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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O Jornalista - XIV

O Sol penetrava pelas cortinas incidindo impiedosamente sobre os meus olhos. Espreguicei-me morosamente e procurei um pouco de conforto no tronco de Jared. Porém, apenas me deparei com a sua almofada. Levantei-me e vi que ele tinha saído, daí à janela estar aberta, bem como as cortinas. Olhei para a mesa de cabeceira que ladeava a cama e que se encontrava do meu lado esquerdo. Ele tinha deixado o seu telemóvel em casa. Raios! Como iria eu contactá-lo? Olhei mais atentamente e vi um pequeno envelope com o meu nome numa letra legível. Com os meus membros superiores a tremer alcancei o pequeno envelope e, com receio do seu conteúdo, abri-o lentamente. Ao fim de alguns segundos retirei o pequeno papel branco escrito a caneta de ponta fina preta e escrito claramente à pressa, onde li, com um certo laivo de preocupação 
"Hazel, segue claramente à risca tudo aquilo que te aqui vou enunciar. Se eu não voltar por volta da uma da tarde, abre o roupeiro e tira de lá um saco de desporto preto e outro azul. O azul é para meteres todas as tuas roupas, todos os teus pertences. Na bolsa mais pequena tem uma quantia avultada de dinheiro que te permite viver durante alguns meses fora da América. O saco preto é para queimares juntamente com o meu passaporte, com as minhas roupas, com tudo o que me pertença. Se eu não chegar à uma, embarca no avião mais rápido que te permita viajar até à Europa. - A sua caligrafia começou a tornar-se mais perfeita. - Eu espero que nada disto aconteça, mas se eventualmente eu não aparecer, quero que saibas que nunca houve nem há-de existir outro homem no mundo que te ame mais do que eu. Cuidem-se sem mim. Jared."
Olhei, desesperada para o relógio. Marcava onze da manhã. Apressei-me a abrir o roupeiro para ver o que eventualmente tinha de queimar. Abri o saco desportivo preto e deparei-me com uma quantidade indeterminada de armas. Fechei-a quase de imediato para afastar aquele mau presságio. Abri a mala azul e vi roupas e verifiquei o dinheiro. Era, sem dúvida, uma quantia que me permitia viver durante uns largos anos na Europa mas eu preferia viver sem o dinheiro a abdicar da companhia de Jared. Fechei com demasiada força a porta do roupeiro e decidi ir apanhar um pouco de ar. Vesti um vestido e peguei num casaco, saindo a uma grande velocidade do quarto, passando pela pequena recepção como uma flecha. Aspirei o ar quente e húmido, pouco típico do mês de Outubro em Helena, mas pelos vistos usual no Texas. Senti a minha garganta a secar inexoravelmente. A escassa brisa fazia com que a escassa vegetação aérea adejasse ao seu sabor. Envolvi os meus braços sobre o meu ventre cada vez maior e sentei-me na berma do passeio a reflectir no Inferno em que a minha vida se poderia vir a tornar. Jared, se Oliver descobrisse que ele era o "Fantasma" e considerando o ódio dele, iria preso. E o que seria de nós sem ele? Sim, agora nós. Eu tinha-me apegado demasiado a Jared e não me arrependia disso. Mas... Jackson iria ser discriminado por todos por ser filho de um assassino mesmo ele o sendo porque é obrigado... embora isso não seja justificação. 
Os carros passavam levantando poeira na estrada de terra batida mas eu não queria saber se ficava cheia de poeira ou não. Eu esperava ver Jared a aproximar-se inexoravelmente com aquela sua face oval, irresistível com aquele seu olhar matreiro e brincalhão, com o seu cabelo a ser projectado pela brisa. Era isso que eu esperava ver. Contei cada segundo, cada minuto, cada hora... até que Paola, a funcionária balofa da recepção, me trouxe algo para comer. Agradeci-lhe, devorando quase de imediato. Encolhi-me toda, colocando-me na posição fetal e encostei a minha cabeça aos meus joelhos com os olhos a verterem lágrimas em catadupa. Encostei-me à coluna de pedra e devo ter acabado por adormecer. 
"- Oliver? - questionei enquanto afastava uma cortina. 
- Estou aqui. - disse.
Continuei a caminhar sobre aquela penumbra e, abruptamente fez-se luz. A luz era tão intensa que me queimava os olhos. Olhei para o solo e vi que caminhava sobre uma espécie de banco sueco só que com dezenas de metros.
- Hazel? És tu? - questionou outra voz que era proveniente de Jared.
Fiquei assustada porque existiam dois caminhos. Um que me conduzia a Oliver e outro que me conduzia a Jared. Óbvio que segui o caminho que acessava a Jared até que esse caminho cedeu por completo, deixando-me a meio."
- Hazel? - Senti uma mão a dar-me uma palmada leve no braço.
Olhei para cima.
- Jared? - questionei, incrédula. Esfreguei os olhos. - Jared! - disse com entusiasmo lançando-me ao seu pescoço.
- Vamos para dentro. Preciso de desabafar contigo.
Ele levou-me a reboque para o interior. Paola olhava-nos com um misticismo inexplicável nos seus olhos.
Entramos e os seus braços envolveram a minha cintura empurrando-me para ele. A sua boca movia-se ao mesmo tempo que a minha e as suas mãos escorregavam pelo meu corpo. Inesperadamente, parou. Sentei-me na cama e ele tirou o seu casaco, atirando-o para cima da cadeira. 
- Desculpa mas sentia a tua falta e não me consegui controlar. - disse sentando-se também ao meu lado.
- Não precisas de pedir desculpa. - disse.
- Como tens andado? - questionou agarrando a minha mão. - Desculpa aquela carta mas eu não tinha a certeza se saía vivo.
- Não ouses sequer dizer mais essa frase! - vociferei. - Temos estado bem de saúde, tirando a parte em que resolves fazer um últimato. Não sabes sequer o que eu pensei!
Ele sorriu e depois suspirou. Colocou a sua mão no meu ventre.
- Daqui a uns meses nasce e eu estarei preso, se não estiver morto. - disse, sorrindo no final.
- Jared, por favor, não repitas essa palavra contundente. - Mudei de assunto. - O que foste fazer? Hum...
Ele olhou-me de soslaio. Não estava muito bem humorado.
- Não, não matei ninguém, se é o que queres saber. - respondeu com tibieza. 
- Foste tu que escreveste aquilo no escritório, não foste? - abordei-o.
Ele sentou-se na cama e encolheu-se todo, adoptando também uma posição fetal. 
- Sim, fui eu que escrevi. - respondeu.
Com receio, questionei.
- E... quem é o próximo?
Ele endireitou-se desajeitadamente e com raiva respondeu-me:
- Por que achas que eu podia não sair vivo? Aliás, a esta hora eu devia estar enterrado algures no Texas. Só estou aqui, vivo, porque consegui escapar das garras daquele demónio! - exaltou-se. - Queres mesmo saber quem é a vítima que me está a fazer correr riscos, que está a contribuir para que eu contribua para a minha destruição? Então aqui vai a resposta que tanto anseias: - fez uma grande pausa, atirando-me aquele nome como se fosse um tiro. - Oliver Robbins. Esse sujeito que me despreza profundamente, está a dar cabo da nossa vida. Eu não o quero matar, aliás... eu nunca quis matar ninguém, nem razões tenho. Aparentemente "Deus" é que tem razões. - fez uma pausa, amansando. - Eu andei a averiguar as razões pela qual Oliver está na lista negra e descobri algumas coisas mas não te vou dizer. Não quero mais desilusões na tua vida. 
- Jared... - murmurei. - Eu quero saber as coisas agora. Se ele te julga e faz algo similar, acho que está a ser injusto.
Ele suspirou e abraçou-me.
- Ele tem a mania de fazer investigações por conta própria. E uma das vítimas da sua investigação, para além de mim foi "Deus". Eu não vou sujar as minhas mãos com o sangue daquele... - pensou um pouco. - Oliver. Eu vou fazer de tudo para tentar desviar o alvo dele... - Segurou-me nos ombros com carinho. - E se quiseres saber o paradeiro dele, eu posso dizer-te com toda a segurança que ele se encontra a escassos metros de nós, a espiar-me constantemente e com vontade de te abraçar cada vez que te vê a vaguear sozinha pelos corredores e levar-te para o seu quarto. 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O Jornalista - XIII

Senti uma estranha sensação de leveza, de tranquilidade. Parecia que nada se tinha abatido impiedosamente sobre mim. Sentia-me a levitar e, abruptamente caí nos braços da realidade.
A brisa soprava ligeiramente afastando o meu cabelo suavemente. Abri as pálpebras e senti um excesso de luminosidade a incidir-me sobre os olhos e algo a andar aos solavancos. Senti também que algo me impedia de levantar. Vi um braço que estava pousado sobre o meu ventre. Não liguei muito a esse facto. Esfreguei os olhos e perscrutei onde me encontrava. Deparei-me com um cenário quase desértico e demasiado solarengo. A antítese perfeita do local onde vivia. O ar era húmido e quente, dificultando-me a respiração. Olhei para baixo. Umas longas pernas esguias ultrapassavam o comprimento das minhas. Eu conhecia aquelas pernas com aquelas calças de ganga desbotadas e aquelas suas sapatilhas Gazelle. Recostei-me ainda mais a ele fechando os olhos, tentando adormecer novamente, viver na ilusão que eu própria tinha criado enquanto aquela carrinha velha, que rangia por todos os lados devido ao seu eminente estado de podridão, conduzia pela estrada de terra batida.  Porém, ele mexeu-se e envolveu-me ainda mais. Eu queria repeli-lo porque ele era... quem Oliver suspeitava ser mas havia algo em mim que me impossibilitava, que me tornava impotente de o deixar. Subitamente ele deixou com que  a sua face embatesse  contra a minha nuca. Posteriormente, respirou fundo e com uma voz rouca, típica dele ao acordar, questionou-me, como sempre:
- Estás acordada?
Fiz de conta que não o ouvi, não efectuando qualquer movimento denunciante da minha mentira.
- Estás. - concluiu.
Senti as suas mãos erguerem-me. Era impressionante a sua força. Tentei não olhar para ele porque sabia que ele tinha qualquer poder manipulador de me impedir de pensar racionalmente. Agarrou firmemente a face, obrigando a olhá-lo nos seus grandes e expressivos olhos.
- Precisamos de falar. - disse com os olhos esbugalhados. - Eu sou quem Oliver desconfiava, mas eu não sou má pessoa. Eu sou um homem que te ama, que te venera, que quer que fiques bem e... se for possível, que me ajude a deixar de ser que eu outrora era! Quero que continues a ser minha. - fez uma pausa. - Raios! - vociferou. - Achas que se eu não te amasse te teria trazido para um local onde possas estar em plena segurança? Achas que eu, alguma vez, teria dito o que te disse naquela noite? Achas que... Não. Ia mentir. - Largou o meu rosto. Eu estava disposta a ouvi-lo. - No inicio só queria tirar-te informações para me conseguir descartar de todas as penas possíveis que o estado americano me poderia aplicar. Mas tu... - fez uma pausa. Os seus olhos brilhavam intensamente e a sua boca formava um sorriso quando disse o meu nome. - Hazel... tu foste inexplicável. Algo que eu nunca consegui explicar! Eu não me apaixonei por ti logo. Eu amei-te depois de te conhecer profundamente. Amei-te, amo-te. Essa é a verdade, se é que modifica alguma coisa.
Olhei para ele com vontade de o abraçar, de o beijar e de lhe dizer o quanto o amava mas o meu lado racional não mo deixava fazer.
- Conta-me o que fazes exactamente. - pedi com fleuma.
Ele fechou os olhos e respirou fundo.
- Tudo começou quando eu tinha 25 anos. Acabei o curso, arranjei um emprego bom na área do Jornalismo e mandaram-me para o Cazaquistão. Não me disseram quando chegava nem onde ficava hospedado. Como era um estagiário, mandaram-me e eu não podia recusar. - suspirou. - Então, embarquei e fiz umas entrevistas, uns directos e numa dessas vezes vi-me emaranhado numa multidão que contestava à guerra. Subitamente começou a chover granadas e tiros trovejavam de todas as direcções. Eu não era o Super-Homem nem tinha quaisquer poderes vampirescos e muito menos blindado era. Procurei um abrigo, sendo, mesmo assim baleado no meu braço esquerdo. Esperei por ajuda mas ninguém me socorreu até que senti que alguém me tapava os olhos e imobilizava. Inicialmente pensei que os meus órgãos iam ser traficados ou algo do género, até que depois de pontapeado, golpeado nos braços e esmurrado fui levado para uma espécie de calabouço onde estive preso durante mais de três semanas. Um dia, desataram-me e destaparam-me a boca, levando-me a um homem que nunca mostrava a sua face, mas os seus capangas confiavam nele e respeitavam-no piamente. - Notei que um laivo de raiva enchia a sua boca ao expressar-se. - Ele disse-me que se eu quisesse sair vivo, teria de fazer um acordo com ele. Naquele momento eu só conseguia pensar na minha liberdade, não queria mais ser pontapeado nem golpeado nos braços só por diversão e para as moscas pousarem sobre o sangue derramado no pavimento rugoso. - suspirou. - Eu aceitei imediatamente. Sem porquês. Assinei um acordo com ele com sangue. Tinha de ser assim. - Levantou um pouco a manga da sua camisola castanha e mostrou-me uma grande cicatriz na região do pulso. - A partir daí deu-me lições sobre armas, as melhores armas passaram pelas minhas mãos, os melhores ataques, técnicas de defesa, aulas das mais diversas artes marciais... e este... sou eu. Vítima da própria rede que teci. Todos os crimes que cometi, todas as vidas que tirei foram a paga da minha liberdade. - Parou para pensar e pegou na minha mão. - E se eu não cumprir esta, ele sabe. Sabe que não sou só eu. Que não és só tu. Sabe que somos nós. - disse tocando suavemente no meu ventre. - Nós. - repetiu. - Não posso deixar que nada te aconteça, se não o que seria de mim? Morreria juntamente contigo e podia ser que os laços da eternidade nos juntassem de novo. Mas eu quero viver contigo, na Terra. Nem que seja mais uns dias. Mais umas horas, mas eu, finalmente, estou seguro daquilo que quero.
O meu lado mais sensível teve um peso superior ao meu lado racional. Lancei-me ao seu pescoço, num choro compulsivo.
- Podes ser quem és... ma-as conti-inuas a ser quem és pa-ara mim. - disse choramingando.
Ele sorriu e beijou-me. O homem que conduzia olhava-nos com cepticismo. Ignorei-o.
Ele agarrou a minha cabeça com um sorriso tímido.
- Se soubesses o medo que eu tinha em te perder! Em saber que nunca me irias perdoar mesmo sabendo toda a verdade por detrás desta mentira em que te fiz viver. 
Limpei as lágrimas com a ponta da camisola bege.
- Eu não iria conseguir viver longe de ti ao olhar para o "pequeno McCallen".
Ele sorriu. Baixou-se e sussurrou:
- Miúdo, não sigas o meu exemplo.
Sorri acariciando-lhe a face.
- Onde estamos? - inquiri.
- Texas. - respondeu envolvendo-me novamente nos seus braços fortes. - Chegaremos dentro de minutos ao local.
O sol começava a dispersar-se cada vez mais e percebi que já estava a anoitecer. Era lindo ver o pôr do sol encostada a ele. 
- Gostaste do rapto? - questionou.
- Se dúvida que foi obra de mestre. Não me importo de ser raptada por ti todos os dias.
Ele pegou nas malas e transportou-as para o interior do modesto hotel de estilo texano. Havia um pequeno balcão onde uma mulher balofa e com o cabelo preto atendia atenciosamente outros turistas. Levaram-nos as malas e a mulher deu-nos as chaves do quarto. Abri a porta e deparei-me com umas condições satisfatórias. As paredes estavam revestidas com um papel de parede em tons escuros e a cama encontrava-se no centro, ladeada de duas mesas de cabeceira com candeeiros. Havia uma casa-de-banho e uma pequena sala com dezenas de revistas cor-de-rosa do século passado. Atirei as minhas malas para cima da cama e preparei-me para arrumar as roupas até que ele chegou ao quarto e sentou-se na cama, deixando as suas costas alcançarem o colchão mole. Sentei-me para descansar um pouco. As minhas pernas estavam fracas. Os seus braços envolveram a minha cintura e puxaram-me contra ele. 
- Senti a tua falta nestas horas. Para mim, estares imóvel, indiferente... é como estares morta.