Click here!

Se quiseres podes ver as minhas "histórias". Clica em "Minhas Histórias"!
Mostrar mensagens com a etiqueta Oliver. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Oliver. Mostrar todas as mensagens

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O Jornalista - XVIII (Final)

O dia não amanhecia com a mesma jovialidade. Era como se me tivessem arrancado um pedaço de mim. 
Começava a habituar-me ao calor matinal do Texas e, sobretudo habituei-me a acordar ao lado de Jared, a receber o seu beijo selvagem mas carinhoso, o ouvir a sua voz a sussurrar-me frases lindas ao meu ouvido. Mas agora nada disso podia acontecer. Acordava com o som imperativo da chuva a esbarrar contra a minha janela, sozinha, sem aquele beijo tão bom e doce. Era doloroso recordar tudo o que havia passado com Jared... A única coisa que me fazia feliz era saber que existia uma criança com um sorriso encantador que me esperava.
Levantei-me daquela cama que não me pertencia e procurei os meus chinelos, levantando o pequeno para a cozinha. Como habitualmente perdi-me naquela casa demasiado grande para o meu cérebro assimilar tantas divisões e todas elas tão distintas. 
A casa de Oliver era sem dúvida um palacete. Os seus pais eram donos de uma grande empresa e oscilavam sempre entre Helena e Massachusetts, até que o avião na qual viajavam despenhou-se em pleno Atlântico. A partir daí, e com apenas 22 anos, Oliver começou a viver naquele palacete e tratou de vender a empresa o mais depressa possível.
Olhei para o pequeno JC e questionei-o, inutilmente, para onde era a cozinha. Era incrível como ainda não tinha memorizado o percurso após mais de um ano a viver com ele. Ora, na expectativa de acertar no caminho, enveredei pelo primeiro corredor que vi, virei à esquerda e abri uma porta que se assemelhava à da cozinha. Efectivamente era. Abri-a cuidadosamente e vi Oliver, ainda de pijama, a tomar um copo de leite a olhar-me com um olhar inexpressivo, vazio...
- Bom dia, Oliver. - disse-lhe.
JC apressou-se a pedir-lhe colo. Pensava que era o seu pai verdadeiro. Oliver segurou-o com firmeza e começou a brincar com ele e a ensiná-lo novas palavras, enquanto eu preparava o leite para ele. 
- Bom dia, Hazel. Desculpa, estava demasiado distraído. - disse aproximando-se de mim com Jared ao colo.
Sorri-lhe e levei o leite para cima da mesa. Jared já conseguia pegar no biberão sem o entornar. Por precaução, estive por perto para não ter de limpar o chão. Depois de o vestir para ir para a ama, vesti-me e peguei nas minhas chaves e saí para não chegar atrasada ao emprego. Deixei Jared na ama e passei pela prisão sem Oliver saber. Entrei e Fred deixou-me passar sem rodeios. Já sabia onde ele estava. Encaminhei-me pelo sombrio corredor até à sua cela. Estranhei não o ter visto logo à primeira. Chamei um indivíduo que estava completamente pedrado mas ele ignorou-me. Clamei por Jared mas ele não me respondia.
- Pst! - ouvi e olhei para trás. Um homem balofo e negro chamava-me. - Procura Jared McCallen?
- Sim, procuro. - respondi. - Sabes alguma coisa sobre ele ou onde ele possa estar?
Ele sorriu e evidenciou um palito na boca.
- Hazel, certo?
Acenei com a cabeça.
- Morgan. - continuou estendendo-me a mão. Retribuí. - Desculpe ser eu a dar-lhe esta notícia mas ele... bem... não deve estar nele.
Estranhei aquele discurso.
- Como assim? - questionei com rispidez.
- Bem, ele deve estar completamente... pedrado. Entende?
Abanei a cabeça em sinal de compreensão. Voltei-me para a sua cela e comecei a bradar pelo seu nome. Todos começaram a protestar por os ter acordado. Finalmente ouço um gemido e alguém a rir-se muito. 
- Hazel! Estás aqui! - disse, deambulando até ao limite com um sorriso e um olhar muito estranho. Olhava-me como se fosse um prémio.
Olhei-o com desprezo. Ele estava sob o efeito da droga, bem como todos os ocupantes da cela. 
- Costumavas ser o homem que eu amava e eu vim aqui, como habitualmente faço, para te ver, para ver como estás. - disse com a voz a falhar. - Preferia que fosses um assassino a seres um drogado que me olha como se eu fosse de comer. - referi com rispidez.
Ela caiu e começou a rir-se. Caminhei sobre os meus saltos altos emitindo um som propositadamente audível. 
- Hazel! Volta aqui! - disse em tom de suplica.
Continuei a caminhar. 
Quase todos os dias visitava-o, levava-lhe a mais recente fotografia do seu filho e ele ficava contente. Nos últimos meses parecia que ele cheirava a álcool e não parecia o mesmo. O seu beijo parecia feroz, demasiado pesado para os meus lábios. A sua voz parecia mais ríspida e menos melodiosa. Ele não era o mesmo homem carinhoso, com bom carácter e absolutamente belo interiormente.
Quando cheguei ao exterior, não consegui conter as minhas lágrimas e uma torrente jorrou. Cheguei ao escritório e fui à casa-de-banho. Passei por Oliver no corredor que limitou-se a sorrir-me carinhosamente. Ignorei-o. Naquele dia, tudo parecia errado! Estava tudo doido, a maldita reunião acabou por ser um verdadeiro fiasco! Larry estava impossível e eu tive imenso trabalho após essa reunião. Mal chegaram as seis da tarde, peguei nas minhas coisas e dirigi-me para o meu carro. Estranhei o facto do carro de Oliver já lá não estar. Na verdade, já não o via há bastante tempo. Mesmo assim, conduzi até à casa de Oliver. Introduzi a chave na fechadura e deparei-me com o casaco que tinha vestido a JC de manhã no cabide. Caminhei e vislumbrei Oliver deitado no sofá num sono que parecia ser tão profundo que nem tive coragem de acordar. Aproximei-me dele e vi que JC repousava também ao seu lado. Achei o cenário tão deleitoso que me sentei no sofá em frente a olhá-los. Era impressionante como Oliver tinha estabelecido uma relação tão forte pela criança que ele dizia desprezar. Subitamente os seus olhos verdes fixaram os meus e a sua boca sorriu-me. Acordei daquele estado de hipnose. Oliver levantou-se morosamente e cobriu JC com um cobertor.
- Vi que estavas a chorar, Hazel. O que se passa?
Levantei-me do sofá e fui pousar a minha mala no meu quarto. Ele segui-me fielmente.
- Oliver, eu... tenho ido visitar Jared... - confessei.
- Eu sei disso. 
Olhei para ele perplexa enquanto atirava a mala para cima da cama. Encostei-me à cómoda. 
- E... ele não é o mesmo... - disse.
Ele já devia estar a prever que eu iria choramingar e ele ir-me-ia servir de consolo.
Oliver deslocou-se até mim e levantou o meu queixo até me olhar fixamente nos olhos.
- E?
- E... ele agora passa a vida drogado. - voltei a face.
Um silêncio perturbador encheu o meu quarto. 
- Ainda o amas? - inquiriu, aproximando a sua boca da minha.
Olhei-o e não me afastei. Ele comprimia-me contra a cómoda.
- Não, Oliver. Achei que sim... achava que sim. - murmurei.
Os seus olhos verdes, profundos e expressivos brilhavam e fixavam os meus insignificantes olhos castanhos.
- Eu amo-te, Hazel.
Num gesto rápido, puxou-me contra si, beijando-me, comprimindo-me contra ele. As minhas mãos estavam sem reacção, até que as elevei e as pousei no seu pescoço. Abruptamente parou, mas agora ele não iria ser rejeitado. Foi a minha vez de o puxar contra mim. Ele rodou-me e ele ficou encostado contra a parede. Parámos novamente, ficando as nossas testas unidas.
- Eu... vi bem o que fizeste? - questionou com cepticismo.
- Sim, viste. - fiz uma pausa. - Finalmente apercebi-me daquilo que perdi durante quase dois anos.
Novamente me beijou mas com uma maior ferocidade, parando pouco depois vendo que JC estava a chorar.
- Por favor, deixa-me dormir neste quarto contigo. - pediu ele agarrando-me ainda pela cintura. Eu continuava com as minhas mãos envoltas no seu pescoço. 
- Desculpa tudo o que te disse e todas as vezes que te repeli. - disse, puxando-o novamente. 
- Gosto desta tua faceta que me era desconhecida. - disse roubando-me um beijo.
Sorri. JC continuava a chorar. Larguei-o.
- Acho que temos de ir ver o que ele quer... - disse Oliver dando-me a mão. - Hazel...
- Não, eu amo-te! - disse-lhe.
- Então por que não mo disseste? - questionou.
- Porque a beleza dele ofuscava toda a realidade. - disse sorrindo.
Ele sorriu. Ele havia-me dito aquela frase.
- Então... deixa-me amar-te e ama-me. - disse por fim, acariciando-me a face... tal como Jared fazia.

Fim...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Jornalista - XVII (haverá uma pequena continuação)

Após um período prolongado de choro, resolvi que o melhor era ir embora e, em sofrimento, aproveitar os escassos momentos que me restavam com Jared. Conduzi o carro a uma reduzida velocidade para pensar em tudo o que estava para acontecer. Eu não queria pensar, essa era a verdade mas eu não me conseguia desligar daquele assunto.
 Eu não queria saber se Jared era um assassino em série! Bem... até queria porque isso não me agradava mas isso não fazia parte da sua natureza! Ele não o era por prazer... Não o fazia com o intuito de ver jorrar sangue pelas veias das vítimas, por querer ouvir os seus gritos insanos a solicitar complacência da sua parte! Ele não era essa pessoa tão cruel como Oliver o pintava.  A sua liberdade, a sua vida... a nossa vida dependia dos seus trabalhos "sujos". Mas estaria eu a ser correcta? Eu estava a pensar em mim, na minha segurança quando devia impedi-lo. As lágrimas voltaram-me a cair copiosamente, embatendo com um som imperativo na minha mão. Fiz uma manobra deveras arriscada e encostei o carro na berma da estrada. Retirei o telemóvel da minha bolsa e vi dezassete chamadas de Jared e umas quantas mensagens. Limitei-me a ignorá-las. Abri a porta do carro e caminhei lentamente, atravessando um pequeno pinhal. 
O ar parecia-me muito mais denso do que outrora. Pressenti que a chuva ia começar a cair mesmo não olhando para o céu. Era azar a mais cair chuva de uma forma tempestuosa! Que se danasse! Eu não estava para pensar em consequências e muito menos avaliar questões meteorológicas. Limitei-me a atravessar o pinhal e sentei-me no solo enxuto, encostando as minhas costas no rugoso tronco de um pinheiro. Naquele momento, apetecia-me fazer o que fazia nas noites académicas: beber Vodka ou então Martini`s até me sentir  bem, leve e jovial! Mas não podia... Jackson, o meu Jackson, não iria gostar disso e eu não me iria sentir bem. Subitamente, senti que ele me havia dado um grande pontapé. Contorci-me toda e desejei que ele não o tivesse feito. As lágrimas escorriam-me mais depressa pela face abaixo. Os seus pontapés tornaram-se cada vez mais frequentes, mais intensos, mais dolorosos.
- Não... agora não. - murmurei em desespero. - Não agora, espera mais uns dias, pequenino. - sussurrei em direcção ao meu ventre.
Soltei um grito, vendo que iria entrar em trabalho de parto mais tarde ou mais cedo. Para agravar a situação, começou a chuviscar cada vez mais sobre a minha cabeça. A trovoada, com o seu som forte e imperial, fez-se ouvir. Jackson mostrou mais o seu aborrecimento e fez-me soltar outro grito. Procurei o meu telemóvel mas eu não o encontrava. Precisava de ajuda.
- HAZEL! - alguém clamava o meu nome incessantemente.
Com a voz fraca e com demasiadas dores, ainda verbalizei algo.
- Hazel? Onde estás? Raios! Onde te meteste? - gritava uma voz com um laivo de desespero na voz.
Respirei fundo e tentei esquecer todas as dores que sentia que se assemelhavam ao cravar e rasgar do meu ventre.
Soltei um grito seguido de um gemido.
- Hazel? - questionou a voz num tom mais baixo. Jared ainda se encontrava longe. - Dá-me um sinal! Deixa-me seguir a tua voz.
- Ajuda-me! - disse o mais alto que consegui.
Ouvi os seus passos rápidos a correrem debaixo daquela chuva e a pisarem os galhos partidos que tinham caído no chão.
Eu ansiava pela sua vinda. Não me conseguia levantar e não estava em condições para conduzir. 
- Jared... - murmurei estendendo a mão assim que o vi.
Ele olhou-me, viu-me contorcer, definhar e paralisou. Parecia ter entrado num estado de choque. 
- Jared! - disse, soltando depois um grito. Precisava de ir para o Hospital.
Ele estremeceu, mas não sorriu. Apressou-se a pegar em mim ao colo e começou a correr à velocidade que conseguia. Era difícil correr comigo ao colo.
- Hazel. - disse, ofegante. - Meu amor, por que vieste para aqui? Eu nem quero imaginar se ele... tivesse nascido aqui!
Beijei-o. Podia ser a última vez. Abraçei-o, agarrei-me ao seu pescoço e as minhas lágrimas começaram a deslizar novamente.
- Por que choras? - inquiriu com os olhos vermelhos.
- Leva-me para o Hospital. - pedi em desespero. Só queria que me tirassem aquelas dores tão intensas.
Jared sentou-me no local do passageiro e apressou-se a conduzir até ao Hospital mais próximo. 
A hora de ponta estava instalada. Havia carros por todo o lado. Estávamos entalados no trânsito.
- Raios! Raios! Raios! - bradou embatendo as suas mãos no volante. Olhou-me e colocou a sua mão na minha testa. 
- Precisámos de chegar o mais depressa possível. - disse enquanto buzinava. Alguns condutores estendiam solenemente o dedo do meio. Ele estava irritado e eu fazia esforço para me manter calada e não demonstrar a tamanha dor que sentia. Dor sentimental e corporal.
- Eu... - disse com a voz trémula. - amo-te. Nunca te esqueças disso. - Acariciei-lhe a face.
Colocou o seu dedo indicador nos meus lábios, percorrendo o seu contorno. Sorriu levemente quando lhe apetecia chorar. 
- Não fales. Aguenta-te.
Fechei os olhos e comprimi os lábios. Não consegui resistir à dor. Soltei outro grito. Jared estava alienado, e conduziu à máxima velocidade que o carro permitia. 
- Isto é um sonho misturado com pesadelo! Não queria que sofresses assim! - disse.
Finalmente avistei o Hospital. Os meus olhos encheram-se de esperança até que consegui ver com nitidez um carro da Polícia.
- Não... não... não... - murmurei.
Jared olhou-me de soslaio. Senti a minha face transfigurar-se.
- Hazel...?
- Não! - bradei. - Leva-me embora! Não quero perder-te! Não agora nem nunca! Preciso de ti para viver! 
Ele olhou-me com estupefacção não percebendo pitada do que estava a tentar transmitir.
- Não sejas ridícula! Jackson tem de nascer!. - Dito isto, saiu do carro e correu para me transportar para o interior do edifício. Comecei a tossir.
No interior estava quente e seco. Arranjaram-me uma maca. Jared estava simultaneamente fascinado e atemorizado.
Vi quatro figuras masculinas a caminharem em direcção à porta. Jared vociferava com a recepcionista. A porta abriu-se e vi três polícias armados e Oliver. Fiquei sem reacção. Oliver sacudiu o seu casaco e tirou os seus óculos de sol, como habitualmente.
A sua boca movimentou-se pausadamente, pelo que eu percebi "É aquele". 
- Jared! Corre! - bradei.
Ele olhou para trás e começou a correr embora isso não o fosse salvar. Tentei levantar-me mas caí nos braços de alguém que me voltou a colocar em cima da maca.
- Apanhá-mo-lo. - bradou um dos polícias para Oliver.
Ele olhou-me com sofrimento. Ele também não se sentia bem por prender Jared.
Dois polícias tinham-no algemado e acompanhavam-o. Colocaram-o à minha frente.
- Jared... - sussurrei.
Ele chorava e escondia o seu rosto com o seu cabelo castanho. Ele fez um gesto brusco para ver se se conseguia soltar, mas era escusado. 
- O que fazemos? - questionou um dos policias mais novos.
Oliver suspirou.
- Deixem-no despedir-se dela. - Afastou-se e voltou-me as costas.
Os policias ladeavam-o. Ele pediu para o soltarem. Prometeu não fugir. 
Apesar das dores que sentia, a dor maior era saber que Jared iria passar o resto da sua vida atrás das grades. 
- Hazel... - disse soluçando, apertando-me contra ele. - Peço desculpa! Eu fui uma desilusão! - Beijou-me com urgência. - Eu não previa este desfecho! "Deus" tramou-me. - voltou-se para Oliver. - Ele deu-te tudo o que querias para me prenderes, não foi? Ele sempre me avisou disso!
- Estás a falar para mim? - questionou Oliver com cinismo.
Jared não respondeu.
- Por favor, deixem-me assistir, deixei-me estar com ela! É o meu filho, ou ainda não perceberam? - questionou, olhando-os com desespero, com os olhos a brotar lágrimas na esperança de os enternecer.
Oliver estava sério e não utilizou o seu sarcásmo para lhe responder.
- Tu já devias estar enfiado naquela cela há imenso tempo! Portanto, não podes. Eu não autorizo.
- Eu estou aqui! - bradei. - Eu quero que ele esteja comigo!
Oliver olhou-me.
- Eu estou a zelar por ti. E ele não vai assistir. Já o deixei despedir-se de ti. - murmurou.
Comecei a chorar novamente.
- Por que és assim? Por quê?
Ele não respondeu. Os policias já estavam a arrastar Jared para o exterior enquanto ele lutava inutilmente para ficar. Subitamente parou e chamou Oliver. Ele dirigiu-se a ele os policias soltaram-no e afastaram-se. Eles falavam normalmente um para o outro, o que era de admirar. Oliver esboçou-lhe um sorriso que não percebi se havia sido sincero ou hipócrita. 
- Hazel... - disse por fim. - eu sempre irei amar-te. 
Sorri-lhe por entre tantas lágrimas.
- Oliver, cuida dela. - disse Jared sem oferecer resistência. Caminhou fielmente com os policias que o iam prender. Oliver ficou comigo.
Eu sentia-me agoniada!  Queria desaparecer, queria que Oliver desaparecesse queria que tirassem dentro de mim aquela criança! 
A maca movimentou-se rapidamente e vi-me rodeada de médicos que se preparavam para me fazer uma cesariana. Graças a Deus que não ia sofrer mais. Oliver não entrou comigo para o Bloco Operatório. Também não o queria lá. Odiava-o.
Eu conseguia ouvir os médicos a pegarem nos instrumentos de corte e a pousá-los. Já não sentia qualquer dor física. A dor do coração era pior. 
Eu já conseguia ouvir o seu choro. Estava emocionada, como era de esperar. Aquele choro fazia-me lembrar Jared. Aliás, Jackson era o que restava em mim de Jared. Deram-me aquele bebé tão frágil, tão pequeno e indefeso para os meus braços. Com um grande sorriso, recebi-o e olhei-o. Tinha os olhos de Jared. Azuis e profundos. A sua boca era tão perfeita e tão parecida com a de Jared. Tudo nele era Jared. Aquela criança, olhou-me nos olhos e parou de chorar. Os seus grandes olhos azuis fixavam os meus. Fechou as suas pálpebras e eu sorri como se fosse a coisa mais linda que eu já tivesse visto! E era. Era meu. Nosso. Eu não lhe podia nomear de Jackson quando olhava para ele e via Jared. 
A enfermeira retirou-mo dos braços e eu protestei. Levou-o para um local que eu desconhecia. Temi pela sua segurança e percebi que afinal o instinto materno se tinha apoderado de mim. 
Oliver entrou e eu queria ter coragem para expulsá-lo mas estava tão exausta que adormeci instantaneamente. Não sonhei com nada... nem com Jared. 
Acordei com o som da trovoada. Oliver segurava-me a mão e olhava-me com preocupação. Ainda estava ressentida com ele, pelo que me apressei a libertar a minha mão.
- Vai-te embora daqui! - disse-lhe rispidamente. - Ainda não te apercebeste que eu te odeio?
Ele suspirou.
- Hazel, eu... sei que me odeias e que vais passar grande parte da tua vida a odiar-me. Mas ele pediu-me uma coisa... - fez uma pausa. - e estive a pensar enquanto te via dormir tão profundamente como um anjo. - Levantou-se. - Eu fui tão injusto contigo. Quando eu disse que odiava aquela criança, eu estava a mentir. Eu não a odiava. Só queria que fosse minha! Percebes? Eu nunca poderia odiar um ser que viesse de ti. Nunca. 
Olhei para ele comovida. 
Oliver sentou-se ao meu lado novamente e abraçou-me.
- Achas que ele vai ficar bem? - inquiri.
- Embora eu não goste nada dele, pedi que o tratassem bem. Para que conste no meu curriculum, e para que não me odeies mais do que odeias, ninguém sabe que ele está preso nem ninguém saberá, para além dos que faziam parceria comigo, que o filho era dele e que ele era um assassino. Eu sei a história dele e arrependi-me de o ter julgado, mas não podia evitar de o prender. A lei exige-o quer ele estivesse relacionado directamente ou indirectamente. E tu sabes bem isso. 
- Eu sei, Oliver... eu sei. - murmurei com as lágrimas nos olhos. 
Afastei-me.
- Hazel... - começou. - ele é doido... completamente insano. Eu não sei como é que ele teve coragem de mo dizer... eu não faria, de modo algum se estivesse na situação dele.
- O que te disse ele? Diz-me!
Deixei de olhar para Oliver e vi que uma mulher trazia uns papeis para registar a criança e e aí eu percebi o que Jared pediu a Oliver. 
- Sim, Hazel. Ele pediu-me para aceitar ser pai do teu filho.
Olhei para ele indignada com o pedido. Devo ter ficado branca.
- Hazel, por favor, reage. Isto não é fácil para mim. Eu fui rejeitado por ti e agora vejo-me a assumir um papel que nem sei se queres que eu assuma!
A mulher rodou a maçaneta, deixando a enfermeira passar com o meu... ainda não me tinha habituado ao facto de ele ser meu filho.
- Hazel... responde-me, por favor! - pediu Oliver.
A mulher balofa e com uma cabeleira farta e ruiva sorriu após a enfermeira ter colocado a criança nos meus braços. Embalei-o cuidadosamente para que ele não começasse a chorar. Aparentemente não era um bebé chorão.
- Tem aí um rapagão forte! - comentou a enfermeira. - Não chorou quase nada. É um sossego total!
- Obrigada. - balbuciei.
A mulher que trazia um crachá cujo nome era Adeline, fez uma carícia na face do pequeno McCallen. Começou por fazer as perguntas típicas. Nome dos pais. Oliver olhou para mim.
- Hazel Clio Ackles e... - hesitei. - Jar... Oliver Caleb Robbins. 
- Devem ser uns papás babados! - disse a mulher olhando-o a dormir profundamente nos meus braços.
Sorrimos. 
- Nome da criança, por favor...
Olhei para ele. Eu não podia escolher o nome "Jackson" quando tudo nele era Jared. 
Oliver olhou-me com urgência.
- Hum... - cerrei os olhos e mentalizei-me que tinha de lhe dar um nome. - Jared Caleb Ackles...McCallen.
- Robbins. - corrigiu Oliver a tempo.
A mulher sorriu. 
- Se eu confundisse o nome do meu marido, provavelmente ele dar-me-ia um raspanete. - disse com um sorriso.
- Sabe, é que ela... ainda está vulnerável e McCallen é um nome antigo de família que ela lhe queria colocar, embora tivéssemos chegado a um acordo. - disse Oliver tentando-a persuadir.
Ela sorriu.
- Desejo-vos as maiores felicidades e que essa criança seja feliz. O meu trabalho por aqui está terminado.
- Obrigado. - agradeceu acompanhando-a à porta. 
Eu estava ainda maravilhada com a maternidade e não parava de sorrir. 
- Hazel... tens a noção do que disseste?
Olhei-o admirada.
- Sim. Obrigada por estares a fazer isto por mim. - fiz uma pausa e olhei-o nos olhos. - Sabes que eu posso vir a amar-te mas não da mesma forma que o amei. 
Ele voltou a sua face de modo a não me fitar.
- Deixa-me pegar nele.
Hesitei. Tinha medo do que ele podia fazer.
- Deixa-me pegar no meu filho! - insistiu.
Estendi-o ternamente e ele tomou-o nos seus braços, embalando-o. Os seus olhos sorriram, bem como a sua boca. Deslocou-se com ele nos braços até ao fundo da cama.
- Ele é mesmo parecido com Jared. Foi por causa disso que lhe deste o seu nome?
- Eu dei os vossos nomes: Jared dele e Caleb, do teu. - respondi. 
Oliver estava maravilhado.
- Eu nunca estive com um bebé no colo durante tanto tempo. - confessou. 
Achei adorável aquela sua reacção perante aquele filho que não era dele mas assumiu-o como se fosse. Achei impressionante a forma como ele o olhava mesmo sabendo que ele não era o seu pai verdadeiro. Agia como se fosse seu filho e isso afectava-me. Jared era o seu pai e eu queria vê-lo. Queria sentir os seus lábios nos meus e queria que ele visse o seu filho. Mas, e com razão, Oliver não ia autorizar.
Ele devolveu-mo, colocando-o nos meus braços com tanto cuidado que eu própria cheguei a pensar que estava a ser demasiado bruta. Jared abriu os seus olhos, exibindo uns grandes olhos azuis magníficos e tão expressivos quanto os de Jared. Podia jurar que ele estava a sorrir-me. 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Jornalista - XVI (penúltimo capítulo)

Eu adorava aquela casa. Amava acordar cedo para preparar o pequeno-almoço no jardim das traseiras e para sentir o Sol ardente a incidir sobre a minha pele clara. Com a minha ida para o Texas, a minha pele tinha-se tornado mais bronzeada devido à constante exposição solar. Amava ainda mais ver Jared espreguiçar-se e a conduzir-se preguiçosamente para a pequena mesa redonda de mármore, caminhando sobre a relva acabada de aparar. Sentava-se graciosamente e colocava um pouco de café na sua chávena, adicionando posteriormente um pouco de água quente. Preparava também o café para mim. Colocava sempre na sua torrada uma quantidade avultada de compota de morango. Ele era, sem réstia de dúvida encantador!
- Hum... tenho a cara com compota? - questionou vendo que eu o mirava com uma certa admiração.
Acordei do meu sonho.
- Não, estava só a olhar para ti. Estava a pensar... - respondi.
- Bem, estás demasiado absorta e isso preocupa-me... - Sorriu, limpando a boca com um guardanapo. - Hoje tive um sonho bom. Sonhei contigo.
Sorri, segurando-lhe a mão.
- Sonhei que era normal, que ninguém me perseguia nem vigiava... - continuou. - Jackson corria neste jardim com outra criança mas parecia não ser minha, sabes? - as suas sobrancelhas uniram-se. - Misturei-me com eles, mas aquela menina... eu sabia que era nossa mas eu não nutria por ela um sentimento tão profundo como sentia por ele. - fez uma pausa mostrando-se absorto. - Foi deveras estranho. - Sorriu e aproximou-se de mim para me beijar ternamente. - Como passaste a noite? - questionou enquanto debicava a sua torrada a transbordar compota.
Fiz um esgar com a boca.
- Dormi pouco. Ele estava agitado. - confessei. - Se calhar foi da cama nova. Não faço a mínima ideia. - disse enquanto bebia um pouco de café.
Ele puxou a sua cadeira aproximando-se de mim. Colocou a sua mão grande e protectora sobre o meu ventre enorme. Ficou feliz com sentiu um pequeno pontapé. Eu não achei tanta piada. Tinha sido forte.
- Uau! - exclamou. - Sentiste? Sentiste isto? Ele pontapeou! Grande homem que será! - exclamava maravilhado.
Limitei-me a permanecer calada. Ele pousou os seus grandes olhos azuis nos meus e acariciou-me o rosto.
- Eu quero que ele tenha os teus olhos, a tua boca, a tua face... - disse-lhe quase num sussurro.
Ele sorriu, contornando com os seus dedos a linha dos meus lábios. 
- Eu quero que ele seja feliz. Que se pareça contigo em todos os aspectos. Não quero que ele saiba que eu alguma vez existi se algo me acontecer. - disse-me não me encarando.
Levantei-me e procurei fitá-lo, mas ele levantou-se também e começou a levantar a mesa, alegando que devia obedecer-lhe e permanecer deitada ou então quieta. Na verdade, sentia-me estafada logo pela manhã e com dores nas pernas. Também não faltava muito para o seu nascimento. 
Dirigi-me para o interior da casa onde me entreti a dobrar roupa, fugindo às rígidas regras ditadas por Jared. Ele estava no jardim a arrancar umas ervas e eu podia vê-lo através da janela do quarto. O seu cabelo tinha crescido bastante desde os últimos tempos. Ele amarrou-o com uma das fitas com que eu costumava prender o meu cabelo. A sua t-shirt branca estava repleta de terra e as suas calças, já estavam coçadas. Nunca imaginei que ele fosse assim tão... trabalhador. Apesar do seu grande defeito, ele tinha qualidades de louvar. 
Por volta da uma da tarde, levou-me a almoçar num dos restaurantes mais chiques da cidade. Ora, a minha indumentária mais magnificente tinha deixado de me servir com a gravidez, pelo que tive de envergar um dos meus vestidos florais habituais e calçar umas sabrinas para o caso dos meus pés resolverem inchar.
Mal saí à rua, vi que todos os vizinhos nos sorriam e nos cumprimentavam. Algumas senhoras, com idade já para serem avós, questionavam quem eu era e como se chamava o rebento. Eu respondia, tentava ser simpática sem dar muitos pormenores. Jared também parecia ser admirado na vizinhança. Um homem cumprimentou-o e agradeceu-lhe por o ter ajudado a retirar o seu gato de um galho de uma árvore. As senhoras prometeram bordar babetes e tricotar meias para Jackson. Tentei impedi-las, dizendo com educação que o Texas era um local suficientemente quente para ele vir a usar meias de lã. No entanto, de nada me valeu. 
- Bem, tens um arsenal de pessoas a quererem oferecer-te coisas. - observou Jared quando já nos encontrávamos dentro do novo BMW.
Sorri.
Quando estávamos no restaurante notei que Jared estava muito absorto. Olhava fixamente para um ponto indefinido. Cheguei a desconfiar que ele olhava uma funcionária, mas ao seguir o seu olhar vi que ele apenas fixava uma parede. 
- Jared? - questionei. - Jared!
Ele estremeceu. Pousou os cotovelos na mesa e apoiou a cabeça nas mãos.
- Estás bem?
- Estou... só que... esquece. Isto passa.
- Jared, sabes que podes contar-me tudo.
Ele olhou-me com ternura e sorriu.
- Ficas tão linda nesse vestido e com essa barriga.... Não podes ficar assim para sempre? - questionou sabendo que era impossível.
- Ficaria, se permanecesses eternamente ao meu lado. - respondi.
O funcionário trouxe a lista da ementa. Jared não exitou a escolher. Eu li e reli a ementa mas não me apetecia nada daquilo. 
- Hazel, o que queres? - questionou.
O meu olhar oscilou entre o de Jared e o do funcionário. Tinha vergonha de o dizer. 
- Hum... Jared, - disse em tom de segredo. - não me apetece nada destas coisas demasiado chiques... - Olhei para o funcionário e diminui ainda mais o tom de voz. - Apetece-me um bife bem passado com batatas fritas. 
Jared não se conteu e deu uma gargalhada, zombando da minha vergonha.
- Se não se importa, traga-me um bife bem passado com batatas fritas, por favor. - anunciou exibindo um sorriso.
- Mas senhor, - começou o funcionário. - o Chef recusa-se a fazer esse tipo de pratos.
Jared tornou o seu ar mais sério.
- Amigo, está perante uma grávida. Aposto que não quer que o meu filho nasça com cara de bife, ou quer?
O funcionário anotou no seu bloco de notas.
- Vou ver o que posso fazer. - Saiu disparado que nem uma bala.
- Eu não acredito que tiveste vergonha! - disse Jared, sorrindo.
- Estou num restaurante rodeada de abutres que só pensam em dinheiro, em champanhe e em mil e uma coisas que eu nem sequer sei o nome! - Olhei à minha volta. - Achas que aquilo tira a fome a alguém? - questionei referindo-me a um casal que comia uma coisa muito estranha com um tom esverdeado. - Aquilo não me saciava a fome!
Ele sorriu novamente.
- Hazel, tu és tão... tu! És única! É por estas e por outras que eu te amo.
Sorri e ele esticou-se para me beijar.  
- Pensei que estes fossem os teus locais predilectos. - disse enquanto tragava um pouco de pão. - Quando saíamos, em Helena, levavas-me sempre a sítios bem acomodados com comidas requintadas. Para dizer a verdade, comi bem antes de vir... tinha medo de ficar com fome. - disse em tom de segredo.
Ri-me dele.
- Eu levava-te a locais onde se comia bem, isto é, em quantidade normal para um ser humano. Isto aqui é demasiado chique e todos olham com estupefacção para o prato que o funcionário traz. Olham-o com recriminação. - observei.
De facto, todos olhavam-no e ele, coitado, estava um pouco atrapalhado. O prato chegou bem cheio. Um bife cobria grande parte do meu prato, sendo preenchido por batatas fritas. A salada vinha à parte. 
- Senhor, o seu prato já vem a caminho.
Esperei por ele, mas estava com uma vontade enorme de devorar aquele bife suculento e aquelas batatas fritas tão estaladiças. Quando finalmente chegou o seu prato, comecei a debicar lentamente o bife, tendo a perfeita noção que todos os abutres milionários me olhavam com reprovação. Mas o sabor daquele bife colmatava aquele sentimento de vergonha. 
Ao olhar para Jared, sentia uma certa angústia. Algo, algo que inexplicavelmente me avisava que algo iria dar errado. Abruptamente o bife já não deslizava tão agilmente pela minha garganta. Parecia existir um obstáculo. A minha expressão tinha-se tornado mais taciturna. Senti a mão gélida de Jared tocar na minha. Estremeci.
- Hazel, . questionou com um laivo de preocupação. - estás bem?
Meia alienada, levantei-me sorrateiramente fazendo-lhe sinal para se manter sentado. Segui até à casa de banho, onde lancei uma torrente de água que me salpicou o vestido. Tirei da minha bolsa o meu telemóvel e digitei o número de Oliver. Esperei que ele atendesse.
- Oliver. Preciso de falar contigo. Hoje. - disse mal ele atendeu a chamada.
- Hazel, tens a certeza? Onde?
- Não sejas cínico! Sabes sempre onde encontrar-me! - disse num tom desesperado. 
- Está bem, está bem. 
Desliguei a chamada, esfreguei o meu rosto na toalha branca e felpuda, tentei secar o vestido e preparei-me para sorrir e fingir que tudo estava bem. 
Desloquei-me morosamente e vi-o a olhar-me com impaciência. 
- Hazel, estás mesmo bem? - questionou enquanto eu me sentava.
- Sim. - respondi. - Apenas quero sair deste restaurante. Acho que este bife me fez mal.
Jared pediu a conta ao funcionário e saímos. Não pude deixar de reparar na sua expressão facial.
- Desculpa... eu pensei que gostasses daquele restaurante. - disse quando já nos encontrávamos no carro.
- Não, aquele bife era demasiado grande para mim. - referi, mentindo.
- Para mim estava óptimo... - disse enquanto esboçava um sorriso.
- Eu sei. Tu gostas de comer bem.
Ele começou a conduzir o carro ao som de uma antiga música dos Air. 
Chegámos a casa e eu fui tratar de engendrar um plano para sair de casa. Jared sentou-se no sofá a ver um filme. Queria a minha companhia mas subitamente lembrei-me que podia dizer-lhe que ia a casa da senhora... hum... Rose para escolher... a cor da lã para uma camisola de lã. Assegurei-lhe que tinha de levar o carro porque ficava ainda um pouco longe e que iria voltar a casa intacta e que iria manter o meu telemóvel ligado. 
Peguei nas chaves e conduzi o BMW pela estrada fora. Tinha quase a certeza que o jipe preto estacionado e frente à nossa habitação era de Oliver. Coloquei as chaves na ignição arranquei, verificando pelo retrovisor que o jipe me seguia. Era Oliver. Conduzi até ao local menos óbvio possível e mais próximo do caminho que lhe tinha indicado. Assim podia ocultar parte da informação ou até deformá-la. 
Estacionei o carro e entrei num pequeno café. Vi Oliver sair do jipe. Esperei por ele. Estava abatido. Envergava umas calças de ganga coçadas nos joelhos, uns ténis All Star pretos e uma t-shirt branca. Tirou os seus Ray Bans e trazia o seu cabelo castanho claro espetado com gel, como nos velhos tempos.  Notei que o seu rosto expressava, de forma promíscua, saudade, estupefacção e desânimo. 
- Hazel... - disse ele dando-me um abraço. 
- Eu senti a tua falta, imbecil! - disse-lhe com as lágrimas a picarem-me os olhos.
Ele sorriu.
- E achas que eu não? Achas que não passei noites em claro a repensar na atitude que tinha tomado? A pensar o que seria melhor para ti? Não penses que és a única vítima em toda esta história. Eu sou essa personagem que pensas que és. Recusaste-me mesmo sabendo... mas não te recrimino.
Acariciei-lhe a face.
- Sabes perfeitamente o que penso e o que sinto. - retorqui. - Eu hoje não quero discutir contigo! Não te vejo há quase meio ano! Conta-me. O que tens feito?
Ele olhou-me de soslaio.
- Investigar, Hazel. É o que ando a fazer. - disse. - A propósito, Larry está à tua procura. 
- Eu não quero saber. Estou agora aqui e é onde pretendo estar. - disse.
Ele sorriu com escárnio e olhou-me de alto a baixo.
- És uma das mulheres mais interessantes que a minha vida alguma vez me revelou. - suspirou. - Ficas tão diferente nessa tua actual figura. Pareces tão matura... tão segura e simultaneamente frágil. Tenho medo de te tocar. - Deu um passo atrás. 
- Oliver! - disse indignada. - Eu sou a Hazel de sempre. Apenas tenho uma diferença: carrego uma criança.
- Não gosto dela. - disse rispidamente.
As lágrimas começaram-me a cair em catadupa.
- Sabes... eu... eu não me importei que vigiasses os nossos passos. - disse, soluçando. - E... agora... eu nem sei como ainda ligo a essas tolices que cospes dessa tua boca envenenada! - repliquei. 
Peguei na minha mala. Ele deu um passo à frente.
- Eu sei que necessitas de chorar, Hazel. Eu sei que vais precisar de chorar. - fez uma pausa, estendendo-me os seus braços. - Chora! Estou-te a oferecer os meus braços para chorares como nos bons velhos tempos. 
Imediatamente aceitei. Sentia-me tão bem quando ele me apoiava. 
- Hazel... eu tenho a dizer-te algo... - disse enquanto pousava o seu queixo na minha nuca. 
Eu continuava a molhar incessantemente a sua t-shirt com as minhas lágrimas.
- Diz. - disse com uma voz trémula.
- Mais dia ou menos dia... - parou. - ele será... preso.
A corrente de lágrimas aumentou. Não queria ouvir aquela palavra embora a verdade já me estivesse evidente desde que tomar conhecimento da situação. Mas era reconfortante viver na ilusão de que ele seria meu e para sempre meu. 
continua (penúltimo capítulo)... 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O Jornalista - XIV

O Sol penetrava pelas cortinas incidindo impiedosamente sobre os meus olhos. Espreguicei-me morosamente e procurei um pouco de conforto no tronco de Jared. Porém, apenas me deparei com a sua almofada. Levantei-me e vi que ele tinha saído, daí à janela estar aberta, bem como as cortinas. Olhei para a mesa de cabeceira que ladeava a cama e que se encontrava do meu lado esquerdo. Ele tinha deixado o seu telemóvel em casa. Raios! Como iria eu contactá-lo? Olhei mais atentamente e vi um pequeno envelope com o meu nome numa letra legível. Com os meus membros superiores a tremer alcancei o pequeno envelope e, com receio do seu conteúdo, abri-o lentamente. Ao fim de alguns segundos retirei o pequeno papel branco escrito a caneta de ponta fina preta e escrito claramente à pressa, onde li, com um certo laivo de preocupação 
"Hazel, segue claramente à risca tudo aquilo que te aqui vou enunciar. Se eu não voltar por volta da uma da tarde, abre o roupeiro e tira de lá um saco de desporto preto e outro azul. O azul é para meteres todas as tuas roupas, todos os teus pertences. Na bolsa mais pequena tem uma quantia avultada de dinheiro que te permite viver durante alguns meses fora da América. O saco preto é para queimares juntamente com o meu passaporte, com as minhas roupas, com tudo o que me pertença. Se eu não chegar à uma, embarca no avião mais rápido que te permita viajar até à Europa. - A sua caligrafia começou a tornar-se mais perfeita. - Eu espero que nada disto aconteça, mas se eventualmente eu não aparecer, quero que saibas que nunca houve nem há-de existir outro homem no mundo que te ame mais do que eu. Cuidem-se sem mim. Jared."
Olhei, desesperada para o relógio. Marcava onze da manhã. Apressei-me a abrir o roupeiro para ver o que eventualmente tinha de queimar. Abri o saco desportivo preto e deparei-me com uma quantidade indeterminada de armas. Fechei-a quase de imediato para afastar aquele mau presságio. Abri a mala azul e vi roupas e verifiquei o dinheiro. Era, sem dúvida, uma quantia que me permitia viver durante uns largos anos na Europa mas eu preferia viver sem o dinheiro a abdicar da companhia de Jared. Fechei com demasiada força a porta do roupeiro e decidi ir apanhar um pouco de ar. Vesti um vestido e peguei num casaco, saindo a uma grande velocidade do quarto, passando pela pequena recepção como uma flecha. Aspirei o ar quente e húmido, pouco típico do mês de Outubro em Helena, mas pelos vistos usual no Texas. Senti a minha garganta a secar inexoravelmente. A escassa brisa fazia com que a escassa vegetação aérea adejasse ao seu sabor. Envolvi os meus braços sobre o meu ventre cada vez maior e sentei-me na berma do passeio a reflectir no Inferno em que a minha vida se poderia vir a tornar. Jared, se Oliver descobrisse que ele era o "Fantasma" e considerando o ódio dele, iria preso. E o que seria de nós sem ele? Sim, agora nós. Eu tinha-me apegado demasiado a Jared e não me arrependia disso. Mas... Jackson iria ser discriminado por todos por ser filho de um assassino mesmo ele o sendo porque é obrigado... embora isso não seja justificação. 
Os carros passavam levantando poeira na estrada de terra batida mas eu não queria saber se ficava cheia de poeira ou não. Eu esperava ver Jared a aproximar-se inexoravelmente com aquela sua face oval, irresistível com aquele seu olhar matreiro e brincalhão, com o seu cabelo a ser projectado pela brisa. Era isso que eu esperava ver. Contei cada segundo, cada minuto, cada hora... até que Paola, a funcionária balofa da recepção, me trouxe algo para comer. Agradeci-lhe, devorando quase de imediato. Encolhi-me toda, colocando-me na posição fetal e encostei a minha cabeça aos meus joelhos com os olhos a verterem lágrimas em catadupa. Encostei-me à coluna de pedra e devo ter acabado por adormecer. 
"- Oliver? - questionei enquanto afastava uma cortina. 
- Estou aqui. - disse.
Continuei a caminhar sobre aquela penumbra e, abruptamente fez-se luz. A luz era tão intensa que me queimava os olhos. Olhei para o solo e vi que caminhava sobre uma espécie de banco sueco só que com dezenas de metros.
- Hazel? És tu? - questionou outra voz que era proveniente de Jared.
Fiquei assustada porque existiam dois caminhos. Um que me conduzia a Oliver e outro que me conduzia a Jared. Óbvio que segui o caminho que acessava a Jared até que esse caminho cedeu por completo, deixando-me a meio."
- Hazel? - Senti uma mão a dar-me uma palmada leve no braço.
Olhei para cima.
- Jared? - questionei, incrédula. Esfreguei os olhos. - Jared! - disse com entusiasmo lançando-me ao seu pescoço.
- Vamos para dentro. Preciso de desabafar contigo.
Ele levou-me a reboque para o interior. Paola olhava-nos com um misticismo inexplicável nos seus olhos.
Entramos e os seus braços envolveram a minha cintura empurrando-me para ele. A sua boca movia-se ao mesmo tempo que a minha e as suas mãos escorregavam pelo meu corpo. Inesperadamente, parou. Sentei-me na cama e ele tirou o seu casaco, atirando-o para cima da cadeira. 
- Desculpa mas sentia a tua falta e não me consegui controlar. - disse sentando-se também ao meu lado.
- Não precisas de pedir desculpa. - disse.
- Como tens andado? - questionou agarrando a minha mão. - Desculpa aquela carta mas eu não tinha a certeza se saía vivo.
- Não ouses sequer dizer mais essa frase! - vociferei. - Temos estado bem de saúde, tirando a parte em que resolves fazer um últimato. Não sabes sequer o que eu pensei!
Ele sorriu e depois suspirou. Colocou a sua mão no meu ventre.
- Daqui a uns meses nasce e eu estarei preso, se não estiver morto. - disse, sorrindo no final.
- Jared, por favor, não repitas essa palavra contundente. - Mudei de assunto. - O que foste fazer? Hum...
Ele olhou-me de soslaio. Não estava muito bem humorado.
- Não, não matei ninguém, se é o que queres saber. - respondeu com tibieza. 
- Foste tu que escreveste aquilo no escritório, não foste? - abordei-o.
Ele sentou-se na cama e encolheu-se todo, adoptando também uma posição fetal. 
- Sim, fui eu que escrevi. - respondeu.
Com receio, questionei.
- E... quem é o próximo?
Ele endireitou-se desajeitadamente e com raiva respondeu-me:
- Por que achas que eu podia não sair vivo? Aliás, a esta hora eu devia estar enterrado algures no Texas. Só estou aqui, vivo, porque consegui escapar das garras daquele demónio! - exaltou-se. - Queres mesmo saber quem é a vítima que me está a fazer correr riscos, que está a contribuir para que eu contribua para a minha destruição? Então aqui vai a resposta que tanto anseias: - fez uma grande pausa, atirando-me aquele nome como se fosse um tiro. - Oliver Robbins. Esse sujeito que me despreza profundamente, está a dar cabo da nossa vida. Eu não o quero matar, aliás... eu nunca quis matar ninguém, nem razões tenho. Aparentemente "Deus" é que tem razões. - fez uma pausa, amansando. - Eu andei a averiguar as razões pela qual Oliver está na lista negra e descobri algumas coisas mas não te vou dizer. Não quero mais desilusões na tua vida. 
- Jared... - murmurei. - Eu quero saber as coisas agora. Se ele te julga e faz algo similar, acho que está a ser injusto.
Ele suspirou e abraçou-me.
- Ele tem a mania de fazer investigações por conta própria. E uma das vítimas da sua investigação, para além de mim foi "Deus". Eu não vou sujar as minhas mãos com o sangue daquele... - pensou um pouco. - Oliver. Eu vou fazer de tudo para tentar desviar o alvo dele... - Segurou-me nos ombros com carinho. - E se quiseres saber o paradeiro dele, eu posso dizer-te com toda a segurança que ele se encontra a escassos metros de nós, a espiar-me constantemente e com vontade de te abraçar cada vez que te vê a vaguear sozinha pelos corredores e levar-te para o seu quarto. 

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O Jornalista X

A semana passada sem a companhia de Jared no trabalho foi muito difícil. Já não tinha ninguém a sussurrar-me palavras agradáveis ao meu ouvido. Já não tinha uma sombra a seguir-me, e embora eu não gostasse absolutamente nada, sentia falta. Quanto a Jared, passava os dias enfiado em casa no computador ou a olhar sem qualquer interesse para o ecrã da televisão na sala. Quando eu chagava, já cansada por ter de carregar a minha mala, ele prontificava-se a ajudar-me no transporte. Às vezes costumava compará-lo ao pequeno Flash, um cãozinho beagle que eu tinha quando era criança. Ele não gostava da comparação, mas efectivamente ele vivia para mim. Ele fazia tudo em função de mim. Não saía de casa pelo simples facto de eu vir a precisar dele. Eu não queria isso. Queria que ele tivesse uma vida independente da minha, e ele recusava-se a isso. De certa forma compreendia-o...
Entretanto, ele voltou a trabalhar. Oliver também. Larry teve um cuidado acrescido e tentou com que nos cruzássemos menos vezes e tentou fazer com que eu não participasse nas investigações juntamente com ele. O meu ventre continuava a crescer inexoravelmente, e não podia continuar a esconder mais. A partir do momento em que Jared fez a questão de, com um enorme sorriso anunciar que ia ser pai, todos começaram a ter um comportamento diferente comigo. Eram atenciosos, questionavam se eu queria alguma coisa... era capaz de me habituar àquele tratamento! 
A ideia de ser mãe já não me assustava tanto como no início, principalmente sabendo que ia ter alguém ao meu lado sempre a apoiar-me. 
- Vou buscar um café. - sussurrou-me ao ouvido. - Queres que traga para vocês?
Olhei para ele céptica.
- Para nós?
Ele olhou-me indignada.
- Sim! Para ti e para ele! - disse apoiando a sua mão no meu ventre.
- Não, obrigada eu tenho dormido mal o suficiente. Não preciso de cafeína para me acordar.
Deu-me um beijo longo e saiu a correr porque ouviu os passos característicos de Larry. Não pude deixar de sorrir. Com aquela indumentária formal tornava-se ainda mais adorável. Afastei aqueles pensamentos e concentrei-me no que tinha a fazer. Larry estava a bisbilhotar o que eu estava a fazer.
- Hazel, tenho que falar contigo acerca do Oliver... - disse, sentando-se em cima da secretária.
- Larry, eu não consigo detê-lo de nos odiar. Ele simplesmente não aprova o meu relacionamento com Jared e ele não pode intrometer-se continuamente na minha vida. 
Larry bufou de impaciência.
- O Oliver despediu-se. - disparou.
Fiquei petrificada. Uma bala parecia ter embatido contra o meu corpo. Eu não sabia se queria chorar, continuar inexpressiva ou desmaiar.
- Larry... pode fazer-me um pequeno favor? Diga a Jared que fui... embora, mas impeça-o de sair daqui.
Levantei-me desajeitadamente e peguei na minha mala. Larry agarrou-me no braço.
- O que vais fazer, Hazel?
Olhei-o com seriedade e respondi:
- O que tem de ser feito.
Corri para escapar de Jared e só para no carro. Percorri as íngremes ruas que davam acesso à habitação rústica de Oliver. Chovia copiosamente. Saí do carro, colocando a gabardina sobre a minha cabeça e vi que Oliver estava a passear em torno da casa, ritual esse que repetia sempre que estava nervoso. Clamei o seu nome até à exaustão. Decidi ir ter com ele, dado que não se tinha apercebido da minha chegada. Coloquei-me à sua frente. As gotículas escorriam pela sua face, contornando todos os traços da sua face. 
Ao olhar para ele lembrei-me daquele Oliver querido mas deparava-me com o Oliver fleumático. 
- Oliver... - suspirei. - Volta. Por favor, não me faças uma coisa destas. - supliquei. - Eu ir-me-ei sentir culpada para o resto da minha vida. 
Ele agarrou-me firmemente as mãos e sorriu docemente. Tive a sensação que ele tinha voltado ao normal.
- Hazel, tu escolheste o teu caminho. Colocaste cada pedrinha no teu caminho até que chegaste ao cume da montanha. Para mim, fizeste a pior escolha da tua vida. - fez uma pausa e recomeçou de um modo mais agressivo. - Sabes, não era isto que eu te queria dizer... sabes perfeitamente que eu não vou descansar enquanto ele não pagar por aquilo que fez. Mais dia menos dia vou-to provar! 
Com um olhar melancólico observou o meu ventre. Tapei-o o melhor que pude. 
Violentamente encostou-me contra a parede fria e molhada de sua casa e tocou carinhosamente no meu ventre com os olhos a brilharem, como que se a qualquer momento os seus olhos irrompessem num choro compulsivo.
- Esta criança que carregas nunca deveria ter sido daquele maldito. 
Eu não conseguia perceber se ele estava a chorar ou se era a chuva a escorrer-lhe pela face. 
- Se ele não tivesse aparecido, se me tivesses dado mais tempo... tudo teria sido tão, tão diferente... Eu ter-te-ia amado incondicionalmente. Ter-te-ia dado tudo aquilo que desejavas. Eu era capaz de te ter dado qualquer coisa só para te ver feliz. - continuou.
Afastou-se de mim e voltou-me as costas, enfiando as mãos no bolso.
- Tu não me deste tempo para te mostrar o que sentia. Atiraste-te de cabeça nessa relação! - vociferou.
Voltou-se novamente para mim. Apercebi-me que chorava.
- Oliver... eu não...
- Tu não queres ver a verdade! Essa é a verdade, Hazel! Tu recusas-te! - o seu tom de voz tornou-se novamente dócil. - Eu não te desejo nada de mal, mas quem vai sofrer com toda esta confusão é isso. - disse apontando para a minha barriga.
- Isso?! - questionei indignada.
- Sim. Se fosse meu, teria outro tratamento. Qualquer coisa que seja proveniente daquele sujeito não merece mais consideração. - respondeu com frieza.
- Sabes uma coisa? Eu vim aqui para te impedir de partires, de saíres. Fiz a minha parte como tua amiga! Talvez até mais do que os verdadeiros amigos fazem! Mas sabes que mais? Vai! Vai-te embora! Apanha o próximo avião ou vai imediatamente de carro para fora do país! Eu não quero saber como vai ser o futuro sem a tua presença! Vai-te embora! - bradei com todas as minhas forças. O choro começou depois. 
Ele voltou-se para mim e os seus olhos voltaram a tornar-se dóceis. Abraçou-me com força, fazendo com que eu tivesse ainda mais frio, dado que as suas roupas estavam encharcadas. 
- Desculpa, desculpa... - dizia repetidamente. - Eu não queria dizer aquelas coisas... eu não te queria magoar de forma alguma. 
- Se não me queres magoar... fica.
Ele afastou-se. 
- Hazel... eu não aguento ver-te com ele. Apetece-me pegar na arma e disparar repetidamente sobre o seu peito até vê-lo sem vida no chão. - confessou.
- Oliver... - tentei verbalizar algo, mas nada saiu para além do seu nome.
Ele voltou a aproximar-se.
- Eu preciso de algo antes de partir. - sussurrou.
- Oliver, não partas... por...
Ele lançou-se a mim e beijou-me serenamente.