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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O Código dos Assassinos

A pedido de várias famílias decidi reeditar "O Código dos Assassinos". Queria agradecer à Ana Brás por me ter dito para continuá-la! Obrigada! :D Apenas uma parte vai ser modificada. 


(Pode ferir pessoas mais sensíveis)
A primeira vez que a vi fiquei estupefacto com a sua rebeldia apesar de ter vinte e cinco anos. Se a ouvisse a falar com alguém e não lhe vislumbrasse a face, diria que ela tinha cerca de dezasseis anos.
 Talvez fosse a primeira vez que ela tinha um emprego a sério. Deambulava sobre os seus sapatos com um salto vertiginoso, carregando uma mala com cerca de cinco capas cheias de papéis. O cabelo estava preso mas desalinhado por causa do forte vendaval típico do mês de Outubro. Envergava uma saia preta daquelas que a minha mãe costumava usar num julgamento, um casaco cintado da mesma tonalidade que a saia e uma camisa, mal abotoada, branca. Parecia que estava a usar sapatos de salto alto pela primeira vez. Dava dois passos e agarrava-se firmemente a algo e retomava a sua marcha lenta para a sua recente secretária. 
Eu não conseguia conter o riso. Era engraçado imaginar como é que aquela rapariga ainda não tinha caído com aqueles sapatos! Porém, ela apercebeu-se que eu a troçava. Lançou um olhar fulminante e os seus lábios contorceram-se, exclamando " Páre de zombar de mim!". Ora, eu nunca tinha sido muito sério mas, inconscientemente soltei outro sorriso. Ela continuou a deambular transportando as capas e tropeçando nos seus próprios pés.
- Precisa de ajuda? - questionei, rindo-me ainda dela.
- Não. - respondeu. - E escusa de dar um passo em frente para fingir que me ajuda porque eu não tolero que gozem comigo! - vociferou com ira.
- Você é que sabe.
Sentei-me na minha secretária e comecei a ler os casos que tinha para resolver. Um assassinato, um aparente suicídio, umas quantas violações e outros tantos assaltos a estabelecimentos comerciais e de ensino. Aquela semana ia ser desgastante mas o Chefe Lloyd tinha contratado alguém  para me ajudar com os casos, mas há mais de dois meses que esperava a vinda de uma mente brilhante. 
Abstraí-me do som proveniente dos queixosos e dos meus colegas de trabalho e foquei-me nos casos, estabelecendo um fio condutor para o caso do assassinato de Sean Toro. Haviam impressões digitais de várias pessoas, fios de cabelo e saliva no corpo da vítima. Faltavam pedaços de carne no corpo de Sean e foi encontrado no meio de uma mata a cerca de cinquenta quilómetros de sua casa. "Talvez os lobos o tivessem amordaçado", pensei. Arrumei o caso para o lado. Os resultados ainda não tinham chegado dos "ratinhos de laboratório", como costumava chamar aos membros do laboratório local.
Subitamente alguém pegou no caso que eu revira. Olhei para cima pronto a repreender o atrevimento. Era aquela rapariga insuportável.
- Ei! Esse caso é meu e, além do mais está na minha secretária! - vociferei.
- Desculpe?! Este caso é meu e esta é a minha secretária! - disse ela com a sua voz de espanta-espíritos. - Para além disso, essa cadeira é minha. - Apontou para a cadeira onde eu estava sentado.
Levantei-me freneticamente e olhei-a nos olhos. Ela não se moveu nem um milímetro. 
- Quem lhe disse?
- O Chefe Lloyd. - respondeu com calma com o objectivo de me irritar.
Bufei.
- Lloyd? - bradei. Ele dirigiu-se a mim. - O que é que esta intrusa está aqui a fazer? Está a dizer que o caso de Sean Toro é dela e que a minha secretária também! Por favor, diz-me que ela está só a pregar-me uma partida! Eu trabalho nesta secretária há quase seis anos! É como se fosse da família! 
- Bem, já que falas nisso, a menina Camille vai dividir a secretária consigo e vão dividir os casos. - anunciou o Chefe.
- O quê?! - inquirimos em uníssono. 
- Vá, vão trabalhar. É para isso que vos pago!
Ela puxou a minha cadeira e sentou-se começando a folhear o caso de Sean.
- Essa cadeira... - acabei por desistir e fui buscar outra para mim.
Quando cheguei ela estava a anotar as hipóteses. Dei uma vista de olhos.
- Páre de inspeccionar tudo aquilo que faço. Não gosto que façam isso. - disse ela enquanto escrevia outra hipótese.
- Já lhe disseram que é insuportável? - questionei enquanto me sentava e afastava o máximo possível dela.
- Já lhe disseram que é insuportável? - inquiriu ela também parando de escrever e olhando-me nos olhos.
Eu não conseguia olhá-la nos olhos. Tinha a tendência de desviar o olhar. Durante vários meses nunca soube a cor dos seus olhos. 
- Eu não gosto nada de si. - continuou ela. - Vai ser um suplício trabalhar consigo. Espero que me mudem o mais rápido possível. Odeio pessoas como você que pensam que são vitais e que têm poder. 
Calei-me e enterrei os meus olhos no computador. Durante vários dias não me apercebi da sua presença. Ela almoçava sozinha, não comunicava com ninguém e continuava a deambular com saltos altos. Ao fim de umas semanas de trabalho, e pela primeira vez, ela pediu-me opinião.
- Li e reli o caso de Sean centenas de vezes. Cheguei a várias conclusões. Fiz horas extra e descobri coisas que nos podem ajudar. Está disposta a ouvir em vez de disparatar e zombar das minhas conclusões?
- Vamos a isso.
Ela deu-me cinco folhas escritas com a sua letra delicada e comecei a lê-las cuidadosamente. Talvez ela tivesse razão quanto a alguns factos: o facto de ele não ter família pode ter a ver com o facto de ninguém o procurar; a saliva não era de nenhum animal. Segundo o laboratório era de humanos, quatro. Nas fotografias, com ampliação, era possível ver um dente incisivo cravado na pele de Sean. Todas as pistas levavam ao canibalismo. Faltava descobrir quem praticava esse tipo de "ementa".
- E então?
- Então, vamos falar com Lloyd.
Ela segui-me religiosamente.
Comunicamos tudo a Lloyd e ainda outro pormenor que chegou mesmo a tempo. Foram descobertos alguns fungos que eram típicos da Península Olímpica que ficava a cerca de cem quilómetros da localidade. Tivemos de nos deslocar de avião até à Península Olímpica. Teria de viajar com a impertinente Camille. 
- Quer a vá buscar a casa? - questionei tentando ser simpático.
- Não, obrigada. Sei conduzir muito bem. - respondeu com arrogância.
Mal cheguei a casa, preparei as malas e pela última vez olhei para aquela foto que me atormentava há anos. Pousei-a novamente e deitei-me na cama, aproveitando para descansar. Acordei no dia seguinte com o despertador. Tinha tido um sonho muito atribulado, cheio de mortes e desespero por minha parte e de Camille. Questionei-me porque raio tinha sonhado com ela. 
Conduzi o carro até ao aeroporto e fui fazer o check-in. Lá ao longe, destacando-se de toda a multidão por causa da ira estampada na sua face, encontrava-se Camille. Dirigi-me até ela, e vi que ela estava mais baixa que o costume. Fixei-a novamente e vi que a roupa formal que ela habitualmente usava era uma verdadeira fachada. Envergava, naquele dia, um casaco desportivo escuro com calças de ganga igualmente escuras. Calcava sapatilhas, o que me levou a raciocinar sobre o facto de não saber andar sobre tacões. Tinha também mudado de penteado mantendo o comprimento que tinha. Pela primeira vez reparei na cor dos seus olhos - eram azuis. Combinavam lindamente com a sua camisola e contrastavam com o seu cabelo castanho e brilhante. Pela primeira vez apercebi-me que ela falava comigo com sete pedras na mão por alguma razão. Tal como eu... Pela primeira vez apercebi-me que nunca lhe tinha dito o meu nome.
- Está aí? - inquiriu ela com um estranho leve sorriso.
- Sim, sim. Não me trate por "você". - disse meio aturdido.
- Então, como o devo chamar?
- Alec. Alec Williams. - respondi ainda um pouco perdido.
Ela assentiu com a cabeça.
- Estás muito estranho. Ainda não me trataste mal hoje. - observou ela enquanto caminhávamos em direcção ao avião.
- Tu também. Até me recebeste com um sorriso.
Ela soltou um sorriso abafado.
Camille passou a viagem a ouvir música e a ler romances. De vez em quando os olhos dela brilhavam, como que se fosse chorar. 
Eu, porém, olhava fixamente através da janela vislumbrando as nuvens e pensei na promessa que jamais cumprira. " Irei cruzar as nuvens. E tu estarás lá para ver."
Subitamente o telemóvel de Camille começou a tocar. Ela atendeu-o e subitamente a sua aparente boa disposição desvaneceu-se.
- O que se passa? - inquiri.
Ela não falou. Moveu os seus lábios e eu percebi algo como "Ameaça".
Lembrei-me do meu sonho mas tentei apagá-lo. 
Passamos várias semanas na Península Olímpica. Para mim, que era um amador nato de Sol, era um verdadeiro sacrifício permanecer num local onde chovia de forma copiosa. Cam não se parecia importar. Na verdade, eu e ela, tínhamos ganho mais confiança e ela já não me parecia tão imatura nem rebelde. Por sua vez, ela mostrava-se também mais simpática mas a sua bipolaridade mantinha-se. Descobri que tínhamos imensas coisas em comum. Fãs dos Yankees, fãs de U2 e amantes incondicionais de policiais e romances. Cam não falava muito sobre si. Falava apenas que tinha nascido no Texas e que se mudou para Oregon com seis anos com a sua mãe e a sua irmã mais velha. Entretanto, a mãe e a irmã morreram num acidente de viação no ano passado. Sobre o pai, nunca mais soube nada sobre ele. Falava muito da sua infância e da irmã que parecia ser o seu ídolo. 
Um dia convidei-a para jantar e ela aceitou com a condição de pagar a conta. Assim o fiz. Quando ela retirou a carteira da sua mala, abriu-a e o porta-fotos ficou voltado para mim. Apenas haviam quatro fotografias. A dela, a da mãe, a da irmã e uma outra de um homem com mais de trinta anos que estava fardado e com uma postura rígida mas engraçada. Ela viu que eu estava a olhar e fechou logo a carteira. Dirigimo-nos até ao hotel onde estávamos hospedados e cada um de nós dirigiu-se para o seu quarto.
Já passavam das duas da madrugada quando o meu telemóvel começou a tocar. Procurei-o e atendi-o.
- Estou?
- Podes vir até às escadas? Preciso de falar contigo.
- Estou a caminho.
Busquei um casaco e vesti-o desajeitadamente, calçando depois uns ténis à pressa. Ela estava sentada no cimo das escadas. Sentei-me também.
- Eu não faço ideia porque razão te vou contar isto. Não sei porque é que me fazes ficar bem-disposta quando eu devia mergulhar na melancolia. - fez uma pausa enquanto fumava um cigarro. Expulsou o fumo. - Eu vi-te a olhar para a foto. Eu... não queria ser investigadora, até à data. Nunca fui do género de ficar no mesmo local à espera que algo viesse ter comigo. Eu ia ter ao cerne do problema. Eu sempre fui ligada mais à força e não ao sentimentalismo. Eu nunca havia calçado saltos altos!... - sorriu levemente. - Eu queria ser militar. Queria entrar numa Guerra e defrontar o inimigo. Mas... há sempre um mas na minha história. Mas eu conheci-o. Meu Deus! Ele era tão lindo que eu ficava demasiado nervosa para falar com ele. Além disso, ele era mais velho que eu. E um dia o meu desejo concretizou-se e fui parar ao meio da guerra. Quando lá cheguei, vi que aquele não era o meu mundo. Apesar de eu achar que tinha um espírito forte e insensível, apercebi-me que eram demasiadas mortes e demasiado sangue para mim. Morrer pela Pátria era uma coisa que eu sempre tinha sonhado, mas naquele momento achei que fosse ridículo! - fumou mais um cigarro, atirando o anterior para um vaso que estava ao seu lado. - Eu devia ser feliz, correr as ruas de Nova Iorque com dezenas de sacas nas mãos, com um par de amigas a fazer-me companhia! - fez uma pausa e olhou-me. - Sempre foi difícil ser eu. Sempre achei que se podia nascer eu ou então... algo muito vulgar... E no meio da guerra apetecia-me ser vulgar! Eu não sabia para onde me movimentar, eu não sabia para onde ir. Tentei esconder-me em algum local mas não havia onde. Eis que então alguém me acerta no braço. Jacob apercebeu-se e viu que se não fizesse nada, eu iria levar outro tiro e morrer. Então, ele colocou-se à minha frente no preciso instante em que alguém ia atirar sobre mim. Um tiro acertou-lhe em cheio no peito. E a seguir outro e mais outro. E nós íamos fugir após o primeiro confronto. Como referi, íamos mas ele morreu. - fez uma pausa. Olhei-a mas ela não brotava lágrimas. - A partir daí desisti de tudo. As poucas amizades romperam-se e dei um novo sentido à minha vida. Não sou a Cam divertida, com um óptimo sentido de humor, com um sorriso na face dia após dia. Sou a Cam melancólica, irónica, bipolar e irritante para além do insuportável. 
Sorri com o "insuportável".
- Eu não imaginava. Lamento, não quis ofender-te de forma alguma. Nunca pensei que tivesses enveredado por um caminho enredado. 
- Desculpa se fui desagradável. Eu sei que fui.
Fizemos silêncio.
- Eu... - comecei. - também tive uma história do género. - Retirei a fotografia de Zoe que tinha sempre comigo e mostrei-lha. Ela tocou com os seus dedos de criança na foto.
- Era muito bonita. - comentou ela, docilmente.
Ela era bonita. Completamente o oposto de Cam. Os seus cabelos eram loiros e compridos, encaracolados. Tinha uns olhos verdes e uma face angelical. Cam tinha uma beleza exótica. Morena, cabelos compridos e castanhos. Parecia uma fera.
- Ela fazia parte do Departamento de Justiça. Era justa. Demasiado justa para ocupar o seu cargo. Recebeu chamadas anónimas durante imenso tempo, ameaçando-a de morte. Ela aparentava não ter medo. Estava habituada àquele tipo de situações. Um dia, quando cheguei a casa estranhei a sua ausência. Tinha preparado uma presente surpresa para ela e ia buscá-la para irmos para o aeroporto, cujo presente era uma viagem de avioneta pelos céus da Europa. Eu sentia que algo não estava bem. Abri a porta da garagem e vi umas pernas balouçarem de um lado para o outro. Corri ao seu encontro. Uma corda apertava o seu frágil pescoço. Ela tinha-se enforcado. - fiz uma enorme pausa. - Ela não se enforcou. Alguém a enforcou. Alguém quebrou o seu pescoço e depois enforcou-a para que não desconfiássemos de ninguém. Para pensarmos que ela tinha-se enforcado. Por cima do capot do seu carro, estavam as suas chaves sobrepostas de um envelope. Ainda assustado abri o envelope e retirei um teste de gravidez. Positivo. Nunca descobrimos o assassino.
- Há coisas que por muito que tentemos escrutinar não descobrimos, não é?
Estranhei o seu discurso mas respondi afirmativamente. 
- Acreditas no destino? - inquiri-lhe.
Ela sorriu, expulsando o fumo.
- Não. Acredito simplesmente que há coisas que vêm por bem. E acredito que a vida pode ser útil... quando lhe damos o devido uso.
Novamente estranhei o seu discurso. Estava demasiado sorridente e em paz que me fazia questionar o que raio estaria ela a tramar.
Ela levantou-se e tirou do seu roupão um envelope. 
- Abre-o depois de saíres do meu quarto amanhã de manhã.
- Porquê?
- Depois vês. Mas promete-me que não vais falar disto a ninguém. 
- Prometo. - disse, pegando no envelope branco com cuidado.
Ela caminhou lentamente até à porta do seu quarto.
- Espera! - bradei. - Eu gosto demasiado de ti.
Ela sorriu.
- Eu também, mas não quero outro sofrimento. Não quero que seja de pouca dura. Não te esqueças do que te pedi. O que é prometido é devido e eu vou ver se realmente o conseguiste cumprir.
Ela entrou no quarto. 
Durante a noite fui assolado de pesadelos e julguei ter ouvido a janela a partir. Talvez fosse dos sonhos.
Acordei cedo para a investigação. Tomei um duche e vesti-me, esperando depois pacientemente por Camille.  
Ela nunca mais abria a porta. Bati à porta, chamei-a mas ela não respondia. Resolvi arrombar a porta. Com toda a força que tinha embati contra esta e fiz com que ela caísse. Olhei em meu redor e vi que Camille não estava no quarto. Saquei do coldre a minha arma. Entrei na casa de banho e vi-a pendurada com uma corda a rodear-lhe o pescoço, tal como a Zoe. Não consegui conter as lágrimas. Recostei-me na parede branca imaculada e abri o envelope. 
" Alec,
Às vezes quem menos esperamos, trai-nos. Outras vezes quem menos esperamos, ama-nos. Talvez por saber o que me ia acontecer, contei-te a minha vida. Mas, agora não tens tempo. Foge! Corre! Começa a correr por entre os montes e os bosques! Eu sei quem matou Zoe. O seu caso passou também pelas minhas mãos. Eu investiguei e sabia que mais cedo ou mais tarde isto me ia acontecer. Há coisas que vêm por bem, e acredito que eu, finalmente, consegui fazer algo de bem na minha vida. Agora, resta-te a ti fazer o que te compete. Talvez o teu coração te diga o que fazer. Talvez ele te dê pistas que tu estás sempre a seguir. 
Há um código. Código esse que te ajudará bastante. Saberás onde introduzi-lo: 53b45714n LL0y9 
Desejo-te boa sorte e peço desculpa por ter sido quem fui para ti. Devia ter sido mais simpática desde o início. Merecias que eu fosse mais simpática. Para que saibas, estou a chorar. Não sou tão insensível como pensas. 
Espero que não me encontres deste lado tão cedo. Quando te disse que não acreditava no destino... estava a mentir.
Cam"
Talvez pela primeira vez na minha vida eu tinha a certeza daquilo em que me iria tornar. Olhei mais uma vez para Cam. Não chamei a polícia. Cortei a corda que amarrava o seu pescoço alto e fino. As marcas da corda estavam gravadas no seu pescoço. Dava para perceber que ela tinha tentado sobreviver, porque as suas unhas estavam partidas e ensanguentadas. 
Abri a sua mala e retirei a roupa mais apresentável que ela trazia. Vesti-lha com as lágrimas nos olhos. Era estranho estar a vestir uma colega de trabalho morta só por querer que a verdade fosse descoberta. Envolvia-a nas suas toalhas de algodão brancas e arranjei um grande saco preto, metendo-a lá dentro. Dirigi-me à janela. Estávamos no meio do nada e o parque de estacionamento estava deserto. Olhei para o relógio e algo me disse para agarrar nela e sair dali. Peguei no saco às costas e dei balanço, saindo projectado pela janela. Dei umas quantas piruetas no ar com o cadáver de Camille, embora ele tivesse ido parar mais à frente. Carreguei-o novamente e comecei a correr em direcção à floresta. Foi para lá que ela me mandou. Eu começava a ficar ofegante. Carregar um corpo morto a correr era fatigante. Abruptamente, vi uma pequena cabana ladeada de um pequeno lago. Corri com mais velocidade. Subi as pequenas escadas de madeira que rangiam e tentei encontrar a chave. Não a encontrei, pelo que tive de partir a janela mais próxima da porta. Com cuidado, encostei o cadáver de Camille à parede. Procurei algo com que pudesse escavar. Encontrei uma pá numa das arrecadações. 
Não era um funeral digno dela. Mas eu não podia contratar ninguém para lhe fazer um funeral normal e muito menos pagá-lo porque eu iria ser o suspeito número um. 
Cavei um buraco bem fundo e depositei o seu corpo. Improvisei algumas flores e até uma oração. E eu que nunca na vida tinha rezado... Depois daquele funeral, inspeccionei a cabana e tentei focar-me em todas as instruções que ela me deu. 
Havia um código que eu tinha de introduzir para ter acesso a algo. Vi debaixo de todos os tapetes, de todos os quadros pendurados e debaixo dos móveis mas não consegui encontrar nada.
A noite já ia alta e eu ainda não tinha encontrado nada. Subitamente calquei uma ripa de madeira que emitiu um som diferente. Voltei a calcá-la. Baixei-me e bati com as nós dos dedos. Com as unhas retirei a ripa de madeira solta. Atrás dessa, retirei outra e mais outra e mais outra. Com uma lanterna vi o que estava lá em baixo. Uma escada de alumínio dava acesso a outro piso da casa. Desci-as e acendi a luz. O chão não rangia. A cabana não passava apenas de uma distracção. As paredes estavam rodeadas de estantes cheias de documentos. No centro existia uma mesa, uma cama e uma mesa de cabeceira. O código tinha de ser utilizado naquele compartimento. Comecei a inspeccionar cada documento. Aparentemente, ela não tentou só descobrir por conta própria a morte de Zoe como também a morte de centenas de outras pessoas. Continuei a não perceber onde introduzir o código. Peguei num caso e deitei-me na cama a lê-lo. Reparei na fotografia pousada sobre o pano. Camille e Jacob estavam fardados mas ambos sorriam. Pareciam estar numa festa. Os olhos dela estavam mais brilhantes e sorria com vivacidade. Voltei a parte de trás da fotografia para mim e vi uma seta. Pousei-a na mesa de cabeceira. 
Levantei-ma freneticamente e desloquei a mesa de cabeceira mas ela não se movia. Dei-lhe uns quantos pontapés e só depois é que me apercebi que estava ladeada por dois cadeados a este e oeste. Peguei na minha arma e disparei contra os aloquetes que saltaram e voltaram a cair no chão. Posteriormente empurrei-a e vi algo parecido com um cofre no chão. Retirei do bolso a carta e introduzi o código e a portinha abriu-se. Retirei tudo o que estava lá dentro e sentei-me na mesa a analisar. 
Aquela arma era-me familiar. Aquela caligrafia desajeitada era-me muito, muito conhecida. De uma capa retirei todas as cartas que tinham sido enviadas para Zoe e descobri que algumas delas, as mais violentas, ela não me tinha revelado. 
Passei horas e horas a ler vezes sem conta os relatórios de Camille, as conclusões a que tinha chegado e os resultados dos médicos legistas. 
No fim de ter revisto todos os documentos, havia um pequeno post-it com uma mensagem.
"Às vezes as provas parecem tão abstractas. Às vezes a verdade é evidente mas preferimos não vê-la. Será isto tudo o teu caso? Sim, é."
Fiquei a perceber o mesmo.
Reparei que ainda havia outro.
"Eu sei que a mensagem anterior também foi um bocado abstracta... Precisas de consolidar informação. Pega na carta, no código para ser mais específica. Poderá ajudar-te."
Fiz o que ela me mandou. Peguei na carta e coloquei-a ao lado da arma e da caligrafia. 
Inicialmente pensei que o código fosse algo mais complicado e fiz várias combinações. Nenhuma dava nada em concreto. Estafado, e não sei como, lembrei-me que costumava escrever o meu nome com números na máquina calculadora. Era uma tentativa fracassada, mas o que tinha eu a perder? Ora, 53b45714n LL0y9, 5 correspondia a S, 3 a E, o b mantinha-se e o 4 correspondia a A. O cinco correspondia novamente a S, o 7 ao T. O 1 correspondia ao I e o 4 novamente ao A. O N mantinha-se. Abruptamente fez-se luz na minha cabeça. Não necessitei de descodificar o resto do código. Já sabia quem tinha sido o assassino em massa. Como não tinha desconfiado depois de analisar a letra e a arma? Como?
As lágrimas rolaram-me pela face. Eu sentia raiva, desespero, medo! Eu tinha um turbilhão de sentimentos de mim! Exasperado, pontapeei a mesa. Vasculhei nas estantes outros documentos porque não estava convencido que Cam só tinha descoberto aquilo. Etiquetado lá estava o nome de Sebastian Lloyd, o meu "chefe" que não era chefe! Retirei todos os documentos e li-os. Li um relatório mais completo que tinha escrito no cimo a lá "não foi forjado", o que indiciava que o anterior o fora. Li e as últimas palavras foram contundentes: enforcamento posterior a violação.
Todos os sonhos que tínhamos cultivado de ter um filho, o sonho que eu alimentava tinha-se desvanecido por causa daquele... ser pouco humano! Ele sabia o quanto estávamos a planear a nossa vida! Porquê terminar com ela? Por puro capricho e medo? 
Ouvi um barulho. Um vidro a partir e passos. Era Lloyd e a sua equipa. Procurei uma saída, e felizmente encontrei-a mais rápido do que julgava. 
Eu não estava a fugir por medo. Fugia porque queria apanhá-lo de surpresa. E só assim me iria sentir em paz.
Corri por entre a vegetação alta. Consegui apanhar um autocarro para a cidade. Percorri durante meses metade da América a pé só para chegar a casa de Lloyd. 
Vesti-me como se fosse a um casamento. Vesti o meu melhor fato e os meus melhores sapatos. Usei a minha melhor arma. Consegui entrar na sua casa que era deveras luxuosa. Quando ele se preparava para entrar eu estava mesmo em frente à porta. Foi só apertar o gatilho e a bala acertou-lhe em cheio no peito. E mais uma foi disparada, e outra... e mais outra. Era, de certa forma, bonito ver o seu sangue a jorrar das suas veias. Era bom ver que a sua vida havia terminado. Eu sentia-me bem. Lloyd pagou por tudo aquilo que fez a Zoe e a Camille. Eu já não era o Alec Williams habitual. Apercebi-me daquilo em que me tinha tornado. Eu iria continuar o trabalho de Camille... mas de outro modo. De um modo mais justo... e sangrento.

2 comentários:

RuteRita disse...

Muito obrigada querida e também por seguires. também sigo e já agora ofereço - te o meu selo oficial (:

ana brás. disse...

Muito bom mesmo!
Desculpa não ter vindo ver mais cedo, mas andei a passar uns dias no porto, e não tinha net.
Beijinho :)