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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

As Últimas Flores para o Hospital - Cap. I (Notícias)

Saí daquele autocarro que rangia por todos os cantos numa marcha acelerada. Apenas tinha cerca de meia hora para ver a minha mãe. Caminhei por aquele caminho alcatroado do costume, tentado esgueirar-me pelo meio daquela multidão que teimava em instalar-se no centro do passeio. Vendo-me na impossibilidade de passar e chegar o mais depressa possível, ultrapassei um pequeno arbúsculo meio murcho dando um salto, colidindo precisamente sobre uma poça de lama. Era uma óptima forma de se entrar num Hospital. Mesmo com as botas num estado lamentável corri até encontrar a entrada. À velocidade a que me deslocava, foi uma sorte ter parado a tempo para não embater naqueles vidros perfeitamente limpos. Alguém segurou na porta mas nem sequer tive tempo de agradecer. Procurei desajeitadamente o cartão de visitas e mostrei-o ao segurança, que já me conhecia há quase um ano devido às minhas visitas diárias. Voltei a guardá-lo no bolso esquerdo das calças. 
Olhei para trás e vi que as minhas botas tinham deixado um rasto de lama. Ruborizei mas continuei a correr. Abruptamente parei para tomar um café na cafetaria do Hospital e chamei o elevador. Para grande azar, estava repleto de gente. Mesmo assim, tentei encaixar-me em qualquer espaço. Óbvio que dezenas de vozes protestaram em simultâneo mas eu limitei-me a premir o botão para o piso que desejava e coloquei os auscultadores, uma vez que a música me acalmava. 
Finalmente ouvi um "Plim" e uma torrente de gente saiu, deixando-nos mais espaço. Encostei-me ao vidro e bati o pé impacientemente. Olhei para o meu relógio de pulso e vi que apenas tinha mais ou menos vinte minutos. Olhei para o pequeno visor que anunciava o piso e ainda faltavam alguns. Coloquei o volume mais alto e pousei os meus olhos sobre o visor. Acabei por desistir, dado que o tempo parecia não passar. Comecei a enrolar o cabelo com os dedos para passar o tempo até que, e como por magia, a porta do elevador abriu-se e eu saí que nem uma bala por ela. Percorri os corredores confundíveis e enveredei, como de costume, pelo quarto corredor que tinha as paredes de uma cor mais... horrível e antes de abrir a porta do quarto 413 ajeitei o casaco e tentei disfarçar o estado das minhas botas. Tirei um pequeno espelho da minha mala e verifiquei se o meu cabelo estava bem. Não queria que ela reparasse que tinha feito um enorme esforço por ter ido visitá-la. Finalmente abri a porta e deparei-me com a primeira doente do lado esquerdo daquele quarto. O seu corpo estava mortificado. Tinha a face pálida e parecia que estava num estado vegetativo. Caminhei mais um pouco e vi-a deitada na cama a ler uma revista de humor que alguém lhe tinha dado.
Quando me viu, pousou-a na mesa de cabeceira branca onde estava pousado um grande ramo de flores com flores campestres, que eram as suas preferidas e sorriu-me carinhosamente, pegando no comando para elevar a cama. Olhei bem para o seu estado: onde estava a sua outrora vivacidade? Onde estava aquele brilho nos olhos cada vez que me via? O cancro levou-o. Os seus olhos claros pareciam ter escurecido. O seu cabelo loiro deu lugar a uma quantidade indeterminada de cabelos brancos e a sua face lisa estava enrugada e  velha. As suas roupas pomposas, os seus saltos altos vertiginosos, os seus vestidos curtos e de cores berrantes já não eram usados por ela há quase um ano. Tinha saudades da antiga Barbara Copperfield Fielding. Daquela mulher carismática, revolucionária e exemplar. Daquela mulher que lutou até conseguir ter algo em que se apoiar quer em termos monetários e afectivos. Tinha saudades dessa mulher que teimava em ir comigo às festas com vestidos tão lindos e perfeitos que ofuscava todos os olhares e enchia a sala! Essa era minha mãe. 
- Blair? Estás em Marte ou na Terra? - inquiriu exibindo o seu esmalte vermelho vivo.
Sorri e dei-lhe um beijo na face.
- Pintaste as unhas? - inquiri pegando nas suas mãos verificando que estavam perfeitamente limadas e pintadas.
Suspirou e com uma voz de crítica resmungou:
- Ah! Estas enfermeiras não têm bom gosto nenhum nem zelam pela beleza dos seus pacientes! - fez uma pausa. - Imagina tu que tive de telefonar para a minha cabeleireira para ela se deslocar até aqui só porque estas enfermeiras se recusaram a arranjar-me devidamente as unhas! Na verdade, até estimei em vê-la. Amanhã vem pintar-me e cortar esta crina! - fez um trejeito com a boca. - E você, diga a todas as suas colegas que quando sair desta espelunca, vou denunciá-las por renunciação ao bem-estar dos utentes! - disse a uma enfermeira estagiária que se limitou a abanar a cabeça e a sair sorrateiramente.
- Mãe... não devia assustá-las dessa forma. - admoestei enquanto me sentava na cadeira.
- Mas eu vou processá-las! Não zelam pelo meu bem estar! - Apontou para a mulher mortificada. - Se lhe tivessem pintado o cabelo ou arranjado as unhas, aposto que ela estaria mais feliz! Apesar de doente estou feia! - resmungou. - Com toda esta irritabilidade e futilidade, nem te perguntei como estás? - Agarrou-me as mãos. - O que tens feito?
Sorri e sentei-me aos pés da cama.
- Eu estou bem. - respondi. - Tenho cuidado do Salvatore como me pediste, tenho verificado se a empresa está em ordem... tenho estudado, obviamente.
- E divertido?
- Tenho saído com a Erin e o Eric. - menti.
Suspirou.
- Blair... Blair... Blair... Já te disse que não necessitas de vir cá todos os dias após a universidade. Eu não quer ser um incómodo, um encosto na tua vida. A tua vida apenas a ti te pertence. Para além disso, eu estou óptima! Sinto-me bem!
- Ambas sabemos que estás a mentir. - disse.
- Tal como tu o estás a fazer. - Sorriu como que o que eu estivesse a dizer fosse uma piada. - Tens é de dizer a esses doutores que pensam que são crânios e detentores de toda a razão, que eles são todos uma cambada de ignorantes e que todos eles enfiados num saco amarrado e atirados ao oceano juntamente com uma pedra de quinhentos quilos era mais proveitoso e eu estava melhor! 
- Mãe! - admoestei. - Estás espirituosa em demasia! Mediste bem a gravidade dessas palavras? - questionei.
Ela sorriu como uma criança de cinco anos.
- Medi. Não é nada do que eles não saibam... - disse-me. - Mudando de assunto... como está a correr a universidade?
- Bem. Tenho exame a Direito Penal para a semana. - respondi.
- Deixas-me orgulhosa, sabias? Nunca pensei que irias seguir a minha profissão. Sempre te achei tão diferente de mim e tão parecida com o teu pai que nunca pensei que terias pujança para isso. Quando eu digo uma asneira, lá estás tu a medir a gravidade das palavras. Não achas que deveria ser precisamente o contrário? - Elevou a sua mão trémula mas pousou-a de imediato. - Eu sempre fui uma criança terrível e tu sempre tão sossegada... tão séria e simultaneamente querida. Completamente oposta! O teu irmão era como eu... traquina e mafioso. Às vezes tenho pena de não o ter visto crescer.. tal como vi a ti. - Começou a chorar. - Aquele maldito acidente de aviação naquele maldito helicóptero que o teu pai cismava em dirigir estragou tudo... eras tão pequenina! - Limpou as lágrimas. - Mas a tristeza não modifica o passado, portanto... vou colocar um sorriso na minha cara. - disse, exibindo um largo sorriso. - Melhor?
- Muito melhor. - respondi.
Ouvi dezenas de vezes aquela história trágica do helicóptero. Devia eu ter uns quatro meses e o meu irmão uns três anos quando o meu pai decidiu experimentar os seus dotes de piloto. Levou o meu irmão consigo para incentivá-lo a escolher a mesma profissão que ele e, quando estavam a dirigir-se aos céus do Arizona, este despenhou-se levando às suas mortes. Apesar da fama do casal Fielding a notícia só saiu nos jornais da região. Nunca quis saber as coisas muito profundamente porque sabia que a divulgação desse episódio era demasiado contundente para ela, pelo que me limitei a saber o indispensável. 
- Bem, tens de apanhar o autocarro, não é? - questionou com um laivo de tristeza.
- Hum.. tenho mas posso ficar. Apanho outro mais tarde. - disse.
- Não, vai, vai. Aproveita e vai fazer umas compras. Tens-te desleixado muito.
Sorri.
- Eu sempre me vesti assim. - relembrei.
- O que comprova que nunca tiveste bom gosto. 
- Obrigada. Aumentaste a minha auto-estima. - disse com ironia.
Ela sorriu.
- Estava a brincar contigo. Podes não ter um gosto requintado mas é... mediano. - disse na tentativa de amenizar as coisas.
Abruptamente um médico com uma idade compreendida entre os quarenta e cinquenta procurou-a com o olhar. Com as suas passadas grandes dirigiu-se até nós.
- Boa tarde menina Blair e menina Barbara.
- Senhora. - corrigiu.
Fez de conta que nem a ouviu.
- Eu queria falar com a menina Blair. Acompanhe-me até lá fora, por favor. - disse o médico com cara de poucos amigos.
Alcancei a minha mala nova e ela puxou-me e sussurrou-me ao ouvido:
- Não te esqueças de lhe dizer aquilo!
Sorri-lhe. Segui o médico que me conduziu ao seu consultório que ficava ao fundo do corredor. Abriu-me a porta e fez sinal para entrar. Passei pelo pequeno espaço que ele tinha deixado e sentei-me na cadeira almofadada, pousando a mala sobre as coxas.
- Eu tenho uma notícia para lhe dar... - disse meio atrapalhado. - odeio ter que fazer isto mas tem de ser. - suspirou. Temi a notícia. - Hum... Nós não vamos conseguir extrair o cancro. Na última intervenção cirúrgica tínhamos uma noção completamente diferente daquela que temos actualmente. Exames mais rigorosos, divulgaram-nos a impossibilidade de o extrair. Num espaço de meses ele expandiu-se por quase todo o corpo. Não tardará a chegar aos pulmões... impossibilitando-a de falar. Posteriormente chegará ao coração e... aí não há nada a fazer. Podemos amenizar a dor dela, mas a cura já não é possível. Lamento... não esperava dar-lhe esta notícia. 
Fiquei, sem reacção possível a olhar para o médico que me fitava com alguma preocupação. Senti que me faltava o ar e então lembrei-me de respirar. 
- Tem... a certeza? - questionei com a voz trémula.
Ele abanou a cabeça de modo afirmativo.
Pisquei os olhos algumas vezes e comecei a ver tudo preto. Tudo o que me circundava era negro até que senti uma estranha sensação de leveza. Algumas vozes chamavam incessantemente o meu nome. O meu espaço negro começou a adquirir um tom brilhante que ofuscava a minha visão. Notei então que alguém fazia incidir sobre os meus olhos uma luz forte. Senti alguém a espetar-me algo nos braços. Queria gritar de dor mas não conseguia. Tentei lembrar-me do que se tinha passado e lembrei-me daquelas palavras contundentes. As minhas lágrimas irromperam numa marcha silenciosa e copiosa, caindo nos lençóis da cama. Esperei que todos os que circundavam saíssem para arrancar aqueles fios de soro e dirigir-me para o quarto da minha mãe. Sorrateiramente atirei algo para o chão e enquanto todos se preocupavam para ver o que tinha caído, arranquei aqueles fios e comecei a correr o mais que podia. Esbarrei contra um enfermeiro mas levantei-me rapidamente até que entrei no quarto e me dirigi ao local do costume. 
- Blair? Estás com um olhar tão alienado! - disse enquanto tossia compulsivamente e as voz lhe falhava.
Agarrei-me ao seu pescoço.
- O que se passa? - continuou.
- Nada. Vou embora. - disse, enquanto escondia as marcas das agulhas. 

14 comentários:

Al* disse...

Sim, nao se percebe. mas gostei *.*

kiss, Al*

disse...

Gostei, e muito!
Vai ter continuação?

Catarina disse...

adorei meu amor :o
adoro a maneira como descreves o momento e como das aquele toque especial a historia

lara beatriz disse...

Diferente, mas gostei muito. :)

lara beatriz disse...

Claro, e como talvez as pessoas tivessem à espera de algoque envolve-se registo policial, assim ainda nos cativa mais. :)
Muito obrigada, eu sinceramente ainda me considero muito'verde'nesta área. beijinho :*

lara beatriz disse...

Eu compreendo, também envolvo paixão em tudo o que escrevo, mas não sei isso não consigo imaginar uma história decente para escrever xb
Óh, que simpática. :)
Também gosto de ler as tuas histórias mais de que alguns livros, porque além de serem do tipo que costumo ler, acaba por ter sempre algo que nunca se espera. :

bloooooooooog * disse...

està muuuuito bom *-*
mas vai ter continuação ? /:

lara beatriz disse...

Não duvido. :)
É normal e além disso é isso que torna as histórias diferentes, cada um tem o seu jeito de escrever e género de escrita mais confortante. Espero que tenha, pois saís-te sempre bem quando escreves uma história com crime pelo meio. :)
Prometo que irei tentar escrever sempre que possa e alegra-me que haja alguém a gostar do que escrevo. :)

Catarina disse...

okay está combinado :b
obrigada*

hayley bellamy disse...

q cena ;s eu tou melhor. já sou eu outra vez :D beijs

disse...

Sim, foi este! Obrigada :)
Ainda bem que gostas-te

Gonçalo disse...

Gostei muito do teu blog e estou a seguir :)
Já agora adorei o texto e a tua maneira de escrever :D

*

bloooooooooog * disse...

ainda bem , pq està muiito lindo *-*

Victória J. Esseker disse...

Então eu tive a ideia de passar por este teu blog que não costumo passar muito por falta de tempo (my fault) e li isto e achei awesome.
Gosto muito do início, para mim quando pego num livro ou seja qual obra literária for tenho de gostar da primeira frase, pode ser um erro meu ser assim mas acho que quando um escritor nos consegue agarrar desde o início é sinal de talento. E a tua descrição da Blair a desmaiar está um máximo, não o dizes, descreves-o, that's just awesome.