o fora. Estamos mesmo a precisar de uma criança em casa como ele! Alegre, simpática e sábia...
- Quem sabe... temos de pensar, qualquer dia nisso. - Sorri.
Ajudei-a a levar os pratos para a mesa, bem como tudo o que era necessário. Imediatamente todos se sentaram em redor da mesa. Laura e Leah disputavam o único local ao lado de Jared. Ele tentava acalmá-las, mas elas eram pequenos demónios! A mãe advertiu-as e eu acabei por ficar no lugar que elas queriam, mas não se ralaram comigo. Fiquei precisamente ladeada pelos irmãos McCallen. Jason, como sempre e para não quebrar a tradição, troçou pelo facto de eu não saber o nome de todos os jogadores existentes à face do globo terrestre. Ignorei-o, confrontando-o também se me sabia dizer quais os nomes de todos os assassinos em série da América ou apenas de Montana. Só sabia o "Fantasma". 
Todos quiseram pormenores sobre o caso, mas eu não lhes podia fornecer nada.
- E que tal mudarmos de assunto? - sugeriu Jared. - Estou farto que falem em trabalho! - disse, irritado.
Começamos então a falar sobre crianças, da alegria que elas podiam trazer a uma casa. Jason, como sempre, confrontou-nos. Eu ruborizei mas Erin pediu-me ajuda, pelo que eu agradeci. Audrey também ajudou a levantar a mesa. Os homens ficaram a ver televisão e a ver cerveja, o que para mim era asqueroso...
Fiquei encarregue de transportar o enorme bolo para a mesa e colocá-lo em frente dele. Com a sorte que tinha, ainda ia tropeçar nos meus próprios pés ou deixá-lo cair. Porém, a minha previsão não aconteceu. Cantámos em uníssono a típica canção... ou quase em uníssono, dado que Jason, "o palhaçinho" como eu lhe tinha chamado nesse dia, resolvia começar de novo quando se lembrava. Até tinha piada, mas não queria concordar com ele em nada. Obrigaram-no a trincar as velas após tê-las soprado com força suficiente para apagar mais de uma dezena. Na azáfama de ir buscar os presentes, todos saíram da mesa.
- Sabes quais foram os desejos que pedi? - questionou.
Sorri.
- Sei.
- Então, coopera.
Soltei uma gargalhada. Ele também sorriu.
As irmãs entregaram-lhe um desenho que ele agradeceu, ficando maravilhado! Segui-se a sua mãe, depois Audrey e Jason, todos os primos e eu tive de esperar para o final.
- Finalmente chegou a minha vez. - disse em tom de brincadeira.
- Cada um tem o que merece, maninha! - comentou Jason. Ignorei.
- Eu não queria nada, especialmente teu. - disse bem alto. - Dás-me tudo o que necessito todos os dias.
Um uníssono de "oh!" e suspiros fez-se ouvir. Evidentemente que ruborizei e não consegui responder nada que se aproveitasse.
- Hum...hum... mas... eu comprei-te isto. Não é suficiente por tudo aquilo que também fazes por mim.
Jason começou novamente com os seus comentários patuscos e desnecessários. Erin, deu-lhe uma pancada no braço.
Eu não lhe queria dar aquele presente. Algo maior esperava-o e era esse que eu queria que ele abrisse. 
Todos estavam curiosos por ele abrir o presente, mas não era nada de mais. Tratava-se de um perfume que ele já andava a namoriscar há algum tempo. Todos esperavam que eu lhe oferecesse um anel ou algo do género, mas eu era ainda da mentalidade que os homens é que deviam dar às mulheres.
No fim de tudo, fomos embora. Ele estava cansado mas feliz. Não disse quase nada pelo caminho, excepto que nunca pensou dizer a uma mulher aquilo que me tem vindo a dizer e o facto de eu ter comido como se não tivesse comido há mais de uma semana.
Sorri à sua observação.
Ele abriu a porta e atirou-se para cima da cama, puxando-me também. Ele estava prestes a adormecer enquanto me acariciava o semblante.
- Jared... - disse a medo. - eu tenho uma coisa para te dizer.
Ele levantou-se e olhou-me com cepticismo e parecia ter ficado abruptamente triste.
- Vais acabar comigo, Hazel? - questionou olhando para cima.
Sorri.
- Não, óbvio que não.
Entreguei-lhe uma pequena caixa embrulhado com um papel engraçado e com um laço no topo. Ele olhou-me com curiosidade e rasgou o papel.
Tentei não falar antes do tempo, mas explodi.
- Eu estou grávida, Jared!
Ele levantou-se freneticamente, com os olhos em lágrimas, com um grande sorriso enquanto as lágrimas escorregavam-nos pelas faces. Ele beijou-me.
- Eu... eu... pedi esse desejo hoje e... assim do nada, dás-me esta notícia que anseio desde há muito tempo! - disse, completamente eufórico.
- Lamento não te ter contado antes, mas eu queria fazer-te uma surpresa. 
Ele pôs-me a mão no ventre, ajoelhando-se e murmurando:
- Meu pequeno McCallen, eu sou o teu pai. - E desatou a chorar como uma criança.
To be continued...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O Jornalista - VII



O maldito despertador acordou-me. Coloquei os pés fora da cama, verificando o estado do tempo. Tinha-se instalado um autêntico vendaval. 
Olhei para Jared que dormia profundamente... não tinha coragem de acordá-lo. Entretanto, fui tomar um duche e preparar o pequeno-almoço. Quando acabava de colocar as torradas no prato, aparece Jared completamente desnorteado por ter acordado demasiado tarde. 
- Podias-me ter chamado mais cedo. Eu não me importava! - disse enquanto se colocou ao meu lado para lhe ajeitar a gravata preta. 
- Estavas a dormir tão bem que não te quis acordar... - confessei.
Ele sorriu e comeu uma torrada à pressa, pegando nas chaves do carro.
- Ah! Ontem ligaram-me a perguntar o preço do apartamento. - fez uma pausa. - Estás arrependida? - questionou.
- Não, não estou. - Sorri. - Podes vender o que quiseres.
Ele beijou-me com ternura a testa e obrigou-me a deixar de arrumar a mesa  que ontem ele tinha colocado, praticamente intacta.
- Estás bem? - perguntou enquanto conduzia.
- Óptima. Por que perguntas?
- Só queria saber como estavas. Só para me assegurar de que estavas feliz.
Sorri.
- Então, posso assegurar-te que sim.
Os meses seguintes foram de felicidade. Jared era uma pessoa dócil, sociável, fácil de lidar e contentava-se com as pequenas coisas. Acima de tudo, tinha um lado sensível aguçado, o que me agradava. Tinha também alguns defeitos... o ciúme era o principal. Ele não suportava Oliver! Era como se fosse um inimigo para ele e Oliver via-o da mesma forma. Eu tentava amenizar o clima mas eles olhavam-se de uma forma tão ameaçadora que eu temia que Jared não conseguisse controlar o seu génio mais cruel e partisse para a violência. Larry sempre teve o cuidado de não fazer com que eles fizessem uma parceria, obrigando-me a trabalhar constantemente com Oliver. A ideia não agradava a Jared. Andava sempre irritado e ciumento quando  eu era obrigada a colaborar nas investigações com o seu mais recente inimigo.
Eu não sabia o que ele tinha a temer. Eu havia assumido um compromisso para toda a vida com ele ou pelo menos assim esperava. Porém, as discussões sobre Oliver tornaram-se cada vez mais frequentes, mas a fera acalmava quase de imediato, temendo que eu me fartasse do seu temperamento. Depois, arrependido, pedia-me mil e uma desculpas. Eu queria ficar zangada com ele por duvidar da minha fidelidade, mas os seus olhos brilhavam como se as lágrimas estivessem prestes a cair em catadupa, e eu não tinha sequer coragem de o advertir. Danava-me com ele, mas nunca dizia nada e desculpava-o instantaneamente.
Entretanto, ele também vendeu parte dos seus bens para o nosso futuro. Conseguiu vender o apartamento, o seu carro e a moto que tanto gostava. Às vezes pensava a quanta sorte que tinha, ao invés de Oliver que teimava que ele era o "Fantasma". Por vezes também cogitava nisso, mas achava impossível alguém tão belo interiormente, ser capaz de cometer uma atrocidade como Oliver dizia. 
- Estive a fazer as contas... - começou ele enquanto pousava o casaco no sofá de pele. - e... - fez uma voz misteriosa. - com o dinheiro que poupei, podemos comprar uma casa maior no centro da cidade, ou então comprar uma casa noutro estado. - Começou a sonhar alto, enquanto me abraçava pela cintura. - Podíamos viver eternamente numa casa de campo. Assim, os miúdos teriam espaço para correr, comunicar com a Natureza, estudar os pássaros... as borboletas, apanhar umas flores silvestres para a melhor mãe do mundo!
Sorri e dei-lhe um beijo na face.
- Sonhas muito alto. - comentei. - Não que me importasse, mas desde que esteja contigo, serei feliz. 
- Eu sonho por mim e por ti... - sussurrou ao meu ouvido lentamente. - Sonhei com isto de noite.
Dei-lhe um beijo.
- Parabéns. - disse. - Hoje é o teu trigésimo terceiro aniversário! - disse com entusiasmo.
Ele olhou para mim céptico.
- Que dia é hoje?
- 21 de Junho. - informei.
Ele beijou-me novamente.
- Temos mesmo de ir trabalhar? - questionou olhando para o relógio. - Não me apetece nada... - disse desgostoso.
- É melhor irmos. Mas toma antes o pequeno-almoço, para não andares a comer batatas-fritas logo pelas dez da manhã como ontem.
Ele soltou uma gargalhada.
- E tu?- questionou enquanto degustava uma torrada.
- Não me apetece... parece que estou... cheia, não sei. Ontem comi comida de plástico e fiquei enjoada todo o dia. A Hannah obrigou-me a experimentar um novo hambúrguer e o meu estômago não o deve ter aceite. - fiz uma pausa. - Come tu.
Bebeu um trago de sumo e colocou o copo na máquina de lavar e dirigimo-nos para o trabalho.
- Podes conduzir mais devagar? - inquiri. - Maldito hambúrguer! - ripostei.
- Eu só estou a uma velocidade de 70 km/h. - referiu.
- Continua, então. - disse fazendo um trejeito com a boca.
Quando chegámos ao trabalho, Hannah, a estagiária com ar de nerd e que envergava quase sempre saia do tipo escocês com botas do liceu, esperava-me com um grande sorriso. 
- Jared, vai indo. A Hannah está ali. Deve querer dizer-me algo.
- Sentes-te bem? - questionou com um laivo de preocupação. 
- Mais ou menos. - respondi. -Vai trabalhar.
Dei-lhe um beijo e fui ter com Hannah.
- Bom dia, Sr. Hazel. - disse Hannah colocando os óculos direitos.
- Hazel, Hannah, Hazel! - vociferei. - Para a próxima, não vou contigo àquele maldito restaurante ou lá o que aquilo é! - ripostei - Estou enjoada por causa daquele hambúrguer que me obrigaste a engolir! É o que faz eu acreditar nos estagiários... - murmurei, apoiando-me num poste. Estava mesmo mal.
- Desculpe... não era a minha intenção fazê-la ficar nesse estado... lamentável.
- Ainda por cima, dizes-me que estou com um ar lamentável... Logo hoje que Jared faz anos...
Dirigimo-nos para o interior do edifício.
- Estás bem? - questionou Larry dando-me uma pequena palmada no ombro.
- Estou óptima... - murmurei.
- Se quiseres podes ir embora. Tens trabalhado exaustivamente.
- Não eu fico. - disse enquanto me sentava na cadeira.
Joanna teve de me substituir na investigação com Larry. 
Ao almoço mal toquei na comida. O cheiro entranhava-se nas minhas narinas, e causava-me repulsa.
- Não quer comer nada? - questionou Hannah, estendendo-me uma sandes de atum.
- Bah! Não me fales em comida! Ainda sinto o sabor daquele hambúrguer...
Hannah, abruptamente, sorriu.
- Não estará...?
- Hã?! Não estarei o quê? - questionei.
Ela não respondeu, limitando-se a sorrir. Comecei a perceber onde ela queria chegar.
- Achas que estou grávida?
- Acho. - respondeu enquanto dava uma última dentada na sua sandes.
- Acho que preciso de confirmar isso... - disse em pânico. - Empresta-me as tuas chaves e mente quando o Jared questionar a minha ausência.
Atirou-me as chaves e conduzi o seu velho Ford.

domingo, 16 de janeiro de 2011

O Jornalista - V

Os dois dias que foram passados sem Jared foram um autêntico martírio. Não estava habituada a uma casa tão silenciosa. Costumava ouvir um constante premir de teclas e a sua voz a cantarolar músicas que ouvia na rádio. Ele passava a maioria do tempo em casa, a escrever colunas e mais colunas para o jornal da cidade.
Dediquei-me à pesquisa de dados dele. Vim a descobrir que afinal o homem tinha-se enganado no nome do aluno. No ano em que ele tinha frequentado a faculdade, existiam dois Jared Charles McCallen, tendo o outro aluno outro apelido no final. O homem ligou-me pedindo-me desculpas. Fiquei bem mais aliviada e descartei novamente essa hipótese. No trabalho aproveitei para ver se ele tinha cadastro, mas estava limpo. Verifiquei o nome dos seus pais e irmãos e coincidiam. Falei com amigos dele e todos me confirmaram que ele tinha tirado o curso em jornalismo e que nunca fora um jornalista muito conceituado, embora lutasse para isso. 
Oliver começou a ir trabalhar novamente, o que me alegrou ainda mais. A primeira vez que o vi fiquei perplexa a olhar para ele. Não parecia o Oliver que eu tinha conhecido. Carregava as suas malas morosamente e tinha deixado crescer a barba. Quando me viu, não sorriu. 
- Olá Hazel. Como tens andado? - questionou enquanto me dava um abraço.
- Bem, e tu? Não imaginas o quanto me deixaste preocupada! Eu preocupo-me contigo, sabes disso não sabes? 
Mudou de assunto.
- Gostaste das minhas flores?
Gaguejei.
- Hum... gostei, sim, óbvio que gostei.
Ele sorriu com ironia.
- Ouvi dizer que tu e o Jared estão a dar-se lindamente.
Suspirei.
- É verdade. Já estamos juntos há algum tempo.
- Eu sei. - disse-me olhando nos olhos. - E sei que embora não tenha conseguido provar nada, que ele é o assassino que tem feito esta série de assassinatos. Eu não percebo como consegues ser mesmo cega! - vociferou. 
Comecei a ficar nervosa.
- Eu estive a investigar estes dias em que ele esteve fora e ele não é quem tu pensas! E mesmo que fosse, eu continuaria a amá-lo e a ser amiga dele. Eu nunca me fez nada de mal, sempre foi impecável para mim, ao contrário de ti. - disse com nervosismo deixando-o a barafustar.
No dia seguinte fui buscar Jared ao aeroporto. Quando vi o avião a chegar, corri o mais que pude até ao interior do edifício. Subitamente vi-o a caminhar com o ar um pouco abatido. Trazia a máquina fotográfica ao pescoço e carregava as malas nas mãos. Olhava para todos os lados e quando e viu sorriu. A minha condição física já não era a mesma de há seis ou sete anos, por isso ainda estava ofegante. Porém, ele ainda teve forças de correr mesmo com o seu aparente cansaço.
Ele nem sequer me disse nada. Abraçou-me como se não me visse há mais de uma ano.
- Estava a ver que nunca mais voltava... - murmurou.
- Ainda bem que voltaste. Aquela casa era um tédio com a tua ausência. - confessei. 
Abruptamente, afastou-me.
- Vamos embora. Estou cansado. Mal posso esperar por cair na cama e comer um hambúrguer. 
Caminhamos até ao exterior e eu conduzi o carro. O apartamento ainda ficava um pouco longe do aeroporto, pelo que ele acabou por adormecer. Baixei o volume da música.
- Podes deixar estar assim. Não estou a dormir.- disse ele recostando-se no banco.
- Está bem.
Ele abriu os olhos e bocejou.
- Estás esquisito. O que se passou? - questionei enquanto contornava uma rotunda.
- Tu também estás, Hazel. 
Sorri.
- O que andaste estes dias a fazer?
- Quando cheguei fui para o hotel, depois fui a uma conferência e entretanto houve um acidente na estrada nacional. Dirigi-me para o local, tirei umas fotos, investiguei umas pessoas e quando acabei fui para o hotel. No dia seguinte liguei-te, preparei as malas e reparei que estava a chover torrencialmente. Liguei para a agência de viagens a pedir uma passagem de avião mais cedo, mas não conseguiram. Senão tinha chegado ainda ontem.
Pelo caminho ele relatou-me mais pormenores da sua viagem. Apesar de estar cansado, falava exaustivamente. Parecia mesmo que já não me via há mais de um ano. 
Chegámos finalmente ao apartamento. Ele não quis que o ajudasse a levar as malas. Preferiu que eu lhe confeccionasse um daqueles hambúrgueres que só eu sabia fazer. Fui subindo as escadas até que ao cimo encontrei Oliver sentado nos degraus. Estremeci. Jared vinha mesmo atrás de mim. 
- Olá Oliver. O que fazes aqui?
- Vim apenas falar contigo. Desculpa o que te disse ontem.
Olhei para trás e vi Jared a bocejar sem ainda ver Oliver. Levantou a cabeça e viu-o, olhando-o com um ar ameaçador. Oliver fixou-o também.
- Hum... Oliver... este é o Jared. - disse, tentando romper aquele clima.
Jared agiu com normalidade. Estendeu-lhe a mão. Só esperava que ele não lhe desse um murro.
- Eu sou o Oliver. - disse cinicamente.
- Eu sei. Hazel passa a vida a falar em si! É bom finalmente conhecê-lo! - disse também cinicamente. Ele não podia com ele mesmo sem o conhecer.
- Imagino... - murmurou. - Bem, cheguei em má altura. Amanhã falámos, Hazel. - disse. - Adeus, Jared. Prazer em conhecê-lo pessoalmente! 
- Igualmente, amigo. 
Oliver desceu as escadas e Jared teve um ataque de ciúmes.
- Não gosto nada dele! Tão cínico! Já me deixou mal disposto para além de cansado. - resmungou.
- É impressionante como ele mudou...
Enquanto Jared desfazia as suas malas e colocava a roupa na máquina para lavar, preparei-lhe o hambúrguer. Comeu-o em instantes. 
- A comida de lá era uma autêntica porcaria. Eu prefiro os teus jantares, almoços e lanches àquela comida demasiado requintada. Bah! - fez um trejeito com a cara.
- Fico contente que gostes mais de comida simples do que aquela toda requintada! - comentei sorrindo.
Ele sorriu dando a última dentada no seu segundo hambúrguer.
Depois do jantar, sentei-me na cama e comecei a ler um livro que ele me tinha dado numa das últimas viagens. Ele deitou-se e fechou os olhos, voltando-se para mim. Pensei que ele tinha adormecido porque passei mais de uma hora a ler. Deitei-me e apaguei a luz. 
- Hazel, tenho uma coisa para te dizer... - disse ele abrindo os olhos.
Apanhei um susto quando ele começou a falar. Pensei que estivesse a dormir.
- Eu tenho 32 anos. Daqui a dois meses tenho 33. Daqui a sete tenho 40. - continuou. - Tu tens 28, daqui a um mês fazes 29. Daqui a sete anos terás 37.
Não estava a perceber o seu racicínio.
- Onde queres chegar com isso, Jared?
Ele silenciou e suspirou.
- Eu quero um filho.