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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Como Desaparecer Completamente - Salvação (Cap. III)

               Don__t_leave_by_rosiehardy_large

Os meus olhos continuavam cerrados renunciando aquela hipótese que me havia sido dada. Parte de mim ainda estava inconsciente. Eu conseguia ouvir o som impetuoso das ondas do mar a embater nas rochas, já desgastadas, com uma brutalidade quase inimaginável. Sobre o meu corpo caía copiosamente as gotas grossas da chuva, ensopando a minha indumentária já irremediavelmente ensopada. O frio tinha-se apoderado de mim. O forte vendaval ainda se abatia sobre a região e o meu corpo, parcialmente nu, estava exposto ao imperioso vento. Vozes inquietas e alarmantes faziam-se ouvir, provocando-me uma dor de cabeça dilacerante. Não tinha forças para gritar. Sentia a minha respiração fraca, cada vez mais fraca até que acabei novamente por ficar inconsciente.
Quando referiam "inconsciente" pensava que não se conseguia sentir, ouvir absolutamente nada. Porém, estava redondamente incorrecta. Os meus olhos tinham-se cerrado involuntariamente mas eu conseguia sentir cada abanão que me davam, cada palavra proferida a bom som, cada tentativa de me trazerem à vida quando o meu desejo se opunha, claramente, à vontade daqueles estranhos que me pareciam circundar tentando salvar a alma e o corpo de alguém que desejava partir para encontrar quem mais amava. Queria impedi-los. Queria que me atirassem novamente ao bravio mar e que deixassem a minha cabeça rachar-se numa rocha como se fosse um cavaco a ser partido por um machado. Essa era a minha verdadeira vontade.
Podia ser de certa forma insano da minha parte desejar a minha própria morte mas eu não tinha mais nada para viver. Tudo o que tinha para viver teria de ser ao lado de Logan e ele já não permanecia mais comigo. Ele tinha partido impiedosamente, deixando-me num local cruel com sequelas que nunca seriam apagadas totalmente. Só havia uma maneira de as apagar e eu tê-lo-ia conseguido se a multidão que me envolvia carinhosamente me tivesse deixado seguir o rumo que eu tinha destinado à minha vida.
O número de vozes parecia intensificar-se com o passar do tempo. Alguns questionavam quem eu era e onde estava, onde me encontrava e porque estava vestida daquela maneira. Outros, porém, protestavam por ainda não me terem feito absolutamente nada, nem me terem envolta de uma manta para estabilizar a minha temperatura corporal uma vez que, muito provavelmente, estava hipotérmica. Outros, caminhavam como desalmados pelos seixos, chamando e barafustando com as autoridades devido à ineficiência, uma vez que já tinha passado uma hora desde que me haviam recolhido no mar e ninguém se atrevia a ajudar alguém que necessitava de ajuda.
Se eu pudesse, se eu conseguisse mexer-me, levantar-me e bradar a todos aqueles filantropos que não necessitava de qualquer tipo de ajuda e que podiam ir-se embora e deixar-me levar o meu plano avante... mas eu não podia. Não conseguia sequer movimentar um dedo. As minhas costas estavam pousadas nos seixos mesmo na orla marítima e, subitamente, ouvi alguém irromper por entre a multidão que se aglomerava em torno de mim, alegando ter encontrado algo que me pertencia. Óbvio que tinha encontrado: a minha carteira com todos os documentos. Finalmente tinha tomado conhecimento da minha identidade.
Numa voz forte, segura e masculina, aquele homem que não conseguia visualizar, ordenou que se afastassem de mim, que me dessem espaço para respirar. Acrescentou que sabia o que estava a fazer. Pedi com todas as minhas forças que ele acabasse por me matar. Contrariamente às minha preces, ele juntou as suas mãos e pressionou o meu peito, contando baixinho. Pressionou umas quantas vezes mas não parecia estar a resultar. Baixou-se e ouviu o batimento do meu coração. Constatou que eu ainda estava viva. Mais uma vez pressionou o meu peito com mais força, repetindo nervosamente "vá lá! Acorda!".
Subitamente senti algo a querer irromper pela minha garganta. Fui obrigada a acordar. Comecei a tossir compulsivamente e um jacto de água irrompeu pela minha garganta, embatendo contra os seixos e as minhas roupas ensopadas. Abri lentamente os olhos. Dezenas de pessoas rodeavam-me, estupefactas e com um ar expectante. A pouca luz solar fazia-me ainda arder os olhos, ao contrário do que eu esperava. As minhas pernas doíam-me, as minhas costas estavam num estado lamentável e os meus braços pareciam estar amarrados. Olhei para quem me circundava ainda com a visão turva. Um homem com cerca de trinta anos ladeava-me fielmente, medindo constantemente a minha pulsação de forma rudimentar. Não me olhava sequer. As outras pessoas pareciam estar de férias. Não era para menos. Em Junho já se viam alguns turistas na costa americana mesmo que o tempo e clima não fossem propícios para acampar nem dar um passeio agradável e seguro na praia. Tentei levantar-me mas as minhas forças eram escassas. Alguém me obrigou a continuar deitada sobre os seixos. Fixei novamente cada rosto enquanto a minha respiração normalizava. As suas faces voltaram a sofrer transfigurações. Os seus semblantes outrora normais tinham-se transformado em semblantes que se assemelhavam a pequenas junções de vários demónios. Alguns reviravam-me os olhos mostrando-os completamente negros. Outros executavam trejeitos com a boca, zombando de mim e da minha momentânea incapacidade. O medo começou a apoderar-se de mim. Tentei esgueirar-me, recolher forças para esquivar-me mas eu não me conseguia mover. A minha face exibia um misto de sentimentos: medo, horror, repugnância... culpa.
As lágrimas caíam-me copiosamente pela face abaixo e a minha respiração era ofegante. A imagem graciosa de Logan irrompia constantemente fazendo desejar ainda mais um ponto final na minha mísera vida.
Abruptamente olhei para o meu lado. O homem continuava ao meu lado, analisando-me. Não proferiu qualquer palavra. Fixei-o e vi que o seu semblante permanecia perfeito, sem qualquer intervenção sobrenatural criada pela minha mente. O seu rosto branco coberto de barba mal feita castanha mantinha-se precisamente igual. Os seus olhos verdes água não tinham sido substituídos por uns olhos negros que aterrorizadores. O seu cabelo castanho também não tinha desaparecido. Todo ele mantinha-se intacto. Olhei-o com estupefacção, inquirindo-me por que razão ele não tinha ficado como todos os outros. Ainda me estudando, e percebendo o meu estado de alarme e de receio, aproximou-se de mim e colocou a sua mão gelada sobre a minha testa. Eu não estava a delirar com febre. Teria ele percebido que eu via coisas?
- Está bem? - questionou com uma voz trémula, tentando arrancar algo de mim.
Respondi afirmativamente.
- Posso tratá-la por Ashley? Encontrei os seus documentos pessoais no seu carro, à berma da estrada, perto da falésia. - fez uma pausa. - É melhor ir ao Hospital. Eu levo-a, isto é se me deixar transportá-la.
Um burburinho irritante fazia-se ouvir. As faces tinham-se eclipsado mas elas voltariam mais cedo ou mais tarde. Era certo.
O homem levantou-se e caminhou um pouco sobre os seixos, levantando os seus magnificentes braços apelando à sensibilidade das pessoas para pararem de conversar e encaminharem-se para casa, uma vez que me iria levar ao hospital, visto que, a ambulância não dava indícios de chegar. Encaminhou-se para o meu lado e pediu autorização para me pegar. Acedi de mau grado, tentando transmitir o oposto.
Os seus braços colocaram-se por debaixo das minhas costas muito lentamente de modo a não me magoar. Levantou-me como se eu fosse uma pena. Encostou-me contra si e começou a caminhar sobre os seixos que chocalhavam constantemente e sob a chuva que não caía tão copiosamente como outrora havia caído. Não pude deixar de sentir o seu perfume adocicado. Era o que Logan usava. A nostalgia invadiu-me. Tentei-me conter mas a dor que me assolava cada vez que me lembrava da sua face era tamanha e dolorosa. Larguei umas lágrimas silenciosamente.
Ele acomodou-me confortavelmente no banco traseiro do seu carro. Arremessou uma quantidade de casacos que ele tinha no seu carro e colocou-os sobre o meu corpo para a minha temperatura aumentar. Colocou o cinto de segurança de modo a que eu não me movesse o suficiente para cair.
- Está confortável? - questionou, depois de me encher de casacos.
- Sim, agradeço. - disse-lhe com uma vontade súbita de lhe dizer "Por que não me deixou no meio do mar para ser devorada pelos peixinhos, hã?!" Porém, não o fiz. Mantive-me serena, até porque o homem tinha boas intenções embora as intenções dele não coincidissem com as minhas de forma alguma.
O perfume inebriava-me. Fazia-me sentir a presença de Logan. Fazia-me senti-lo a meu lado mesmo sabendo que isso era impossível.
Lembrei-me do que se tinha passado na praia e da minha questão da razão pela qual aquele homem não tinha ficado com a face transfigurada. Não cheguei a nenhuma conclusão.
- Posso saber o seu nome? - inquiri com uma voz trémula.
Ele olhou para trás, rodando o seu tronco exibindo uma t-shirt cinzento-clara com o estampado da empresa onde Logan trabalhava. Não o olhei.
- Stephen Smith. - respondeu, fixando novamente o seu olhar claro na estrada.
- Obrigada. - agradeci, mentindo quanto ao agradecimento. Eu não queria que ele me salvasse.
- Não tem que agradecer, Ash. - disse, sorrindo-me.
Fiquei paralisada. "Ash". Ash era o diminutivo pela qual, única e exclusivamente, Logan me denominava. Para a minha família sempre havia sido Lia, em honra à minha avó paterna.
- Hum... posso chamar-lhe Ash, certo?
- Certo. - disse, tentando esconder a minha vontade de choro compulsivo.
Stephen continuou a conduzir moderadamente pela rua fora sem me questionar sobre mais nada.
Eu sabia que ele tinha detectado qualquer anomalia em mim. Ele parecia estar a estudar-me na praia. Estava atento a cada expressão minha, a cada movimento que eu executava. Ele parecia saber o que eu sofria mas eu não tinha coragem de o abordar sobre isso. Não o conhecia de lado nenhum nem tencionava conhecê-lo muito mais.
Custava-me respirar. Os meus pulmões, bem como a minha garganta, pareciam estar a entrar em combustão. As minhas costelas doíam e a dor de cabeça impiedosa consumia-me lentamente. Os meus olhos pesavam e tendiam a querer cerrar-se. O carro embalava-me e aquele perfume inebriava-me. A música que Stephen ouvia era relaxante, propícia para eu adormecer. Mas eu não queria. Tinha receio do que podia fazer, fazendo com que Stephen duvidasse mais da minha sanidade. Porém, o cansaço apossou-se de mim, levando-me a fechar os olhos e a descansar.


31 comentários:

aR disse...

wow simplesmente fantástico!

Ghost Writer disse...

Esta história está ficando cada vez mais intrigante e... agonizante!

Pude me transportar aos sentimentos de agonia de Ash, aquele desejo insáciavel de morrer, de ficar em paz, enquanto todos lutavam para contrariá-lo.

É uma aflição que todo suicida que fracassa tem que atravessar e é preciso bastante conhecimento de causa para saber como se sente tão intensamente este ódio profundo do resgate, este desejo intenso de que eles fracassem e não você, que se sente no direito de decidir o que há ou não há de fazer com sua vida. E de não saber como lidar com o porvir, com as frustrações de seu plano de morte ter dado errado e ser obrigado a permanecer em vida.

Ash certamente está em um estado de esquizofrenia, mas ao mesmo tempo, uma esquizofrenia lúcida, o que deixa o leitor com os pensamentos tão confusos quanto os dela.

E este Stephen, um novo personagem que surgiu subitamente de forma estranha, tendo o conhecimento de características que somente o falecido Logan e Ash tinham, nos põe a pensar que finalidade possui neste enredo.

Muito bom, muito bom mesmo Hayley, não me admira que tenhas vencido um concurso de escritos.

Bee :D disse...

Lindo Lindo Lindo! Amei!

Rita Farinha disse...

amei amei amei amei

mariana f. disse...

oh, é merecido!
não te importas que envie a história a quem pedir pois não?)

Rita Farinha disse...

thanks :)

Luciana disse...

Gostei muito do blog, fica aqui o link do meu se quiseres espreitar:
http://lucianapacifico.blogspot.com
bjs ;)

mariana f. disse...

para já pediu-me uma pessoa, mas já me disseram, também, que leram e adoraram (:

ac disse...

Olá *-*
Eu também tinha saudades tuas :D
Para a semana já devo publicar o video :p
Bem , uma pessoa está longe e quando volta só têm surpresas agradáveis , vou já devorar esta historia «3

ac disse...

só tenho a dizer que estou sem palavras :|

Luciana disse...

Obrigada eu (:

ac disse...

a verdade é que eu venho ao blog todos os dias , mais que uma vez ... mas não sei , acho que andei naqueles dias que não sabia falar com ninguém nem sabia o que dizer . Eu sei que vocês compreendem , porque são os melhores :D
então? por causa da escola ? :(
eu estou a adorar , não era de esperar outra coisa :D

ac disse...

Realmente , não é nada bom :s
Eu tenho um exame para a semana (espero que corra bem ) e acabo a escola de uma vez por todas :')
Aposto que os teus testes vão correr bem :D
Era óbvio que eu ia gostar , assim que possas publica a parte quatro :D

mary b disse...

eu já arrumei xd

мαя™ disse...

Mais uma vez, sem palavras de tão bom estar! Estou a ver que gostas da palavra 'copiosamente' :)
Ai Stephen *-* fico à espera de mais.

Quando ao 3º capítulo da minha, irei tentar publicá-la ainda este fim de semana. Mas, antes disso, ainda devo escrever uma coisa que tenho na cabeça <3

Kissu*

мαя™ disse...

Não repetiste muito, mas achei alguma piada :P
Wooow! Isso é uma palavra e tanto o.o
Eu gostei do Stephen 8D Que mais se pode esperar de um homem de olhos verdes? *-*

Okay! <3

мαя™ disse...

Os padres hoje em dia, já não são o que eram antigamente! xD Pois podia, isso é verdade, podia ser pior :P

Epá, olhos verdes é aquela cena 8D
Eu amo *-* adoro olhos verdes!

мαя™ disse...

Alguns padres são engraçados :P
Embora, nunca tenha conhecido nenhum, facto.

Também gosto de azuis, mas prefiro os verdes. Aqui em casa, há uma variedade enorme de cores, por isso :P

Supernatural *-* *fangirl time* Dean & Castiel <33

мαя™ disse...

Aqui é verdes, azuis, hazel, castanhos claros e escuros...é todo um rainbow :P

Eu acho que o actor que faz de Castiel está 5*. Tem um ar sério, mas depois, em situações completamente normais, é um riso :P
E o Dean...sem comentários xD

Soraia Torres disse...

Olá !
Ora essa , a verdade é qe gostei muito do teu blog ;D
Beijinhos <3

Soraia Torres disse...

ainda bem ;D
Oh , obrigada , fofinha ..

ritag. disse...

obrigada minha querida *.*
gostei muito deste capítulo, beijinho (:

MaM@tias disse...

LINDA !!!!!

Fantastica ! Está muito boa, mesmo muito !

Vou seguir, tambem segues ?

marianasalt disse...

aorei a serio!
sigo e com muito prazer <3

ac disse...

NÃO ACABES COM O BLOG !
nós estamos aqui a tua espera *-*

мαя™ disse...

Já vi essa parte! Adorei! xD É simplesmente demais <3 do futurismo não vi :/ só consigo ver de vez em quando

O Dean é mesmo algo do outro mundo! xD
Eu atirava-me ao mar e depois ele tinha de vir...espera, faz-me lembrar a tua história :P

ac disse...

sim , avisa ... mas não acabes a sério :/

Al* disse...

Esta história é simplesmente viciante. Adoro a maneira como aproximaste o Stephen do Logan apesar de ser doloroso para ela.
Estou a amar esta história , ansiosa por mais *.*

kiss, Al*

lara beatriz disse...

ameiiiiiiiiiii *-*, estou mesmo ansiosa para saber o que se vai passar :o

S.alves disse...

Quando mais esperamos, quando mais acreditamos que nunca mais vamos voltar a sentir o que sentimos, chega alguém e faz pequenos grandes momentos virem ao de cima e isso, faz querer ter tudo de volta.

Está lindo, lindo!
Eu quero saber o que vai acontecer agora, quero mesmo. Já sabes, voltes daqui a dias ou daqui a meses, eu vou continuar aqui à espera das tuas proximas palavras (:

karina disse...

amei, completamente intrigante :)