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segunda-feira, 11 de abril de 2011

As Últimas Flores para o Hospital - Cap. XV (Um azar nunca vem só) (antepenúltimo)


Passámos grande parte da tarde de Domingo em casa. À noite decidimos dar um passeio. O vento era trespassante mas Ian conseguia aquecer a minha alma.
- Blair, temos de mudar de apartamento. – disse-me. – Não o achas demasiado pequeno?
- Para nós os dois serve perfeitamente. – disse-lhe dando-lhe um beijo na sua face por barbear.
- Ora aí está! Para nós os dois serve mas pode não servir para sempre.
Olhei para ele. Ficava tão adorável com aquela sua cara de homem misturada com a de um miúdo de seis anos! Completamente irresistível. Às vezes questionava-me se ele tivesse sido criado comigo não teria caído nas garras do amor por ele…
- Nisso tens razão, mas ainda é cedo. – disse-lhe. – Não é melhor irmos para casa? Estávamos lá muito, muito mais quentes.
Ele olhou-me com um sorriso matreiro.
- Por mim podemos ir. O problema é que amanhã tens de estudar, Blair. Eu não quero que fiques todo o dia a pensar em nós!
Sorri.
- Estás muito engraçadinho hoje! – comentei.
- És tu que me fazes ficar assim.
Beijei-o. Era impossível não o ter feito.
Inesperadamente, a meio do nosso beijo o telemóvel começou a tocar. Procurei-o na minha mala que se assemelhava a um arsenal e finalmente encontrei-o. Tratava-se de Erin.
- Blair? Onde estás?
- Olá! Estou na rua. Estou a dar um passeio com Ian. Por quê? Precisas de mim?
- Blair, vem a minha casa agora! Corre e não olhes para ninguém.
Estranhei o conteúdo da sua mensagem.
- Erin, estás a assustar-me. Mas que raio se passa?
Ela desligou-me a chamada.
Ian olhou para mim com preocupação e disse que era melhor irmos ver o que se passava. Dei-lhe a mão e começamos a caminhar em direcção a casa de Erin.
Ao contrário do que ela me havia dito, eu olhei para as pessoas e estranhei o facto de quase todas as elas se fazerem acompanhar de revistas de tertúlia cor-de-rosa, inclusive homens. Tentei espreitar mas nada conseguia ver. Apenas conseguia ouvir comentários do género: “Mas como é possível?”, “Mas que raio? Quem são?”.
Cheguei a casa de Erin, toquei à campainha e ela apressou-se a recolher-nos.
- Erin, o que se passa? – questionou Ian vendo-a atemorizada e irrequieta.
Eric estava ao fundo da sala com uma revista na mão, a olhá-la com estupefacção e depois caminhou até nós, entregando-a em mãos.
- Blair, obrigada por teres confiado em mim. – disse com fleuma Eric.
Olhei-o sem perceber grande coisa.
Folheei por curiosidade a revista e notei que era a mesma que todas as pessoas da cidade estavam a folhear atentamente. Subitamente, virei a revista para ver quais as notícias principais e deparei-me com uma fotografia minha e de Ian no apartamento, a beijarmo-nos. Olhei para ele. Ian estava petrificado. No cimo da fotografia, em letras bem grandes e gordas estava escrito “Amor entre irmãos será pecado?”.
- Blair, abre e lê alto. – disse-me Erin com os olhos em lágrimas.
Ian agarrou-me mais.
Eu folheei até à página indicada. As folhas não pareciam ter qualquer tipo de atrito, pelo que cheguei lá em menos de dois segundos.
- Amor entre irmãos será pecado? Eis a questão, meus senhores e senhoras. – comecei. – Hoje temos uma personalidade não muito conhecida mas muito querida por todos. É inteligente, bonita, bondosa, sempre do lado dos que necessitam, está presente nas festas de caridade e é filha da imponente e imperial falecida Barbara Copperfield Fielding. Eis a menina Blair Fielding Copperfield, a “menina do povo”. Mas será ela assim tão recta? Não me parece… A menina do povo viu-se e vê-se envolvida num escândalo que é capaz de provocar pudor a qualquer um. Constava-se que Blair tinha viajado para Paris e nós fomos atrás dela. Um dia encontrámo-la com um homem muito bem-parecido, musculado e charmoso no carro aos beijos. Quem não gosta de uma boa fofoca? Decidimos investigar quem seria o homem que ganhou o seu coraçãozinho frágil e tão bondoso. Porém, poucos meses depois, ela voltou para a sua cidade trazendo com ela esse homem. Para nossa grande admiração ficámos a saber que esse homem se chamava Ian Yorke, professor de Direito numa das mais prestigiadas escolas de França e que o seu pai era John Yorke. Fontes deveras seguras, revelaram-nos o nome completo desse senhor, que era John Liam Copperfield Yorke. Subitamente tropeçamos no nome da mística senhora Copperfield e na sua trágica história de vida ao perder marido e filho. Mas… no entanto, tudo era uma impiedosa mentira. Toda a família está viva. John Yorke, pai de Ian Yorke e de Blair Copperfield Fielding era casado com Barbara Copperfield. E, para além disto, descobrimos que ambos foram dados como mortos. Estranho… muito estranho… Continuámos a investigar até que percebemos que aquele homem era, sem sombra de dúvida o seu querido e supostamente falecido irmão. A menina do povo, a menina adorada, a menina que dispensa fama irá tê-la e o seu querido irmão… ou namorado, o que quer que eles sejam será cúmplice nesta história. Sugiro que comecem a pensar num nome para dar a este tipo de relação porque não me ocorre nada para além de “incesto”. Bonito era se desta harmoniosa relação nascesse um rebento, mas não quero estar a especular. Portanto, leitores e leitoras… tenham cuidado com as vossas crianças. Não as deixem sozinhas nem um minuto nem lhes escondam a verdade quanto aos seus parentes. – A minha voz falhou. – Maldito Jean-Claude! Deveria morrer. – vociferei referindo-me ao escritor daquela conspiração.
Abaixo encontravam-se imagens nossas aos beijos. Noutras estávamos abraçados. E em todas elas havia uma pequena descrição contundente. Na página ao lado faziam o balanço das nossas parecenças fisionómicas.
Os meus olhos começaram a verter lágrimas e eu, instintivamente agarrei-me a Ian. Erin chorava também por me ver triste. Ian mantinha-se impávido tão assustado quanto eu.
- O que vamos fazer? – inquiri eu, olhando-o nos olhos.
- Não sei, Blair… eu não sei. – disse com um tom de voz derrotado, envolvendo-me com os seus braços.
Abruptamente o meu telemóvel toca e vi que se tratava da minha vizinha. Avisou-me que dezenas de jornalistas estavam à porta do apartamento e que queria descansar. Comuniquei a Ian.
- Podem ficar cá até eles desistirem. – ofereceu Erin.
- Obrigada, Erin. Ficaremos aqui. – disse Ian, bufando de impaciência.
Dirigiu-se para o sofá e apoiou os seus cotovelos nos seus joelhos, pousando a cabeça nas palmas das suas mãos. Sentei-me ao seu lado.
- Eu sei quem é essa tal fonte segura, Blair. – Olhou-me com os olhos a tremeluzirem. – Tu tinhas razão, toda a razão. Ele está a interferir na nossa vida. Nós não tivemos qualquer tipo de precaução ao fugirmos. Viemos para um local demasiado óbvio. Devíamos ter fugido para a Índia ou para o Brasil! Nunca para Nova Iorque. Nunca!
Erin e Eric tinham abandonado a sala sorrateiramente.
- O que fazemos, Ian? – questionei, abraçando-o.
- Fugimos novamente para bem longe daqui. – disse-me olhando-me fixamente nos olhos. – Fugimos antes do amanhecer.
Limpei uma lágrima que lhe escapou pelo canto do olho.
- Tu não és meu irmão, Ian. Nunca foste. Nunca serás. – fiz uma pausa com a voz a falhar-me e com as lágrimas a teimarem irromper impiedosamente. – Serás sempre aquele homem que eu amei incondicionalmente.
Ele inclinou-se para me beijar mas deteve-se. Limitou-se a acariciar-me a face e a contornar os meus lábios com a polpa dos seus dedos. As suas mãos tremiam e os seus olhos claros vertiam lágrimas que, inexoravelmente se tornaram mais frequentes e copiosas. Seguidamente, puxou-me contra si, e começou a balançar como se fosse uma criança.
- Eu sei onde ele está. Sairemos bem cedo. – disse-me, deitando-se no sofá.
Deitei-me também, encostando-me a ele. Ele não proferia nenhuma palavra. Fingia dormir para eu não falar do assunto nem perceber que ele estava numa profunda agonia. Mas ele era como as palmas das minhas mãos: conhecia-o melhor que ninguém.
- Por favor, pára. Estás-me a fazer sofrer ainda mais quando o que eu mais anseio é conseguir adormecer e esquecer este escândalo por alguns momentos. – disse, vendo que ele estava a chorar.
- Eu não aguento, Blair. – disse com uma fúria que eu nunca tinha visto.
Levantou-se num ápice e pegou no seu casaco. Começou a correr, abrindo a porta e fechando-a de imediato de modo a que eu me atrasasse. Clamei o seu nome mas ele ia tão desnorteado que nem sequer deu conta que o chamava. Ele descia as escadas a um ritmo acelerado, difícil de acompanhar até que, ao chegar ao fundo da escadaria, começou a correr. Era incrível como ele conseguia correr tão depressa. Apressei-me a tentar segui-lo. A rua estava deserta. Apenas havia um aglomerado de toxicodependentes pacíficos ao fundo da rua.
- Ian! – bradei, já ofegante.
Ele continuava a correr e com o telemóvel ao ouvido. Subitamente parou e olhou para trás.
- Blair. Fica onde estás. Volta para casa. Encontro-te lá. – disse-me num tom agressivo.
Olhei com estupefacção para ele.
- Recuso-me! – bradei. – Eu vou contigo independentemente de onde vás.
Ele retomou a sua corrida e eu segui-o o melhor que pude. Ele enveredou por uma rua que ia dar a um dos hotéis mais imponentes da cidade. A iluminação era tamanha que se podia fazer ver a centenas de metros. Questionei-me por que raio ele tinha ido para lá. Mesmo assim segui-o fielmente. Quando entrei, ele estava a discutir com o recepcionista porque queria falar com John Yorke. Aquele nome ecoou na minha cabeça, e por momentos temi o que ele fosse fazer. Desloquei-me até ele.
- Ian, por favor, vamos embora daqui! – disse-lhe pousando a minha mão no ombro.
O funcionário olhou-nos e sorriu-nos com escárnio.
- Lamento, senhor mas não podemos divulgar informações sobre os nossos hóspedes.
- Ouça, eu preciso de ter uma conversa! Eu não saio daqui enquanto não falar com ele! – vociferou, com o seu rosto transfigurado.
- Ian…
- Blair… sai daqui! Por favor, vai para casa. Ouve-me desta vez. – disse-me rispidamente.
Afastei-me dele.
Subitamente vi John com o seu sorriso satisfeito a descer os degraus aos saltinhos como se fosse uma criança. Envergava a sua típica indumentária negra. Ele estacou ao ver-me. Tentei dizer-lhe para ir para o seu quarto mas, Ian com o seu olhar fulminante e com toda a sua raiva, viu-o. Deu um passo em frente e o seu rosto estava transfigurado. Ele suava continuamente e a sua respiração era tão forte que eu conseguia ouvi-la. Num gesto rápido e inesperado, Ian agarra nos colarinhos de John.
- Tu estás a destruir a minha vida! – bradou. – Como tens coragem de fazer isto ao teu próprio filho?
- Ian! – bradei, tentando interpor-me no caminho dos dois. Ele afastou-me.
John, com um olhar ameaçador, encarou-o.
- Tu não podes namorar com a tua irmã, Ian! Cresce um pouco! Deixa de sonhar!
Entretanto dois seguranças tentaram separá-los.
- E tu és capaz de agredir o teu próprio pai, Ian? – questionou com intuito de o perturbar ainda mais. – És capaz ou serás o eterno Ian com coração mole?
Ian descontrolou-se e tentou soltar-se das mãos dos seguranças.
- Tu não mereces sequer o ar que respiras. – disse-lhe com desprezo. – Não mereces o chão que pisas nem o amor… nem complacência de ninguém. No meio desta história toda, quem mais sofre é ela porque vê-se na obrigação de defender alguém que nunca teve uma réstia de amor por ela. Nem por ninguém. – proferiu com escárnio.
John tentou-se largar dos seguranças mas também não conseguiu.
- Ian, acalma-te, por favor, vamos embora! – disse-lhe com as lágrimas nos olhos.
John voltou-se para mim e sorriu com desprezo.
- Vocês entendem-se muito bem, hem? Como é ele? Beija bem ou mal? Sabes isso melhor que ninguém, Blair. Se sair ao pai, é com certeza muito bom nessa matéria.
- Tu não fales assim! – bradou Ian, esforçando-se para conseguir desprender-se das garras dos seguranças.
- Não merece que lhe responda. – disse. – Se alguma vez tivesse amado a minha mãe, saberia o que era esse sentimento. Afinal o que foi para si? Mera diversão? Puro prazer nas noites de Inverno?
Ele voltou a olhar-me ameaçadoramente.
- A minha mãe sempre me disse que eu era como o meu pai. – continuei. – Mas agora apercebo-me do erro que ela nunca notou: na sua falta de carácter. Não passa de um homem “seco”. Sem pinta de sangue nas veias. Sabe sequer o que é sentir o sangue fluir nas veias quando vê a pessoa que ama? Sabe o que é sentir um formigueiro na barriga cada vez que vê quem ama? – questionei retoricamente. – Obviamente que não. A única pessoa que ama é você mesmo e esse formigueiro só acontece quando se vislumbra ao espelho.
Ele voltou-me a face, sem me responder. Os seguranças expulsaram-nos do hotel, empurrando Ian com violência. Amparei a sua queda. Ao fundo da rua, dezenas de jornalistas corriam e, do topo do edifício do Hotel alguns paparazzis tiravam-nos fotografias. Ian lançou impropérios a John, e numa aflição nunca antes vista, gritou agarrando-me a mão.
- Corre!
As suas pernas começaram a movimentar-se rapidamente e eu tive dificuldade em acompanhá-lo. Olhei para trás e vi que os jornalistas nos percorriam e que se encontravam paparazzis por todo o lado. Enveredámos por uma rua na esperança de encontrar algum sítio onde nos pudéssemos esconder. Felizmente a sorte parecia estar do nosso lado. Encontrámos um pequeno beiral com as portas escancaradas. Entrámos e escondemo-nos no local mais escuro. Eu ia começar a falar mas ele colocou o seu dedo indicador sobre os meus lábios, contornando-os depois.
Subitamente ouvimos os passos imperativos a embaterem contra o chão e a precipitarem-se para nos apanhar. Alguém se deteve à porta do beiral. Fechei os olhos e recostei-me no peito de Ian, que se precipitou para me abraçar. Passado algum tempo saiu a correr e clamou o nome de alguém, transmitindo que não estávamos ali. Respirei de alívio.
Ian estava encostado à parede rugosa e deixou-se cair lentamente, roçando as suas costas naquela parede. Quando estava já sentado no chão, olhou-me com morbidez e disse-me com um desânimo que me fazia querer abraçá-lo incessavelmente:
- Eu temia isto. Temia o desfecho desta relação. – Olhou para o lado. – Temia porque sabia que o que estávamos a fazer era completamente errado e insano!
Olhei para ele, incrédula. Sentei-me ao seu lado.
- Estás arrependido?
Ele olhou-me nos olhos e contornou com a polpa dos seus dedos a minha face.
- Eu temia a forma como isto iria acabar, Blair. Eu não queria que isto fosse assim. Não sonhava sequer que John se fosse intrometer tanto na nossa vida. Ele não costumava preocupar-se com ninguém.
- Não respondeste à minha questão! – disse, rispidamente.
- Arrependido?! Só de não te ter conhecido mais cedo. – pronunciou, lentamente. – Eu ter-me-ia apaixonado por ti mesmo que fossemos criados juntos, Blair. Eu iria apaixonar-me por ti de qualquer das formas. Não há volta a dar nesta questão. Estamos presos pelo destino e ele quer que sobrevivamos a isto.
Olhei-o comovida com as palavras que ele havia proferido. Fiquei a pensar no emprego da palavra destino. Nunca havia acreditado nisso. Sempre achei que fosse uma palavra com um significado religioso e filosófico.
Pousei a cabeça nas suas pernas. Os seus dedos percorriam a minha cabeleira castanho-clara.
- O que fazemos? – inquiri novamente fixando o tecto.
Os seus lábios pousaram nos meus uns breves segundos.
- Fugimos. – respondeu.
Olhei para ele.
- Para onde?
- Para a Rússia, para o Japão, China… Eu não sei, Blair! – disse agonizado. – Algum local onde não nos possam encontrar! Se for preciso arranjo quem nos altere o nome, nacionalidade… tudo o que precisarmos. – fez uma pausa e agarrou as minhas mãos firmemente. – A única coisa que eu quero é permanecer contigo. Contigo e com aqueles que podem vir.
Sorriu carinhosamente para mim. Retribuí-lhe o sorriso. Abruptamente ele puxou-me para si.
- Eu gostava de ter uma equipa de futebol. – disse, soltando um sorriso abafado.
- Estás maluco? Bem se vê que não és mulher! – vociferei.
- Eu ajudava-te a criá-los. Depois comprávamos uma casa bem grande, com um enorme terraço para os miúdos brincarem… e nós ficávamos a vê-los através da grande vidraça da sala…
- Sonhas muito alto, Ian. – disse, fechando os meus olhos tentando imaginar todo aquele cenário.
Ian não falou durante um momento e quando estava calado era porque estava a reflectir sobre algo.
- Blair… não há nenhuma possibilidade… - deteve-se. – Esquece, vamos embora.
Estranhei o conteúdo.
- Vá, Ian. Sabes que eu gosto que completes as frases.
- Tens-te sentido bem?
Olhei-o de soslaio.
- Sim, tenho. Por quê?
- Não tens sentido nada diferente em ti? Nem nas roupas… Nada de nada?
- Não. – respondi com cepticismo. – Mas por que me questionas isso? – insisti.
Ele ficou um bocado atrapalhado.
- Bem… eu tinha uma pequena esperança que estivesses grávida. – confessou. – Nós nunca usámos nada que evitasse uma gravidez.
Olhei-o e sorri.
- Podias ter perguntado logo isso! – disse-lhe. – Não me parece, Ian.
Ele olhou-me desiludido e, por momentos desejei estar grávida só para ver nele um sorriso verdadeiro.
Ele beijou-me sorrateiramente e, num murmúrio disse:
- Que pena…
Ele levantou-se e foi perscrutar se alguém estava a espiar-nos. Vendo que o caminho estava livre, desatámos a correr até casa que não ficava muito longe dali. Eram aproximadamente três da madrugada e a rua estava praticamente deserta. A leve brisa afastava-me os cabelos da face enquanto corria desesperadamente para o alcançar.
- Corre! – disse ele num tom de troça.
Felizmente já não faltava muito para chegar e, quando abri a porta que acessava ao hall de entrada principal o porteiro olhou-nos com cepticismo mas depois desviou o olhar, cumprimentando-nos. Quase todos os vizinhos se amontoavam ao decorrer do corrimão de madeira nos seus trajes de dormir e alguns deles, nomeadamente as mulheres exibiam trajes mínimos e não pareciam ter qualquer tipo de pudor perante os vizinhos.
Cabisbaixa, abri rapidamente a porta e fechei-a para não ouvir nenhum comentário. 




Já somos 150! Obrigada a todos por me seguirem e espero que venham muitos mais! 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Jornalista - XVI (penúltimo capítulo)

Eu adorava aquela casa. Amava acordar cedo para preparar o pequeno-almoço no jardim das traseiras e para sentir o Sol ardente a incidir sobre a minha pele clara. Com a minha ida para o Texas, a minha pele tinha-se tornado mais bronzeada devido à constante exposição solar. Amava ainda mais ver Jared espreguiçar-se e a conduzir-se preguiçosamente para a pequena mesa redonda de mármore, caminhando sobre a relva acabada de aparar. Sentava-se graciosamente e colocava um pouco de café na sua chávena, adicionando posteriormente um pouco de água quente. Preparava também o café para mim. Colocava sempre na sua torrada uma quantidade avultada de compota de morango. Ele era, sem réstia de dúvida encantador!
- Hum... tenho a cara com compota? - questionou vendo que eu o mirava com uma certa admiração.
Acordei do meu sonho.
- Não, estava só a olhar para ti. Estava a pensar... - respondi.
- Bem, estás demasiado absorta e isso preocupa-me... - Sorriu, limpando a boca com um guardanapo. - Hoje tive um sonho bom. Sonhei contigo.
Sorri, segurando-lhe a mão.
- Sonhei que era normal, que ninguém me perseguia nem vigiava... - continuou. - Jackson corria neste jardim com outra criança mas parecia não ser minha, sabes? - as suas sobrancelhas uniram-se. - Misturei-me com eles, mas aquela menina... eu sabia que era nossa mas eu não nutria por ela um sentimento tão profundo como sentia por ele. - fez uma pausa mostrando-se absorto. - Foi deveras estranho. - Sorriu e aproximou-se de mim para me beijar ternamente. - Como passaste a noite? - questionou enquanto debicava a sua torrada a transbordar compota.
Fiz um esgar com a boca.
- Dormi pouco. Ele estava agitado. - confessei. - Se calhar foi da cama nova. Não faço a mínima ideia. - disse enquanto bebia um pouco de café.
Ele puxou a sua cadeira aproximando-se de mim. Colocou a sua mão grande e protectora sobre o meu ventre enorme. Ficou feliz com sentiu um pequeno pontapé. Eu não achei tanta piada. Tinha sido forte.
- Uau! - exclamou. - Sentiste? Sentiste isto? Ele pontapeou! Grande homem que será! - exclamava maravilhado.
Limitei-me a permanecer calada. Ele pousou os seus grandes olhos azuis nos meus e acariciou-me o rosto.
- Eu quero que ele tenha os teus olhos, a tua boca, a tua face... - disse-lhe quase num sussurro.
Ele sorriu, contornando com os seus dedos a linha dos meus lábios. 
- Eu quero que ele seja feliz. Que se pareça contigo em todos os aspectos. Não quero que ele saiba que eu alguma vez existi se algo me acontecer. - disse-me não me encarando.
Levantei-me e procurei fitá-lo, mas ele levantou-se também e começou a levantar a mesa, alegando que devia obedecer-lhe e permanecer deitada ou então quieta. Na verdade, sentia-me estafada logo pela manhã e com dores nas pernas. Também não faltava muito para o seu nascimento. 
Dirigi-me para o interior da casa onde me entreti a dobrar roupa, fugindo às rígidas regras ditadas por Jared. Ele estava no jardim a arrancar umas ervas e eu podia vê-lo através da janela do quarto. O seu cabelo tinha crescido bastante desde os últimos tempos. Ele amarrou-o com uma das fitas com que eu costumava prender o meu cabelo. A sua t-shirt branca estava repleta de terra e as suas calças, já estavam coçadas. Nunca imaginei que ele fosse assim tão... trabalhador. Apesar do seu grande defeito, ele tinha qualidades de louvar. 
Por volta da uma da tarde, levou-me a almoçar num dos restaurantes mais chiques da cidade. Ora, a minha indumentária mais magnificente tinha deixado de me servir com a gravidez, pelo que tive de envergar um dos meus vestidos florais habituais e calçar umas sabrinas para o caso dos meus pés resolverem inchar.
Mal saí à rua, vi que todos os vizinhos nos sorriam e nos cumprimentavam. Algumas senhoras, com idade já para serem avós, questionavam quem eu era e como se chamava o rebento. Eu respondia, tentava ser simpática sem dar muitos pormenores. Jared também parecia ser admirado na vizinhança. Um homem cumprimentou-o e agradeceu-lhe por o ter ajudado a retirar o seu gato de um galho de uma árvore. As senhoras prometeram bordar babetes e tricotar meias para Jackson. Tentei impedi-las, dizendo com educação que o Texas era um local suficientemente quente para ele vir a usar meias de lã. No entanto, de nada me valeu. 
- Bem, tens um arsenal de pessoas a quererem oferecer-te coisas. - observou Jared quando já nos encontrávamos dentro do novo BMW.
Sorri.
Quando estávamos no restaurante notei que Jared estava muito absorto. Olhava fixamente para um ponto indefinido. Cheguei a desconfiar que ele olhava uma funcionária, mas ao seguir o seu olhar vi que ele apenas fixava uma parede. 
- Jared? - questionei. - Jared!
Ele estremeceu. Pousou os cotovelos na mesa e apoiou a cabeça nas mãos.
- Estás bem?
- Estou... só que... esquece. Isto passa.
- Jared, sabes que podes contar-me tudo.
Ele olhou-me com ternura e sorriu.
- Ficas tão linda nesse vestido e com essa barriga.... Não podes ficar assim para sempre? - questionou sabendo que era impossível.
- Ficaria, se permanecesses eternamente ao meu lado. - respondi.
O funcionário trouxe a lista da ementa. Jared não exitou a escolher. Eu li e reli a ementa mas não me apetecia nada daquilo. 
- Hazel, o que queres? - questionou.
O meu olhar oscilou entre o de Jared e o do funcionário. Tinha vergonha de o dizer. 
- Hum... Jared, - disse em tom de segredo. - não me apetece nada destas coisas demasiado chiques... - Olhei para o funcionário e diminui ainda mais o tom de voz. - Apetece-me um bife bem passado com batatas fritas. 
Jared não se conteu e deu uma gargalhada, zombando da minha vergonha.
- Se não se importa, traga-me um bife bem passado com batatas fritas, por favor. - anunciou exibindo um sorriso.
- Mas senhor, - começou o funcionário. - o Chef recusa-se a fazer esse tipo de pratos.
Jared tornou o seu ar mais sério.
- Amigo, está perante uma grávida. Aposto que não quer que o meu filho nasça com cara de bife, ou quer?
O funcionário anotou no seu bloco de notas.
- Vou ver o que posso fazer. - Saiu disparado que nem uma bala.
- Eu não acredito que tiveste vergonha! - disse Jared, sorrindo.
- Estou num restaurante rodeada de abutres que só pensam em dinheiro, em champanhe e em mil e uma coisas que eu nem sequer sei o nome! - Olhei à minha volta. - Achas que aquilo tira a fome a alguém? - questionei referindo-me a um casal que comia uma coisa muito estranha com um tom esverdeado. - Aquilo não me saciava a fome!
Ele sorriu novamente.
- Hazel, tu és tão... tu! És única! É por estas e por outras que eu te amo.
Sorri e ele esticou-se para me beijar.  
- Pensei que estes fossem os teus locais predilectos. - disse enquanto tragava um pouco de pão. - Quando saíamos, em Helena, levavas-me sempre a sítios bem acomodados com comidas requintadas. Para dizer a verdade, comi bem antes de vir... tinha medo de ficar com fome. - disse em tom de segredo.
Ri-me dele.
- Eu levava-te a locais onde se comia bem, isto é, em quantidade normal para um ser humano. Isto aqui é demasiado chique e todos olham com estupefacção para o prato que o funcionário traz. Olham-o com recriminação. - observei.
De facto, todos olhavam-no e ele, coitado, estava um pouco atrapalhado. O prato chegou bem cheio. Um bife cobria grande parte do meu prato, sendo preenchido por batatas fritas. A salada vinha à parte. 
- Senhor, o seu prato já vem a caminho.
Esperei por ele, mas estava com uma vontade enorme de devorar aquele bife suculento e aquelas batatas fritas tão estaladiças. Quando finalmente chegou o seu prato, comecei a debicar lentamente o bife, tendo a perfeita noção que todos os abutres milionários me olhavam com reprovação. Mas o sabor daquele bife colmatava aquele sentimento de vergonha. 
Ao olhar para Jared, sentia uma certa angústia. Algo, algo que inexplicavelmente me avisava que algo iria dar errado. Abruptamente o bife já não deslizava tão agilmente pela minha garganta. Parecia existir um obstáculo. A minha expressão tinha-se tornado mais taciturna. Senti a mão gélida de Jared tocar na minha. Estremeci.
- Hazel, . questionou com um laivo de preocupação. - estás bem?
Meia alienada, levantei-me sorrateiramente fazendo-lhe sinal para se manter sentado. Segui até à casa de banho, onde lancei uma torrente de água que me salpicou o vestido. Tirei da minha bolsa o meu telemóvel e digitei o número de Oliver. Esperei que ele atendesse.
- Oliver. Preciso de falar contigo. Hoje. - disse mal ele atendeu a chamada.
- Hazel, tens a certeza? Onde?
- Não sejas cínico! Sabes sempre onde encontrar-me! - disse num tom desesperado. 
- Está bem, está bem. 
Desliguei a chamada, esfreguei o meu rosto na toalha branca e felpuda, tentei secar o vestido e preparei-me para sorrir e fingir que tudo estava bem. 
Desloquei-me morosamente e vi-o a olhar-me com impaciência. 
- Hazel, estás mesmo bem? - questionou enquanto eu me sentava.
- Sim. - respondi. - Apenas quero sair deste restaurante. Acho que este bife me fez mal.
Jared pediu a conta ao funcionário e saímos. Não pude deixar de reparar na sua expressão facial.
- Desculpa... eu pensei que gostasses daquele restaurante. - disse quando já nos encontrávamos no carro.
- Não, aquele bife era demasiado grande para mim. - referi, mentindo.
- Para mim estava óptimo... - disse enquanto esboçava um sorriso.
- Eu sei. Tu gostas de comer bem.
Ele começou a conduzir o carro ao som de uma antiga música dos Air. 
Chegámos a casa e eu fui tratar de engendrar um plano para sair de casa. Jared sentou-se no sofá a ver um filme. Queria a minha companhia mas subitamente lembrei-me que podia dizer-lhe que ia a casa da senhora... hum... Rose para escolher... a cor da lã para uma camisola de lã. Assegurei-lhe que tinha de levar o carro porque ficava ainda um pouco longe e que iria voltar a casa intacta e que iria manter o meu telemóvel ligado. 
Peguei nas chaves e conduzi o BMW pela estrada fora. Tinha quase a certeza que o jipe preto estacionado e frente à nossa habitação era de Oliver. Coloquei as chaves na ignição arranquei, verificando pelo retrovisor que o jipe me seguia. Era Oliver. Conduzi até ao local menos óbvio possível e mais próximo do caminho que lhe tinha indicado. Assim podia ocultar parte da informação ou até deformá-la. 
Estacionei o carro e entrei num pequeno café. Vi Oliver sair do jipe. Esperei por ele. Estava abatido. Envergava umas calças de ganga coçadas nos joelhos, uns ténis All Star pretos e uma t-shirt branca. Tirou os seus Ray Bans e trazia o seu cabelo castanho claro espetado com gel, como nos velhos tempos.  Notei que o seu rosto expressava, de forma promíscua, saudade, estupefacção e desânimo. 
- Hazel... - disse ele dando-me um abraço. 
- Eu senti a tua falta, imbecil! - disse-lhe com as lágrimas a picarem-me os olhos.
Ele sorriu.
- E achas que eu não? Achas que não passei noites em claro a repensar na atitude que tinha tomado? A pensar o que seria melhor para ti? Não penses que és a única vítima em toda esta história. Eu sou essa personagem que pensas que és. Recusaste-me mesmo sabendo... mas não te recrimino.
Acariciei-lhe a face.
- Sabes perfeitamente o que penso e o que sinto. - retorqui. - Eu hoje não quero discutir contigo! Não te vejo há quase meio ano! Conta-me. O que tens feito?
Ele olhou-me de soslaio.
- Investigar, Hazel. É o que ando a fazer. - disse. - A propósito, Larry está à tua procura. 
- Eu não quero saber. Estou agora aqui e é onde pretendo estar. - disse.
Ele sorriu com escárnio e olhou-me de alto a baixo.
- És uma das mulheres mais interessantes que a minha vida alguma vez me revelou. - suspirou. - Ficas tão diferente nessa tua actual figura. Pareces tão matura... tão segura e simultaneamente frágil. Tenho medo de te tocar. - Deu um passo atrás. 
- Oliver! - disse indignada. - Eu sou a Hazel de sempre. Apenas tenho uma diferença: carrego uma criança.
- Não gosto dela. - disse rispidamente.
As lágrimas começaram-me a cair em catadupa.
- Sabes... eu... eu não me importei que vigiasses os nossos passos. - disse, soluçando. - E... agora... eu nem sei como ainda ligo a essas tolices que cospes dessa tua boca envenenada! - repliquei. 
Peguei na minha mala. Ele deu um passo à frente.
- Eu sei que necessitas de chorar, Hazel. Eu sei que vais precisar de chorar. - fez uma pausa, estendendo-me os seus braços. - Chora! Estou-te a oferecer os meus braços para chorares como nos bons velhos tempos. 
Imediatamente aceitei. Sentia-me tão bem quando ele me apoiava. 
- Hazel... eu tenho a dizer-te algo... - disse enquanto pousava o seu queixo na minha nuca. 
Eu continuava a molhar incessantemente a sua t-shirt com as minhas lágrimas.
- Diz. - disse com uma voz trémula.
- Mais dia ou menos dia... - parou. - ele será... preso.
A corrente de lágrimas aumentou. Não queria ouvir aquela palavra embora a verdade já me estivesse evidente desde que tomar conhecimento da situação. Mas era reconfortante viver na ilusão de que ele seria meu e para sempre meu. 
continua (penúltimo capítulo)...