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sábado, 19 de fevereiro de 2011

O Jornalista - XVIII (Final)

O dia não amanhecia com a mesma jovialidade. Era como se me tivessem arrancado um pedaço de mim. 
Começava a habituar-me ao calor matinal do Texas e, sobretudo habituei-me a acordar ao lado de Jared, a receber o seu beijo selvagem mas carinhoso, o ouvir a sua voz a sussurrar-me frases lindas ao meu ouvido. Mas agora nada disso podia acontecer. Acordava com o som imperativo da chuva a esbarrar contra a minha janela, sozinha, sem aquele beijo tão bom e doce. Era doloroso recordar tudo o que havia passado com Jared... A única coisa que me fazia feliz era saber que existia uma criança com um sorriso encantador que me esperava.
Levantei-me daquela cama que não me pertencia e procurei os meus chinelos, levantando o pequeno para a cozinha. Como habitualmente perdi-me naquela casa demasiado grande para o meu cérebro assimilar tantas divisões e todas elas tão distintas. 
A casa de Oliver era sem dúvida um palacete. Os seus pais eram donos de uma grande empresa e oscilavam sempre entre Helena e Massachusetts, até que o avião na qual viajavam despenhou-se em pleno Atlântico. A partir daí, e com apenas 22 anos, Oliver começou a viver naquele palacete e tratou de vender a empresa o mais depressa possível.
Olhei para o pequeno JC e questionei-o, inutilmente, para onde era a cozinha. Era incrível como ainda não tinha memorizado o percurso após mais de um ano a viver com ele. Ora, na expectativa de acertar no caminho, enveredei pelo primeiro corredor que vi, virei à esquerda e abri uma porta que se assemelhava à da cozinha. Efectivamente era. Abri-a cuidadosamente e vi Oliver, ainda de pijama, a tomar um copo de leite a olhar-me com um olhar inexpressivo, vazio...
- Bom dia, Oliver. - disse-lhe.
JC apressou-se a pedir-lhe colo. Pensava que era o seu pai verdadeiro. Oliver segurou-o com firmeza e começou a brincar com ele e a ensiná-lo novas palavras, enquanto eu preparava o leite para ele. 
- Bom dia, Hazel. Desculpa, estava demasiado distraído. - disse aproximando-se de mim com Jared ao colo.
Sorri-lhe e levei o leite para cima da mesa. Jared já conseguia pegar no biberão sem o entornar. Por precaução, estive por perto para não ter de limpar o chão. Depois de o vestir para ir para a ama, vesti-me e peguei nas minhas chaves e saí para não chegar atrasada ao emprego. Deixei Jared na ama e passei pela prisão sem Oliver saber. Entrei e Fred deixou-me passar sem rodeios. Já sabia onde ele estava. Encaminhei-me pelo sombrio corredor até à sua cela. Estranhei não o ter visto logo à primeira. Chamei um indivíduo que estava completamente pedrado mas ele ignorou-me. Clamei por Jared mas ele não me respondia.
- Pst! - ouvi e olhei para trás. Um homem balofo e negro chamava-me. - Procura Jared McCallen?
- Sim, procuro. - respondi. - Sabes alguma coisa sobre ele ou onde ele possa estar?
Ele sorriu e evidenciou um palito na boca.
- Hazel, certo?
Acenei com a cabeça.
- Morgan. - continuou estendendo-me a mão. Retribuí. - Desculpe ser eu a dar-lhe esta notícia mas ele... bem... não deve estar nele.
Estranhei aquele discurso.
- Como assim? - questionei com rispidez.
- Bem, ele deve estar completamente... pedrado. Entende?
Abanei a cabeça em sinal de compreensão. Voltei-me para a sua cela e comecei a bradar pelo seu nome. Todos começaram a protestar por os ter acordado. Finalmente ouço um gemido e alguém a rir-se muito. 
- Hazel! Estás aqui! - disse, deambulando até ao limite com um sorriso e um olhar muito estranho. Olhava-me como se fosse um prémio.
Olhei-o com desprezo. Ele estava sob o efeito da droga, bem como todos os ocupantes da cela. 
- Costumavas ser o homem que eu amava e eu vim aqui, como habitualmente faço, para te ver, para ver como estás. - disse com a voz a falhar. - Preferia que fosses um assassino a seres um drogado que me olha como se eu fosse de comer. - referi com rispidez.
Ela caiu e começou a rir-se. Caminhei sobre os meus saltos altos emitindo um som propositadamente audível. 
- Hazel! Volta aqui! - disse em tom de suplica.
Continuei a caminhar. 
Quase todos os dias visitava-o, levava-lhe a mais recente fotografia do seu filho e ele ficava contente. Nos últimos meses parecia que ele cheirava a álcool e não parecia o mesmo. O seu beijo parecia feroz, demasiado pesado para os meus lábios. A sua voz parecia mais ríspida e menos melodiosa. Ele não era o mesmo homem carinhoso, com bom carácter e absolutamente belo interiormente.
Quando cheguei ao exterior, não consegui conter as minhas lágrimas e uma torrente jorrou. Cheguei ao escritório e fui à casa-de-banho. Passei por Oliver no corredor que limitou-se a sorrir-me carinhosamente. Ignorei-o. Naquele dia, tudo parecia errado! Estava tudo doido, a maldita reunião acabou por ser um verdadeiro fiasco! Larry estava impossível e eu tive imenso trabalho após essa reunião. Mal chegaram as seis da tarde, peguei nas minhas coisas e dirigi-me para o meu carro. Estranhei o facto do carro de Oliver já lá não estar. Na verdade, já não o via há bastante tempo. Mesmo assim, conduzi até à casa de Oliver. Introduzi a chave na fechadura e deparei-me com o casaco que tinha vestido a JC de manhã no cabide. Caminhei e vislumbrei Oliver deitado no sofá num sono que parecia ser tão profundo que nem tive coragem de acordar. Aproximei-me dele e vi que JC repousava também ao seu lado. Achei o cenário tão deleitoso que me sentei no sofá em frente a olhá-los. Era impressionante como Oliver tinha estabelecido uma relação tão forte pela criança que ele dizia desprezar. Subitamente os seus olhos verdes fixaram os meus e a sua boca sorriu-me. Acordei daquele estado de hipnose. Oliver levantou-se morosamente e cobriu JC com um cobertor.
- Vi que estavas a chorar, Hazel. O que se passa?
Levantei-me do sofá e fui pousar a minha mala no meu quarto. Ele segui-me fielmente.
- Oliver, eu... tenho ido visitar Jared... - confessei.
- Eu sei disso. 
Olhei para ele perplexa enquanto atirava a mala para cima da cama. Encostei-me à cómoda. 
- E... ele não é o mesmo... - disse.
Ele já devia estar a prever que eu iria choramingar e ele ir-me-ia servir de consolo.
Oliver deslocou-se até mim e levantou o meu queixo até me olhar fixamente nos olhos.
- E?
- E... ele agora passa a vida drogado. - voltei a face.
Um silêncio perturbador encheu o meu quarto. 
- Ainda o amas? - inquiriu, aproximando a sua boca da minha.
Olhei-o e não me afastei. Ele comprimia-me contra a cómoda.
- Não, Oliver. Achei que sim... achava que sim. - murmurei.
Os seus olhos verdes, profundos e expressivos brilhavam e fixavam os meus insignificantes olhos castanhos.
- Eu amo-te, Hazel.
Num gesto rápido, puxou-me contra si, beijando-me, comprimindo-me contra ele. As minhas mãos estavam sem reacção, até que as elevei e as pousei no seu pescoço. Abruptamente parou, mas agora ele não iria ser rejeitado. Foi a minha vez de o puxar contra mim. Ele rodou-me e ele ficou encostado contra a parede. Parámos novamente, ficando as nossas testas unidas.
- Eu... vi bem o que fizeste? - questionou com cepticismo.
- Sim, viste. - fiz uma pausa. - Finalmente apercebi-me daquilo que perdi durante quase dois anos.
Novamente me beijou mas com uma maior ferocidade, parando pouco depois vendo que JC estava a chorar.
- Por favor, deixa-me dormir neste quarto contigo. - pediu ele agarrando-me ainda pela cintura. Eu continuava com as minhas mãos envoltas no seu pescoço. 
- Desculpa tudo o que te disse e todas as vezes que te repeli. - disse, puxando-o novamente. 
- Gosto desta tua faceta que me era desconhecida. - disse roubando-me um beijo.
Sorri. JC continuava a chorar. Larguei-o.
- Acho que temos de ir ver o que ele quer... - disse Oliver dando-me a mão. - Hazel...
- Não, eu amo-te! - disse-lhe.
- Então por que não mo disseste? - questionou.
- Porque a beleza dele ofuscava toda a realidade. - disse sorrindo.
Ele sorriu. Ele havia-me dito aquela frase.
- Então... deixa-me amar-te e ama-me. - disse por fim, acariciando-me a face... tal como Jared fazia.

Fim...

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O Jornalista - XIV

O Sol penetrava pelas cortinas incidindo impiedosamente sobre os meus olhos. Espreguicei-me morosamente e procurei um pouco de conforto no tronco de Jared. Porém, apenas me deparei com a sua almofada. Levantei-me e vi que ele tinha saído, daí à janela estar aberta, bem como as cortinas. Olhei para a mesa de cabeceira que ladeava a cama e que se encontrava do meu lado esquerdo. Ele tinha deixado o seu telemóvel em casa. Raios! Como iria eu contactá-lo? Olhei mais atentamente e vi um pequeno envelope com o meu nome numa letra legível. Com os meus membros superiores a tremer alcancei o pequeno envelope e, com receio do seu conteúdo, abri-o lentamente. Ao fim de alguns segundos retirei o pequeno papel branco escrito a caneta de ponta fina preta e escrito claramente à pressa, onde li, com um certo laivo de preocupação 
"Hazel, segue claramente à risca tudo aquilo que te aqui vou enunciar. Se eu não voltar por volta da uma da tarde, abre o roupeiro e tira de lá um saco de desporto preto e outro azul. O azul é para meteres todas as tuas roupas, todos os teus pertences. Na bolsa mais pequena tem uma quantia avultada de dinheiro que te permite viver durante alguns meses fora da América. O saco preto é para queimares juntamente com o meu passaporte, com as minhas roupas, com tudo o que me pertença. Se eu não chegar à uma, embarca no avião mais rápido que te permita viajar até à Europa. - A sua caligrafia começou a tornar-se mais perfeita. - Eu espero que nada disto aconteça, mas se eventualmente eu não aparecer, quero que saibas que nunca houve nem há-de existir outro homem no mundo que te ame mais do que eu. Cuidem-se sem mim. Jared."
Olhei, desesperada para o relógio. Marcava onze da manhã. Apressei-me a abrir o roupeiro para ver o que eventualmente tinha de queimar. Abri o saco desportivo preto e deparei-me com uma quantidade indeterminada de armas. Fechei-a quase de imediato para afastar aquele mau presságio. Abri a mala azul e vi roupas e verifiquei o dinheiro. Era, sem dúvida, uma quantia que me permitia viver durante uns largos anos na Europa mas eu preferia viver sem o dinheiro a abdicar da companhia de Jared. Fechei com demasiada força a porta do roupeiro e decidi ir apanhar um pouco de ar. Vesti um vestido e peguei num casaco, saindo a uma grande velocidade do quarto, passando pela pequena recepção como uma flecha. Aspirei o ar quente e húmido, pouco típico do mês de Outubro em Helena, mas pelos vistos usual no Texas. Senti a minha garganta a secar inexoravelmente. A escassa brisa fazia com que a escassa vegetação aérea adejasse ao seu sabor. Envolvi os meus braços sobre o meu ventre cada vez maior e sentei-me na berma do passeio a reflectir no Inferno em que a minha vida se poderia vir a tornar. Jared, se Oliver descobrisse que ele era o "Fantasma" e considerando o ódio dele, iria preso. E o que seria de nós sem ele? Sim, agora nós. Eu tinha-me apegado demasiado a Jared e não me arrependia disso. Mas... Jackson iria ser discriminado por todos por ser filho de um assassino mesmo ele o sendo porque é obrigado... embora isso não seja justificação. 
Os carros passavam levantando poeira na estrada de terra batida mas eu não queria saber se ficava cheia de poeira ou não. Eu esperava ver Jared a aproximar-se inexoravelmente com aquela sua face oval, irresistível com aquele seu olhar matreiro e brincalhão, com o seu cabelo a ser projectado pela brisa. Era isso que eu esperava ver. Contei cada segundo, cada minuto, cada hora... até que Paola, a funcionária balofa da recepção, me trouxe algo para comer. Agradeci-lhe, devorando quase de imediato. Encolhi-me toda, colocando-me na posição fetal e encostei a minha cabeça aos meus joelhos com os olhos a verterem lágrimas em catadupa. Encostei-me à coluna de pedra e devo ter acabado por adormecer. 
"- Oliver? - questionei enquanto afastava uma cortina. 
- Estou aqui. - disse.
Continuei a caminhar sobre aquela penumbra e, abruptamente fez-se luz. A luz era tão intensa que me queimava os olhos. Olhei para o solo e vi que caminhava sobre uma espécie de banco sueco só que com dezenas de metros.
- Hazel? És tu? - questionou outra voz que era proveniente de Jared.
Fiquei assustada porque existiam dois caminhos. Um que me conduzia a Oliver e outro que me conduzia a Jared. Óbvio que segui o caminho que acessava a Jared até que esse caminho cedeu por completo, deixando-me a meio."
- Hazel? - Senti uma mão a dar-me uma palmada leve no braço.
Olhei para cima.
- Jared? - questionei, incrédula. Esfreguei os olhos. - Jared! - disse com entusiasmo lançando-me ao seu pescoço.
- Vamos para dentro. Preciso de desabafar contigo.
Ele levou-me a reboque para o interior. Paola olhava-nos com um misticismo inexplicável nos seus olhos.
Entramos e os seus braços envolveram a minha cintura empurrando-me para ele. A sua boca movia-se ao mesmo tempo que a minha e as suas mãos escorregavam pelo meu corpo. Inesperadamente, parou. Sentei-me na cama e ele tirou o seu casaco, atirando-o para cima da cadeira. 
- Desculpa mas sentia a tua falta e não me consegui controlar. - disse sentando-se também ao meu lado.
- Não precisas de pedir desculpa. - disse.
- Como tens andado? - questionou agarrando a minha mão. - Desculpa aquela carta mas eu não tinha a certeza se saía vivo.
- Não ouses sequer dizer mais essa frase! - vociferei. - Temos estado bem de saúde, tirando a parte em que resolves fazer um últimato. Não sabes sequer o que eu pensei!
Ele sorriu e depois suspirou. Colocou a sua mão no meu ventre.
- Daqui a uns meses nasce e eu estarei preso, se não estiver morto. - disse, sorrindo no final.
- Jared, por favor, não repitas essa palavra contundente. - Mudei de assunto. - O que foste fazer? Hum...
Ele olhou-me de soslaio. Não estava muito bem humorado.
- Não, não matei ninguém, se é o que queres saber. - respondeu com tibieza. 
- Foste tu que escreveste aquilo no escritório, não foste? - abordei-o.
Ele sentou-se na cama e encolheu-se todo, adoptando também uma posição fetal. 
- Sim, fui eu que escrevi. - respondeu.
Com receio, questionei.
- E... quem é o próximo?
Ele endireitou-se desajeitadamente e com raiva respondeu-me:
- Por que achas que eu podia não sair vivo? Aliás, a esta hora eu devia estar enterrado algures no Texas. Só estou aqui, vivo, porque consegui escapar das garras daquele demónio! - exaltou-se. - Queres mesmo saber quem é a vítima que me está a fazer correr riscos, que está a contribuir para que eu contribua para a minha destruição? Então aqui vai a resposta que tanto anseias: - fez uma grande pausa, atirando-me aquele nome como se fosse um tiro. - Oliver Robbins. Esse sujeito que me despreza profundamente, está a dar cabo da nossa vida. Eu não o quero matar, aliás... eu nunca quis matar ninguém, nem razões tenho. Aparentemente "Deus" é que tem razões. - fez uma pausa, amansando. - Eu andei a averiguar as razões pela qual Oliver está na lista negra e descobri algumas coisas mas não te vou dizer. Não quero mais desilusões na tua vida. 
- Jared... - murmurei. - Eu quero saber as coisas agora. Se ele te julga e faz algo similar, acho que está a ser injusto.
Ele suspirou e abraçou-me.
- Ele tem a mania de fazer investigações por conta própria. E uma das vítimas da sua investigação, para além de mim foi "Deus". Eu não vou sujar as minhas mãos com o sangue daquele... - pensou um pouco. - Oliver. Eu vou fazer de tudo para tentar desviar o alvo dele... - Segurou-me nos ombros com carinho. - E se quiseres saber o paradeiro dele, eu posso dizer-te com toda a segurança que ele se encontra a escassos metros de nós, a espiar-me constantemente e com vontade de te abraçar cada vez que te vê a vaguear sozinha pelos corredores e levar-te para o seu quarto. 

domingo, 16 de janeiro de 2011

O Jornalista - IV

Oliver passou mais de um mês sem dar notícias. Eu andava angustiada, sem saber o que fazer, sem saber nada sobre ele... Larry também andava inquieto com Oliver pelo facto de nunca atender as chamadas. 
Eu tinha medo que aquela mensagem fosse para ele. Que aquela maldita mensagem fosse verdadeira, e claro que era! O "Fantasma" tinha-a escrito. Tinha-se infiltrado com o pessoal do escritório. Às vezes chegava mesmo a pensar que Jared era o assassino, mas ele surpreendia-me todas as noites com palavras doces e meigas. Com comportamentos tão normais e românticos que me faziam descartar essa possibilidade. Na verdade, nós tínhamo-nos tornado inseparáveis! Às vezes ele viajava para Seattle, outras vezes para Utah... Por vezes ficava também muito preocupada com ele, dado que grandes assassinatos e acidentes ocorriam quase sempre na altura em que ele viajava. Trazia-me sempre imensas coisas nas suas viagens, desde grandes clássicos a porta-chaves. Uma vez comprou-me um carro. Inicialmente não queria aceitar, mas ele estava tão entusiasmado por me dar um presente excêntrico que o aceitei. Na verdade, o meu idoso Ford estava a dar os seus últimos suspiros. 
Eu estava feliz com Jared. A nossa relação era séria, costumávamos sair com os nossos amigos e ele chegou-me a apresentar a família dele. Não era o que eu esperava, para ser sincera. Esperava uma casa com pessoas acolhedoras, que se amassem e com um grande sorriso na cara, tal como Jared. Aconteceu precisamente o contrário. Parecia que não se conheciam, que estavam enfadados e sem vontade nenhuma de me conhecerem. Tentei ser simpática, levando um bolo feito por mim, transmitindo alegria quando ela não estava repleta, mas todos sorriam forçosamente. 
Jared explicou-me que nunca teve uma relação muito forte com os pais nem com o irmão. Sempre fora o filho pródigo e o desobediente. Mesmo assim, não me senti bem. Só esperava que ele anunciasse a nossa saída. Porém, mais para o fim, a sua mãe, uma mulher baixa e balofa com as bochechas muito rosadas e cabelo encaracolado, sorriu para mim e segredou-me ao ouvido enquanto Jared falava com o seu irmão mais velho e a cunhada:
- Tenha cuidado. Ele é um óptimo rapaz mas pode ser deveras cruel.
Olhei para ela atónita e sorri-lhe, como se aceitasse o seu conselho. Jared despediu-se de todos e quando já estávamos a percorrer o caminho para casa de carro, abordou-me:
- O que é que a minha... mãe te disse? - questionou.
- Bem... referiu que eras um óptimo rapaz.
Ele sorriu com admiração, como se eu estivesse a dizer uma piada.
- Ela sempre foi muito dura. Ela dava aulas de Inglês aos miúdos mal-comportados e sempre me tratou como se eu fosse uma criatura muito reles. - suspirou. - De certeza que não disse isso. Se se referisse ao meu irmão mais velho, já acreditava.
Mudei de assunto.
- Gostei de os conhecer. - disse, mentindo.
- Não gostaste nada. - disse olhando-me nos olhos. - Não precisas de me mentir. Eu conheço-te muito bem, Hazel. 
Olhei para o exterior, absorta. Acabei por adormecer. Sonhei que Jared chacinava Oliver e eu assistia. Queria mover-me mas algo me incapacitava de me locomover. Parecia não existir atrito suficiente. Então, após o acto de tortura, Jared com uma espada fez rolar a cabeça de Oliver até aos meus pés. Fiquei aterrada. Jared olhou para mim e esboçou um sorriso matreiro, avançando inexoravelmente até mim. 
- Hazel! Hazel! - ouvi alguém chamar-me. - Acorda! Chegámos!
Acordei sobressaltada sem saber onde estava.
Jared colocou a sua mão gelada na minha testa e constatou que eu tinha febre. 
- O que tens? - questinou.
- Foi um sonho... nada de mais. Acho que preciso de descansar.
Ele ajudou-me a sair do carro e acompanhou-me até ao meu apartamento.
Na verdade, eu não me estava a sentir muito bem. As dores de garganta tinham-se intensificado e oscilava entre tremores de frio e períodos de calor. 
- Acho melhor ficar aqui. Podes precisar. - ofereceu-se.
- Não, Jared, obrigada. Vai descansar, eu fico bem. - garanti, enquanto verificava que a minha temperatura estava acima do normal.
- Eu durmo no teu sofá. Agora deita-te. Vou preparar um chá.
- Eu não estou inválida. - vociferei.
Ele sorriu, saindo como uma bala. Eu estava orgulhosa dele. Tinha a certeza que ele me amava tanto quanto eu o amava. 
Alguns minutos depois, trouxe um chá que fumegava.
- Ainda não te deitaste? - questionou, verificando que eu estava sentada na cama.
Obedeci-lhe e ele sentou-se na cadeira. Tomei o chá que ele me havia trazido e adormeci rapidamente. Não me lembro sequer de ter tirado a pulseira e o colar.
O sol incidia sobre os meus olhos. Jared tinha aberto a janela para o quarto arejar. Já não me doía a garganta com tanta intensidade. Olhei para o meu lado esquerdo e lá estava ele a dormir como um anjo.
Sorrateiramente, dirigi-me até à cozinha.
- Onde vais? - questionou ele.
- Estás acordado? - perguntei.
Ele levantou-se e sentou-se.
- Não dormi de noite. Estavas sempre a estremecer e a falar alto. - disse com um olhar melancólico.
Voltei para trás e sentei-me ao lado dele.
- Eu compreendo que tu e Oliver sejam amigos de longa data e que ele é muito importante para ti. Juro que compreendo... mas tu achas que eu sou um assassino? Achas que eu sou o "Fantasma"? - questionou olhando-me tristemente.
- Jared, foi um sonho. Às vezes não corresponde à realidade.
- Falavas deveras convicta, Hazel. 
- Esquece isso, foi um mero sonho! - referi, abraçando-o.
Ele suspirou e passou a sua mão pelo meu braço.
- Eu li a mensagem que ele te enviou. Eu sei que ele pensa que eu sou o "Fantasma". - disse olhando-me firmemente. - Ele está em Seattle só para provar que efectivamente eu sou o assassino, não é? Diz-me, Hazel! É isso?
Engoli a seco.
- É. Mas eu não acredito nele. Agora não quero pensar nisso. A decisão foi dele. - referi, tentando abraçá-lo mas ele repeliu-me, sentando-se no chão.
- Eu sou um jornalista! - vociferou.
- Eu sei, Jared.
- Acho melhor que esta conversa termine aqui... - suspirou. - Já te apercebeste que ele te ama? - questionou olhando para mim.
- Mas eu amo-te a ti. Isso é que interessa.
- Não é isso que eu penso... nem o que ouvi esta noite.
Levantei-me.
- Foi um sonho! Só isso! - repeti irritada.
- Ok, eu percebi... Tudo como era antes. - ironizou, vestindo uma camisola e pegando no casaco que tinha levado ao jantar. - Depois falámos... Bom dia de trabalho. Parece que já não precisas de mim.
- Jared... não...
Ele saiu e desceu as escadas devagar. Observei-o até chegar ao seu apartamento. Seguidamente, fui vestir-me para ir trabalhar. Mais uma vez liguei a Oliver mas não me atendeu. Conduzi o meu novo e reluzente BMW, não me esquecendo da discussão que o tinha deixado furioso! Mas o que tinha eu dito durante a noite?
- Hazel, preciso de falar contigo. - disse Larry ao ver-me tão absorta. - Vem comigo.
Segui-o fielmente e sentei-me na cadeira em frente à sua secretária.
- Desde aquela noite de Sexta que quero falar contigo. Porém, não tive coragem porque andavas no auge da tua felicidade, ainda estás e o que te vou dizer é apenas aquilo que penso. Não tens de levar a sério. Apenas tens de me ouvir. - Recostou-se na cadeira. - Eu sei que devia ser mais severo contigo, não ser tão próximo dos meus funcionários. Mas eu fui criado assim, a preocupar-me com as pessoas, a não ser "macholas". Continuando... eu acho que aquele rapaz com quem namoras não é bom para ti. Não achas que mereces melhor? Isto é, ele não me parece ser uma péssima pessoa mas parece que tem segundas intenções... eu não faço ideia por que razão penso isto! - sorriu levemente. - Ele parece gostar de ti... mas há algo que está a escapar! Eu não percebo... Sempre te imaginei com o Oliver. Ele sempre foi o teu braço direito...
- Toda a gente me diz isso. - confessei. - A mãe dele disse-me para ter cuidado. Oliver decide enveredar numa investigação por conta própria por causa dele. Agora, tu dizes-me que o achas misterioso. - levantei-me. - Ele tem sido impecável para mim! Passei mal a noite e ele cuidou de mim. Tem-me levado a sítios fantásticos! Diz coisas que parecem sobrenaturais! Eu não sei se ele esconde alguma coisa ou não, mas ele é... diferente. Tenho pena que ele viaje tanto. Passa a vida a viajar por causa da sua profissão. 
- Então sabes por que razão Oliver se ausentou?
- Sei. Ele cisma que Jared é o "Fantasma"! É um absurdo!
Larry franziu o sobrolho. 
- E não será? - questionou. - Viaja muito... suspeito. Após dois dias de te conhecer, diz que te ama profundamente... suspeito. Cuida de ti quando estás doente... bem, muito raro... - murmurou. - Esquece este raciocínio... Podes ir. Tens uns dados para procurar no computador.
- Está bem.
Sentei-me na secretária a olhar constantemente para o telemóvel mas ele não me ligava. Decidi enterrar os olhos no computador e ver os casos. 
- Hazel, - disse Steve, um "miúdo" novo que tinha entrado. - um senhor pediu-me para te ver.
- Sabes quem é? - questionei.
- Parece um daqueles da capa da "Men´s Health".
Sorri com aquela descrição. No exterior do edifício vi Jared a olhar para um ponto fixo.
- Desculpa ter falado daquela maneira. Eu não quis dizer aquilo. Perdoas-me? - questionou agarrando-me as mãos firmemente.
- Sim, eu compreendo...
- Saímos hoje? - perguntou.
- Hoje apetecia-me passar o serão em casa, se não te importas... estou um pouco cansada. Preciso de descansar.
- Está bem. Depois falámos. Tenho de viajar mais um par de dias. Parto depois de amanhã. Vou a Oregon.
- Outra vez? Vou ficar sem ti mais uma semana? - questionei choramingando.
Ele sorriu levemente.
- Só vou dois dias. Eu prometo que te recompenso.
Abandonei o local e fui novamente trabalhar. Da parte da tarde, recebi uma carta de Oliver. Não tinha de especial. Dizia apenas que estava bem de saúde e que escusava de me preocupar com ele. Ora! Isso já sabia eu. Queria saber mais sobre o "Fantasma". 
Ao fim da tarde dirigi-me para casa. Introduzi a chave na fechadura e abri a porta. Atirei a mala para cima do sofá e tirei os sapatos. Deparei-me com um ramo de flores em cima do sofá. Peguei nelas e verifiquei se Jared estava em casa. Ele tinha as chaves. Podia entrar e sair de minha casa quando quisesse. Percorri a casa para o encontrar. Procurei na cozinha porque ele gostava muito de atacar o meu frigorífico. Procurei finalmente no quarto e lá estava ele sentado na cama, com os cotovelos apoiados nas coxas e os dedos entrelaçados sobre o pescoço. Não lhe conseguia ver o semblante.
- Jared, estás bem?
- Óptimo. - disse com uma voz estranha. Parecia ter estado a chorar.
Sentei-me ao lado dele.
- Obrigada pelas flores. São lindas.
Ele olhou para mim, com os olhos vermelhas e disse devagar:
- Não fui eu que tas dei. Foi o Oliver. Ele mandou-tas.
Fiquei abismada.
- Não é razão para ficares assim, Jared. Eu... pensei que fossem tuas.
- Tu não fazes ideia o quanto mudaste a minha vida. Nem sequer imaginas que eu não esperava encontrar alguém! Eu nunca, nunca sofri tanto na minha vida por causa de ninguém. E agora, aqui estou eu, a chorar como uma criança só porque amo uma mulher que recebe flores de outro homem! Eu sempre pensei que era mais forte...
Ele abraçou-me com força. Atirei as flores para o chão. Ficámos assim muito tempo até que ele largou-me.
- O Oliver está na cidade. - anunciou. - E eu tenho justamente de partir depois de amanhã...
Os dois dias passados com ele foram tristes. Ele continuava melancólico, com o sorriso apagado, o que me transtornava. Passou a estar a maior parte do tempo em minha casa que passou a ser "nossa casa". Larry continuava a dizer que era demasiado arriscado tê-lo em casa...
Fui levá-lo ao aeroporto e o choro de ambos não pôde faltar. Ele sem dúvida era um homem esplêndido. 
Quando voltei para casa, vi que ele tinha deixado o seu bilhete de identidade em casa. Olhei para ele com atenção. O nome coincidia: Jared Charles McCallen. A idade também: 32. Bisbilhotei uma das suas malas que tinha trazido para casa. Observei o nome da Universidade em que ele tinha estudado. Pesquisei na Internet o número de telefone e liguei tentando obter a confirmação de que ele tinha estudado lá. Atendeu-me um homem simpático que confirmou que o seu percurso universitário tinha sido feito lá, mas que um ano após ter começado o curso, entrou para a tropa.
Quando ouvi as palavras do homem, dezenas de punhais cravaram no meu peito.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O Jornalista - III

Passei a noite a pensar na barbaridade que Oliver tinha dito. Óbvio que Jared não fazia parte de nenhuma associação assassina nem nada do género. Era um homem perfeitamente normal, um jornalista pouco conceituado que lutava para conseguir um cargo que acarretasse mais destaque. Eu própria o tinha feito, bem como Oliver que fora meu amigo desde o liceu. Desde que saímos da faculdade, procuramos institutos conceituados a nível nacional. 
Por muito que eu tentasse perceber a perspectiva de Oliver, Jared parecia sempre ter um peso superior do outro lado da balança, embora eu o conhecesse há pouco tempo. Oliver sempre foi um grande amigo, alguém em quem eu podia contar os meus segredos mais ocultos. Cheguei a nutrir alguns sentimentos por ele, no início. Mas ele, galã nato, admirado pelos seus grandes olhos expressivos e pela sua condição física, tinha o descaramento de me contar também as suas conquistas, inquirir o que eu achava sobre determinada rapariga e dizer-me que começava a ficar farto de tantas conquistas. Eu ficava quezilada por nunca dizer verdadeiramente o que sentia. Com o passar dos anos, esse sentimento foi-se atenuando até que acabou por resultar numa belíssima amizade que está prestes, prestes a romper-se. 
Olhei para o relógio pousado na mesa de cabeceira. Marcava as quatro da manhã. Eu conseguia ouvir a chuva a cair copiosamente sobre a selva de cimento. Incidia sobre a persiana semi-cerrada. Voltei-me de costas para a janela para tentar adormecer mas não conseguia de forma alguma. Decidi levantar-me e ir beber um copo de água à cozinha. Calcei os chinelos e vesti um casaco comprido. Acendi todas as luzes à passagem e parei na sala para trazer um livro que tinha deixado na pequena mesa da varanda, pois podia molhar-se e provavelmente já estava. Estava frio. O vento soprava velozmente, atirando o meu cabelo para trás. Olhei para o exterior e vi alguém do apartamento ao lado na varanda. Olhei com atenção e vi que era Jared. Fumava um cigarro e estava em tronco nu, exibindo os seus músculos bem definidos. Estava com um ar absorto e simultaneamente diferente daquele que ele tinha exibido na noite passada. Abandonei rapidamente a varanda e fui beber um copo de água, não deixando aquela imagem desvanecer-se. 
Deitei-me um pouco no sofá a ver televisão, quando o telemóvel recebe uma mensagem.
"Não consegues dormir?" - inquiriu Jared numa mensagem de texto.
Fui à varanda novamente, apertando bem o casaco. Ele ainda permanecia lá.
- Hazel! - gritou ele, abanando a sua mão. - O que se passa? Não consegues dormir?
- Na verdade, não. Deve ter sido do café. - respondi, mentindo.
Ele sorriu deixando-me completamente desnorteada.
- Já pensaste onde vamos amanhã? Ou melhor... hoje?
- Hum... não... estou aberta a sugestões. - gritei de modo a que ele ouvisse.
Daqui a nada os vizinhos estavam a reclamar pela gritaria.
- Isso é simpático da tua parte. Espera apenas um momento. Já me estão a ligar e acho que é por causa da gritaria. Eu vou aí.
Enveredou pelo seu apartamento dentro e em poucos segundos apresentou-se em frente à porta principal. Desci para ir ter com ele. Trazia uma sweat dos Yankees. 
- Hum... queres entrar? - questionei.
- Não, obrigado. Acho que não vou demorar muito. - disse com um sorriso. - O que achas de ires a minha casa jantar? 
- Acho injusto. Na última noite tiveste trabalho. Agora devia ser a minha vez.
- Ajudas-me, pode ser?
- Assim já acho mais justo! - respondi.
Ele esboçou um sorriso um pouco forçado.
- Vais experimentar uma das minhas especialidades. Depois podemos sair, isto é, se quiseres.
- Óbvio que quero! - exclamei. - Hoje vais trabalhar?
- Em princípio, sim. Vou ficar cá por casa para escrever uma coluna. Voltas cedo, certo?
- Certo. Hoje é Sexta-feira.
- Acho melhor ir andando. Quero escrever mais umas linhas na minha coluna para o jornal. Até mais logo.
Acenei-lhe e entrei. Cheguei à cama e atirei-me para cima dela. Acabei por dormir um par de horas.
Quando cheguei ao trabalho, Oliver não estava lá. O seu carro não estava estacionado no mesmo local nem sequer no parque de estacionamento. Peguei nas minhas coisas e dirigi-me para o interior do edifício. Larry estava ao telefone a gritar a plenos pulmões. Não havia dúvida que tinha uns belíssimos pulmões! Pedi autorização para entrar enquanto ele o pousava bruscamente. Respirou fundo, fechando os olhos e calmamente, questionou:
- Como correu?
- Bem, acho eu. - disse enquanto me sentava.
- Então estão a progredir? - questionou.
- Sim, hoje vamos sair outra vez. - informei. - Mas o propósito da minha vinda não é este. O Oliver está doente?
Ele suspirou.
- Sabes como é o Oliver... um óptimo miúdo mas muito cismado...! Ele quis fazer uma investigação por conta própria. Neste momento está em Seattle, no local do crime que deu ontem na televisão. Está a falar com os inspectores e pretende seguir o "Fantasma" até o conseguir descobrir. Eu não percebo aquele miúdo... - suspirou.
- Obrigada, Larry... se me dá licença vou para a minha secretária.
Saí rapidamente digitando o número de telemóvel de Oliver no meu telemóvel. 
- Oliver? Estás a ouvir-me? Por que estás a fazer isto comigo?
- Hazel, prazer em ouvir a tua voz. - disse com frieza. - Agradeço a quota parte de confiança que me atribuíste. Fiquei muito contente em saber que confias mais num desconhecido que eu não sei quais as suas verdadeiras intenções do que acreditar num amigo de longa data... Eu não pretendia atender o telefonema. Só o fiz por respeito. Porque te respeito. - disse com nervosismo.
- Oliver... eu não queria dizer que não acreditava no que tinhas dito, mas é impossível! Impossível, percebes?
Ele sorriu com sarcasmo.
- Hazel, eu não te posso garantir. Mas mais cedo ou mais tarde eu vou saber, e vais-te aperceber que o melhor para ti é acreditares em mim e... - interrompeu a sua linha de raciocínio. - já vai ser tarde. Não esperes por mim nos próximos meses. 
- Só te digo para não fazeres nada do que te possas vir a arrepender. Esquece isso e volta eu sinto a tua falta! - referi com sinceridade.
- Agora tens mais com que te ocupar. Adeus, tenho de ir trabalhar.
Desligou-me novamente a chamada. 
Tentei não pensar muito em Oliver durante o dia. Ele tinha ido investigar com o intuito de tentar trazer-me à razão. Mas essa razão não existia. Jared não era um assassino.
Com a ausência de Oliver, tive de almoçar sozinha o que era um verdadeiro tédio. Sentia saudades das suas anedotas, das suas asneiras a atirar bolinhas de pão para a cabeça das pessoas. Tinha saudades dele, essa era a verdade. 
À tarde fui com Larry ao laboratório buscar o relatório que confirmava que a vítima tinha sido assassinada pelo "Fantasma". Larry mandou uma dúzia de homens para Seattle com o objectivo de ajudarem Oliver. 
Às seis horas terminava o meu turno. Queria ir para casa, e tinha ainda de comprar umas garrafas de vinho. Quando cheguei ao parque de estacionamento vi Jared encostado ao meu carro a fumar um cigarro que se apressou a apagá-lo. 
- Olá! Como foi o teu dia? - questionou.
- Cansativo.
- Hum...  - olhou-me nos olhos. - Passou-se algo?
- Não. - sorri. - Queres boleia?
- Já que insistes...
Entramos dentro do carro. Ele insistiu para conduzir e eu cedi.
- Hazel, não quero ser queixinhas, mas podes dizer àquele teu amigo para deixar de me perseguir quando vou para casa?
- O Oliver? - inquiri estupefacta.
- Esse mesmo. Ontem a minha janela estava aberta e eu tinha-a deixado fechada e vi-o na rua pouco depois da minha entrada no meu apartamento.
- Não te preocupes. Eu trato disso.
A viagem até sua casa foi feita em silêncio. Conduziu-me até o sue apartamento. Não era muito grande. Era suficiente para uma pessoa. Mostrou-me os compartimentos todos excepto uma pequena porta. Não tive descaramento suficiente para lhe questionar o que havia ali.
Ajudei-o a preparar o jantar que se chamava "Camarões à New Orleans". Tinha acertado em cheio! Eu amava camarões. O jantar não foi tão animado como o da noite anterior devido ao facto de eu estar constantemente a pensar em Oliver. Jared tentava animar-me, dizia piadas mas eu sorria forçosamente. 
No final, vimos um filme. Uma comédia, mas nem isso me fazia sorrir muito. 
- Estás bem?
- Estou preocupada com o Oliver. - confessei.
Ele franziu o sobrolho.
- Porquê?
- Ele anda com a mania que quer descobrir quem é o "Fantasma"... eu acho absurdo o que ele pensa...
- E o que pensa ele? Se é que podes dizer...
- Esquece... são tolices minhas. - disse achando melhor não me precipitar.
- Podes contar comigo... sempre que quiseres, sabes bem disso. - disse aproximando-se de mim.
Eu não o conseguia repelir. Estava completamente apaixonada por ele. Ele beijou-me. O telemóvel interrompeu-nos. Corri para atendê-lo.
- Estou, Larry?
- Vem depressa para aqui, Hazel. É urgente.
Olhei para Jared em pânico. Ele parecia calmo e satisfeito.
- Anda, eu levo-te lá e espero por ti.
Deu-me a mão e conduziu-me até ao seu carro.
Quando cheguei ao escritório vi um aparato enorme e Larry falava com os policias. 
Eu e Jared vínhamos de mãos dadas, mas logo as largamos. Notei que Larry analisava Jared.
- Boa noite a ambos. - cumprimentou Larry, dando um aperto de mão a Jared. - Hazel, vem comigo.
- Espera só um pouco. - pedi-lhe.
Ele sorriu e dirigiu-se para o interior do carro.
- Então é este tipo por quem te apaixonaste?
- Sim, é. - respondi enquanto caminhávamos.
- Ele não é um bom tipo. Esconde algo. Mas temos mais que falar. - fez uma pausa. - Temos uma ameaça no gabinete antigo. A funcionária assustou-se quando viu tamanha crueldade.
Descemos as escadas, acendendo as luzes. Ao fundo do corredor, havia uma grande porta de vidro onde estava escrito a letras vermelhas e grandes "ALGUÉM IRÁ MORRER". 
- Já mandaram analisar de quem é o sangue? - inquiri.
- Já. Pertence a uma vítima de quem o "Fantasma" guardou o sangue. Chama-se Simon Yorke. Uma das vítimas de ontem. - respondeu. - Amanhã tens muito a fazer. Vai ter com o teu namorado. Ele que te leve a casa. Estás abatida por causa do Oliver. 
- Obrigada, Larry.
Subi as escadas a correr a pensar que a próxima vítima era Oliver. As lágrimas picavam-me os olhos e quando cheguei próximo de Jared, desatei num choro interminável. Ele abraçou-me.
- Eu não quero que o Oliver morra! - disse.
Ele tentou silenciar-me e deu-me umas leves palmadas nas costas.
- Ele não vai morrer... se tudo correr bem.