Click here!

Se quiseres podes ver as minhas "histórias". Clica em "Minhas Histórias"!
Mostrar mensagens com a etiqueta verdade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta verdade. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 11 de abril de 2011

As Últimas Flores para o Hospital - Cap. XV (Um azar nunca vem só) (antepenúltimo)


Passámos grande parte da tarde de Domingo em casa. À noite decidimos dar um passeio. O vento era trespassante mas Ian conseguia aquecer a minha alma.
- Blair, temos de mudar de apartamento. – disse-me. – Não o achas demasiado pequeno?
- Para nós os dois serve perfeitamente. – disse-lhe dando-lhe um beijo na sua face por barbear.
- Ora aí está! Para nós os dois serve mas pode não servir para sempre.
Olhei para ele. Ficava tão adorável com aquela sua cara de homem misturada com a de um miúdo de seis anos! Completamente irresistível. Às vezes questionava-me se ele tivesse sido criado comigo não teria caído nas garras do amor por ele…
- Nisso tens razão, mas ainda é cedo. – disse-lhe. – Não é melhor irmos para casa? Estávamos lá muito, muito mais quentes.
Ele olhou-me com um sorriso matreiro.
- Por mim podemos ir. O problema é que amanhã tens de estudar, Blair. Eu não quero que fiques todo o dia a pensar em nós!
Sorri.
- Estás muito engraçadinho hoje! – comentei.
- És tu que me fazes ficar assim.
Beijei-o. Era impossível não o ter feito.
Inesperadamente, a meio do nosso beijo o telemóvel começou a tocar. Procurei-o na minha mala que se assemelhava a um arsenal e finalmente encontrei-o. Tratava-se de Erin.
- Blair? Onde estás?
- Olá! Estou na rua. Estou a dar um passeio com Ian. Por quê? Precisas de mim?
- Blair, vem a minha casa agora! Corre e não olhes para ninguém.
Estranhei o conteúdo da sua mensagem.
- Erin, estás a assustar-me. Mas que raio se passa?
Ela desligou-me a chamada.
Ian olhou para mim com preocupação e disse que era melhor irmos ver o que se passava. Dei-lhe a mão e começamos a caminhar em direcção a casa de Erin.
Ao contrário do que ela me havia dito, eu olhei para as pessoas e estranhei o facto de quase todas as elas se fazerem acompanhar de revistas de tertúlia cor-de-rosa, inclusive homens. Tentei espreitar mas nada conseguia ver. Apenas conseguia ouvir comentários do género: “Mas como é possível?”, “Mas que raio? Quem são?”.
Cheguei a casa de Erin, toquei à campainha e ela apressou-se a recolher-nos.
- Erin, o que se passa? – questionou Ian vendo-a atemorizada e irrequieta.
Eric estava ao fundo da sala com uma revista na mão, a olhá-la com estupefacção e depois caminhou até nós, entregando-a em mãos.
- Blair, obrigada por teres confiado em mim. – disse com fleuma Eric.
Olhei-o sem perceber grande coisa.
Folheei por curiosidade a revista e notei que era a mesma que todas as pessoas da cidade estavam a folhear atentamente. Subitamente, virei a revista para ver quais as notícias principais e deparei-me com uma fotografia minha e de Ian no apartamento, a beijarmo-nos. Olhei para ele. Ian estava petrificado. No cimo da fotografia, em letras bem grandes e gordas estava escrito “Amor entre irmãos será pecado?”.
- Blair, abre e lê alto. – disse-me Erin com os olhos em lágrimas.
Ian agarrou-me mais.
Eu folheei até à página indicada. As folhas não pareciam ter qualquer tipo de atrito, pelo que cheguei lá em menos de dois segundos.
- Amor entre irmãos será pecado? Eis a questão, meus senhores e senhoras. – comecei. – Hoje temos uma personalidade não muito conhecida mas muito querida por todos. É inteligente, bonita, bondosa, sempre do lado dos que necessitam, está presente nas festas de caridade e é filha da imponente e imperial falecida Barbara Copperfield Fielding. Eis a menina Blair Fielding Copperfield, a “menina do povo”. Mas será ela assim tão recta? Não me parece… A menina do povo viu-se e vê-se envolvida num escândalo que é capaz de provocar pudor a qualquer um. Constava-se que Blair tinha viajado para Paris e nós fomos atrás dela. Um dia encontrámo-la com um homem muito bem-parecido, musculado e charmoso no carro aos beijos. Quem não gosta de uma boa fofoca? Decidimos investigar quem seria o homem que ganhou o seu coraçãozinho frágil e tão bondoso. Porém, poucos meses depois, ela voltou para a sua cidade trazendo com ela esse homem. Para nossa grande admiração ficámos a saber que esse homem se chamava Ian Yorke, professor de Direito numa das mais prestigiadas escolas de França e que o seu pai era John Yorke. Fontes deveras seguras, revelaram-nos o nome completo desse senhor, que era John Liam Copperfield Yorke. Subitamente tropeçamos no nome da mística senhora Copperfield e na sua trágica história de vida ao perder marido e filho. Mas… no entanto, tudo era uma impiedosa mentira. Toda a família está viva. John Yorke, pai de Ian Yorke e de Blair Copperfield Fielding era casado com Barbara Copperfield. E, para além disto, descobrimos que ambos foram dados como mortos. Estranho… muito estranho… Continuámos a investigar até que percebemos que aquele homem era, sem sombra de dúvida o seu querido e supostamente falecido irmão. A menina do povo, a menina adorada, a menina que dispensa fama irá tê-la e o seu querido irmão… ou namorado, o que quer que eles sejam será cúmplice nesta história. Sugiro que comecem a pensar num nome para dar a este tipo de relação porque não me ocorre nada para além de “incesto”. Bonito era se desta harmoniosa relação nascesse um rebento, mas não quero estar a especular. Portanto, leitores e leitoras… tenham cuidado com as vossas crianças. Não as deixem sozinhas nem um minuto nem lhes escondam a verdade quanto aos seus parentes. – A minha voz falhou. – Maldito Jean-Claude! Deveria morrer. – vociferei referindo-me ao escritor daquela conspiração.
Abaixo encontravam-se imagens nossas aos beijos. Noutras estávamos abraçados. E em todas elas havia uma pequena descrição contundente. Na página ao lado faziam o balanço das nossas parecenças fisionómicas.
Os meus olhos começaram a verter lágrimas e eu, instintivamente agarrei-me a Ian. Erin chorava também por me ver triste. Ian mantinha-se impávido tão assustado quanto eu.
- O que vamos fazer? – inquiri eu, olhando-o nos olhos.
- Não sei, Blair… eu não sei. – disse com um tom de voz derrotado, envolvendo-me com os seus braços.
Abruptamente o meu telemóvel toca e vi que se tratava da minha vizinha. Avisou-me que dezenas de jornalistas estavam à porta do apartamento e que queria descansar. Comuniquei a Ian.
- Podem ficar cá até eles desistirem. – ofereceu Erin.
- Obrigada, Erin. Ficaremos aqui. – disse Ian, bufando de impaciência.
Dirigiu-se para o sofá e apoiou os seus cotovelos nos seus joelhos, pousando a cabeça nas palmas das suas mãos. Sentei-me ao seu lado.
- Eu sei quem é essa tal fonte segura, Blair. – Olhou-me com os olhos a tremeluzirem. – Tu tinhas razão, toda a razão. Ele está a interferir na nossa vida. Nós não tivemos qualquer tipo de precaução ao fugirmos. Viemos para um local demasiado óbvio. Devíamos ter fugido para a Índia ou para o Brasil! Nunca para Nova Iorque. Nunca!
Erin e Eric tinham abandonado a sala sorrateiramente.
- O que fazemos, Ian? – questionei, abraçando-o.
- Fugimos novamente para bem longe daqui. – disse-me olhando-me fixamente nos olhos. – Fugimos antes do amanhecer.
Limpei uma lágrima que lhe escapou pelo canto do olho.
- Tu não és meu irmão, Ian. Nunca foste. Nunca serás. – fiz uma pausa com a voz a falhar-me e com as lágrimas a teimarem irromper impiedosamente. – Serás sempre aquele homem que eu amei incondicionalmente.
Ele inclinou-se para me beijar mas deteve-se. Limitou-se a acariciar-me a face e a contornar os meus lábios com a polpa dos seus dedos. As suas mãos tremiam e os seus olhos claros vertiam lágrimas que, inexoravelmente se tornaram mais frequentes e copiosas. Seguidamente, puxou-me contra si, e começou a balançar como se fosse uma criança.
- Eu sei onde ele está. Sairemos bem cedo. – disse-me, deitando-se no sofá.
Deitei-me também, encostando-me a ele. Ele não proferia nenhuma palavra. Fingia dormir para eu não falar do assunto nem perceber que ele estava numa profunda agonia. Mas ele era como as palmas das minhas mãos: conhecia-o melhor que ninguém.
- Por favor, pára. Estás-me a fazer sofrer ainda mais quando o que eu mais anseio é conseguir adormecer e esquecer este escândalo por alguns momentos. – disse, vendo que ele estava a chorar.
- Eu não aguento, Blair. – disse com uma fúria que eu nunca tinha visto.
Levantou-se num ápice e pegou no seu casaco. Começou a correr, abrindo a porta e fechando-a de imediato de modo a que eu me atrasasse. Clamei o seu nome mas ele ia tão desnorteado que nem sequer deu conta que o chamava. Ele descia as escadas a um ritmo acelerado, difícil de acompanhar até que, ao chegar ao fundo da escadaria, começou a correr. Era incrível como ele conseguia correr tão depressa. Apressei-me a tentar segui-lo. A rua estava deserta. Apenas havia um aglomerado de toxicodependentes pacíficos ao fundo da rua.
- Ian! – bradei, já ofegante.
Ele continuava a correr e com o telemóvel ao ouvido. Subitamente parou e olhou para trás.
- Blair. Fica onde estás. Volta para casa. Encontro-te lá. – disse-me num tom agressivo.
Olhei com estupefacção para ele.
- Recuso-me! – bradei. – Eu vou contigo independentemente de onde vás.
Ele retomou a sua corrida e eu segui-o o melhor que pude. Ele enveredou por uma rua que ia dar a um dos hotéis mais imponentes da cidade. A iluminação era tamanha que se podia fazer ver a centenas de metros. Questionei-me por que raio ele tinha ido para lá. Mesmo assim segui-o fielmente. Quando entrei, ele estava a discutir com o recepcionista porque queria falar com John Yorke. Aquele nome ecoou na minha cabeça, e por momentos temi o que ele fosse fazer. Desloquei-me até ele.
- Ian, por favor, vamos embora daqui! – disse-lhe pousando a minha mão no ombro.
O funcionário olhou-nos e sorriu-nos com escárnio.
- Lamento, senhor mas não podemos divulgar informações sobre os nossos hóspedes.
- Ouça, eu preciso de ter uma conversa! Eu não saio daqui enquanto não falar com ele! – vociferou, com o seu rosto transfigurado.
- Ian…
- Blair… sai daqui! Por favor, vai para casa. Ouve-me desta vez. – disse-me rispidamente.
Afastei-me dele.
Subitamente vi John com o seu sorriso satisfeito a descer os degraus aos saltinhos como se fosse uma criança. Envergava a sua típica indumentária negra. Ele estacou ao ver-me. Tentei dizer-lhe para ir para o seu quarto mas, Ian com o seu olhar fulminante e com toda a sua raiva, viu-o. Deu um passo em frente e o seu rosto estava transfigurado. Ele suava continuamente e a sua respiração era tão forte que eu conseguia ouvi-la. Num gesto rápido e inesperado, Ian agarra nos colarinhos de John.
- Tu estás a destruir a minha vida! – bradou. – Como tens coragem de fazer isto ao teu próprio filho?
- Ian! – bradei, tentando interpor-me no caminho dos dois. Ele afastou-me.
John, com um olhar ameaçador, encarou-o.
- Tu não podes namorar com a tua irmã, Ian! Cresce um pouco! Deixa de sonhar!
Entretanto dois seguranças tentaram separá-los.
- E tu és capaz de agredir o teu próprio pai, Ian? – questionou com intuito de o perturbar ainda mais. – És capaz ou serás o eterno Ian com coração mole?
Ian descontrolou-se e tentou soltar-se das mãos dos seguranças.
- Tu não mereces sequer o ar que respiras. – disse-lhe com desprezo. – Não mereces o chão que pisas nem o amor… nem complacência de ninguém. No meio desta história toda, quem mais sofre é ela porque vê-se na obrigação de defender alguém que nunca teve uma réstia de amor por ela. Nem por ninguém. – proferiu com escárnio.
John tentou-se largar dos seguranças mas também não conseguiu.
- Ian, acalma-te, por favor, vamos embora! – disse-lhe com as lágrimas nos olhos.
John voltou-se para mim e sorriu com desprezo.
- Vocês entendem-se muito bem, hem? Como é ele? Beija bem ou mal? Sabes isso melhor que ninguém, Blair. Se sair ao pai, é com certeza muito bom nessa matéria.
- Tu não fales assim! – bradou Ian, esforçando-se para conseguir desprender-se das garras dos seguranças.
- Não merece que lhe responda. – disse. – Se alguma vez tivesse amado a minha mãe, saberia o que era esse sentimento. Afinal o que foi para si? Mera diversão? Puro prazer nas noites de Inverno?
Ele voltou a olhar-me ameaçadoramente.
- A minha mãe sempre me disse que eu era como o meu pai. – continuei. – Mas agora apercebo-me do erro que ela nunca notou: na sua falta de carácter. Não passa de um homem “seco”. Sem pinta de sangue nas veias. Sabe sequer o que é sentir o sangue fluir nas veias quando vê a pessoa que ama? Sabe o que é sentir um formigueiro na barriga cada vez que vê quem ama? – questionei retoricamente. – Obviamente que não. A única pessoa que ama é você mesmo e esse formigueiro só acontece quando se vislumbra ao espelho.
Ele voltou-me a face, sem me responder. Os seguranças expulsaram-nos do hotel, empurrando Ian com violência. Amparei a sua queda. Ao fundo da rua, dezenas de jornalistas corriam e, do topo do edifício do Hotel alguns paparazzis tiravam-nos fotografias. Ian lançou impropérios a John, e numa aflição nunca antes vista, gritou agarrando-me a mão.
- Corre!
As suas pernas começaram a movimentar-se rapidamente e eu tive dificuldade em acompanhá-lo. Olhei para trás e vi que os jornalistas nos percorriam e que se encontravam paparazzis por todo o lado. Enveredámos por uma rua na esperança de encontrar algum sítio onde nos pudéssemos esconder. Felizmente a sorte parecia estar do nosso lado. Encontrámos um pequeno beiral com as portas escancaradas. Entrámos e escondemo-nos no local mais escuro. Eu ia começar a falar mas ele colocou o seu dedo indicador sobre os meus lábios, contornando-os depois.
Subitamente ouvimos os passos imperativos a embaterem contra o chão e a precipitarem-se para nos apanhar. Alguém se deteve à porta do beiral. Fechei os olhos e recostei-me no peito de Ian, que se precipitou para me abraçar. Passado algum tempo saiu a correr e clamou o nome de alguém, transmitindo que não estávamos ali. Respirei de alívio.
Ian estava encostado à parede rugosa e deixou-se cair lentamente, roçando as suas costas naquela parede. Quando estava já sentado no chão, olhou-me com morbidez e disse-me com um desânimo que me fazia querer abraçá-lo incessavelmente:
- Eu temia isto. Temia o desfecho desta relação. – Olhou para o lado. – Temia porque sabia que o que estávamos a fazer era completamente errado e insano!
Olhei para ele, incrédula. Sentei-me ao seu lado.
- Estás arrependido?
Ele olhou-me nos olhos e contornou com a polpa dos seus dedos a minha face.
- Eu temia a forma como isto iria acabar, Blair. Eu não queria que isto fosse assim. Não sonhava sequer que John se fosse intrometer tanto na nossa vida. Ele não costumava preocupar-se com ninguém.
- Não respondeste à minha questão! – disse, rispidamente.
- Arrependido?! Só de não te ter conhecido mais cedo. – pronunciou, lentamente. – Eu ter-me-ia apaixonado por ti mesmo que fossemos criados juntos, Blair. Eu iria apaixonar-me por ti de qualquer das formas. Não há volta a dar nesta questão. Estamos presos pelo destino e ele quer que sobrevivamos a isto.
Olhei-o comovida com as palavras que ele havia proferido. Fiquei a pensar no emprego da palavra destino. Nunca havia acreditado nisso. Sempre achei que fosse uma palavra com um significado religioso e filosófico.
Pousei a cabeça nas suas pernas. Os seus dedos percorriam a minha cabeleira castanho-clara.
- O que fazemos? – inquiri novamente fixando o tecto.
Os seus lábios pousaram nos meus uns breves segundos.
- Fugimos. – respondeu.
Olhei para ele.
- Para onde?
- Para a Rússia, para o Japão, China… Eu não sei, Blair! – disse agonizado. – Algum local onde não nos possam encontrar! Se for preciso arranjo quem nos altere o nome, nacionalidade… tudo o que precisarmos. – fez uma pausa e agarrou as minhas mãos firmemente. – A única coisa que eu quero é permanecer contigo. Contigo e com aqueles que podem vir.
Sorriu carinhosamente para mim. Retribuí-lhe o sorriso. Abruptamente ele puxou-me para si.
- Eu gostava de ter uma equipa de futebol. – disse, soltando um sorriso abafado.
- Estás maluco? Bem se vê que não és mulher! – vociferei.
- Eu ajudava-te a criá-los. Depois comprávamos uma casa bem grande, com um enorme terraço para os miúdos brincarem… e nós ficávamos a vê-los através da grande vidraça da sala…
- Sonhas muito alto, Ian. – disse, fechando os meus olhos tentando imaginar todo aquele cenário.
Ian não falou durante um momento e quando estava calado era porque estava a reflectir sobre algo.
- Blair… não há nenhuma possibilidade… - deteve-se. – Esquece, vamos embora.
Estranhei o conteúdo.
- Vá, Ian. Sabes que eu gosto que completes as frases.
- Tens-te sentido bem?
Olhei-o de soslaio.
- Sim, tenho. Por quê?
- Não tens sentido nada diferente em ti? Nem nas roupas… Nada de nada?
- Não. – respondi com cepticismo. – Mas por que me questionas isso? – insisti.
Ele ficou um bocado atrapalhado.
- Bem… eu tinha uma pequena esperança que estivesses grávida. – confessou. – Nós nunca usámos nada que evitasse uma gravidez.
Olhei-o e sorri.
- Podias ter perguntado logo isso! – disse-lhe. – Não me parece, Ian.
Ele olhou-me desiludido e, por momentos desejei estar grávida só para ver nele um sorriso verdadeiro.
Ele beijou-me sorrateiramente e, num murmúrio disse:
- Que pena…
Ele levantou-se e foi perscrutar se alguém estava a espiar-nos. Vendo que o caminho estava livre, desatámos a correr até casa que não ficava muito longe dali. Eram aproximadamente três da madrugada e a rua estava praticamente deserta. A leve brisa afastava-me os cabelos da face enquanto corria desesperadamente para o alcançar.
- Corre! – disse ele num tom de troça.
Felizmente já não faltava muito para chegar e, quando abri a porta que acessava ao hall de entrada principal o porteiro olhou-nos com cepticismo mas depois desviou o olhar, cumprimentando-nos. Quase todos os vizinhos se amontoavam ao decorrer do corrimão de madeira nos seus trajes de dormir e alguns deles, nomeadamente as mulheres exibiam trajes mínimos e não pareciam ter qualquer tipo de pudor perante os vizinhos.
Cabisbaixa, abri rapidamente a porta e fechei-a para não ouvir nenhum comentário. 




Já somos 150! Obrigada a todos por me seguirem e espero que venham muitos mais! 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O Jornalista - XIII

Senti uma estranha sensação de leveza, de tranquilidade. Parecia que nada se tinha abatido impiedosamente sobre mim. Sentia-me a levitar e, abruptamente caí nos braços da realidade.
A brisa soprava ligeiramente afastando o meu cabelo suavemente. Abri as pálpebras e senti um excesso de luminosidade a incidir-me sobre os olhos e algo a andar aos solavancos. Senti também que algo me impedia de levantar. Vi um braço que estava pousado sobre o meu ventre. Não liguei muito a esse facto. Esfreguei os olhos e perscrutei onde me encontrava. Deparei-me com um cenário quase desértico e demasiado solarengo. A antítese perfeita do local onde vivia. O ar era húmido e quente, dificultando-me a respiração. Olhei para baixo. Umas longas pernas esguias ultrapassavam o comprimento das minhas. Eu conhecia aquelas pernas com aquelas calças de ganga desbotadas e aquelas suas sapatilhas Gazelle. Recostei-me ainda mais a ele fechando os olhos, tentando adormecer novamente, viver na ilusão que eu própria tinha criado enquanto aquela carrinha velha, que rangia por todos os lados devido ao seu eminente estado de podridão, conduzia pela estrada de terra batida.  Porém, ele mexeu-se e envolveu-me ainda mais. Eu queria repeli-lo porque ele era... quem Oliver suspeitava ser mas havia algo em mim que me impossibilitava, que me tornava impotente de o deixar. Subitamente ele deixou com que  a sua face embatesse  contra a minha nuca. Posteriormente, respirou fundo e com uma voz rouca, típica dele ao acordar, questionou-me, como sempre:
- Estás acordada?
Fiz de conta que não o ouvi, não efectuando qualquer movimento denunciante da minha mentira.
- Estás. - concluiu.
Senti as suas mãos erguerem-me. Era impressionante a sua força. Tentei não olhar para ele porque sabia que ele tinha qualquer poder manipulador de me impedir de pensar racionalmente. Agarrou firmemente a face, obrigando a olhá-lo nos seus grandes e expressivos olhos.
- Precisamos de falar. - disse com os olhos esbugalhados. - Eu sou quem Oliver desconfiava, mas eu não sou má pessoa. Eu sou um homem que te ama, que te venera, que quer que fiques bem e... se for possível, que me ajude a deixar de ser que eu outrora era! Quero que continues a ser minha. - fez uma pausa. - Raios! - vociferou. - Achas que se eu não te amasse te teria trazido para um local onde possas estar em plena segurança? Achas que eu, alguma vez, teria dito o que te disse naquela noite? Achas que... Não. Ia mentir. - Largou o meu rosto. Eu estava disposta a ouvi-lo. - No inicio só queria tirar-te informações para me conseguir descartar de todas as penas possíveis que o estado americano me poderia aplicar. Mas tu... - fez uma pausa. Os seus olhos brilhavam intensamente e a sua boca formava um sorriso quando disse o meu nome. - Hazel... tu foste inexplicável. Algo que eu nunca consegui explicar! Eu não me apaixonei por ti logo. Eu amei-te depois de te conhecer profundamente. Amei-te, amo-te. Essa é a verdade, se é que modifica alguma coisa.
Olhei para ele com vontade de o abraçar, de o beijar e de lhe dizer o quanto o amava mas o meu lado racional não mo deixava fazer.
- Conta-me o que fazes exactamente. - pedi com fleuma.
Ele fechou os olhos e respirou fundo.
- Tudo começou quando eu tinha 25 anos. Acabei o curso, arranjei um emprego bom na área do Jornalismo e mandaram-me para o Cazaquistão. Não me disseram quando chegava nem onde ficava hospedado. Como era um estagiário, mandaram-me e eu não podia recusar. - suspirou. - Então, embarquei e fiz umas entrevistas, uns directos e numa dessas vezes vi-me emaranhado numa multidão que contestava à guerra. Subitamente começou a chover granadas e tiros trovejavam de todas as direcções. Eu não era o Super-Homem nem tinha quaisquer poderes vampirescos e muito menos blindado era. Procurei um abrigo, sendo, mesmo assim baleado no meu braço esquerdo. Esperei por ajuda mas ninguém me socorreu até que senti que alguém me tapava os olhos e imobilizava. Inicialmente pensei que os meus órgãos iam ser traficados ou algo do género, até que depois de pontapeado, golpeado nos braços e esmurrado fui levado para uma espécie de calabouço onde estive preso durante mais de três semanas. Um dia, desataram-me e destaparam-me a boca, levando-me a um homem que nunca mostrava a sua face, mas os seus capangas confiavam nele e respeitavam-no piamente. - Notei que um laivo de raiva enchia a sua boca ao expressar-se. - Ele disse-me que se eu quisesse sair vivo, teria de fazer um acordo com ele. Naquele momento eu só conseguia pensar na minha liberdade, não queria mais ser pontapeado nem golpeado nos braços só por diversão e para as moscas pousarem sobre o sangue derramado no pavimento rugoso. - suspirou. - Eu aceitei imediatamente. Sem porquês. Assinei um acordo com ele com sangue. Tinha de ser assim. - Levantou um pouco a manga da sua camisola castanha e mostrou-me uma grande cicatriz na região do pulso. - A partir daí deu-me lições sobre armas, as melhores armas passaram pelas minhas mãos, os melhores ataques, técnicas de defesa, aulas das mais diversas artes marciais... e este... sou eu. Vítima da própria rede que teci. Todos os crimes que cometi, todas as vidas que tirei foram a paga da minha liberdade. - Parou para pensar e pegou na minha mão. - E se eu não cumprir esta, ele sabe. Sabe que não sou só eu. Que não és só tu. Sabe que somos nós. - disse tocando suavemente no meu ventre. - Nós. - repetiu. - Não posso deixar que nada te aconteça, se não o que seria de mim? Morreria juntamente contigo e podia ser que os laços da eternidade nos juntassem de novo. Mas eu quero viver contigo, na Terra. Nem que seja mais uns dias. Mais umas horas, mas eu, finalmente, estou seguro daquilo que quero.
O meu lado mais sensível teve um peso superior ao meu lado racional. Lancei-me ao seu pescoço, num choro compulsivo.
- Podes ser quem és... ma-as conti-inuas a ser quem és pa-ara mim. - disse choramingando.
Ele sorriu e beijou-me. O homem que conduzia olhava-nos com cepticismo. Ignorei-o.
Ele agarrou a minha cabeça com um sorriso tímido.
- Se soubesses o medo que eu tinha em te perder! Em saber que nunca me irias perdoar mesmo sabendo toda a verdade por detrás desta mentira em que te fiz viver. 
Limpei as lágrimas com a ponta da camisola bege.
- Eu não iria conseguir viver longe de ti ao olhar para o "pequeno McCallen".
Ele sorriu. Baixou-se e sussurrou:
- Miúdo, não sigas o meu exemplo.
Sorri acariciando-lhe a face.
- Onde estamos? - inquiri.
- Texas. - respondeu envolvendo-me novamente nos seus braços fortes. - Chegaremos dentro de minutos ao local.
O sol começava a dispersar-se cada vez mais e percebi que já estava a anoitecer. Era lindo ver o pôr do sol encostada a ele. 
- Gostaste do rapto? - questionou.
- Se dúvida que foi obra de mestre. Não me importo de ser raptada por ti todos os dias.
Ele pegou nas malas e transportou-as para o interior do modesto hotel de estilo texano. Havia um pequeno balcão onde uma mulher balofa e com o cabelo preto atendia atenciosamente outros turistas. Levaram-nos as malas e a mulher deu-nos as chaves do quarto. Abri a porta e deparei-me com umas condições satisfatórias. As paredes estavam revestidas com um papel de parede em tons escuros e a cama encontrava-se no centro, ladeada de duas mesas de cabeceira com candeeiros. Havia uma casa-de-banho e uma pequena sala com dezenas de revistas cor-de-rosa do século passado. Atirei as minhas malas para cima da cama e preparei-me para arrumar as roupas até que ele chegou ao quarto e sentou-se na cama, deixando as suas costas alcançarem o colchão mole. Sentei-me para descansar um pouco. As minhas pernas estavam fracas. Os seus braços envolveram a minha cintura e puxaram-me contra ele. 
- Senti a tua falta nestas horas. Para mim, estares imóvel, indiferente... é como estares morta.